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id da página: 334 Frithjof Schuon O Olho do Coração Frithjof Schuon

Schuon En-Nur


Segundo um ensinamento (hadith) do Profeta, "a primeira das coisas que criou Allah (isto é: a primeira Realidade não manifestada na tendência divina à manifestação, ou a primeira autodeterminação divina em vista da criação) é o Calame (Qalam) que Ele criou de Luz (Nur), e que é feito de pérola branca; seu comprimento é parecido com o que está entre o céu e a terra (a distância que os separa, isto é: a incomensurabilidade entre as manifestações informal - ou supra-formal - e formal). Em seguida Ele criou a Tábua (Lawh, ou Lawh el-mahfuzh, a "Tábua guardada"), e ela é feita de pérola branca, e suas superfícies são de rubi vermelho; seu comprimento é parecido com o que está entre o céu e a terra, e sua largura vai do Oriente ao Ocidente" (ela abarca todas as possibilidades de manifestação). - Segundo um outro ensinamento, "há junto a Allah uma Tábua da qual um lado é de rubi vermelho e o outro de esmeralda verde (cores que, como o vermelho em relação ao branco, indicam a diferenciação das tendências cósmicas, os gunas da doutrina hindu), e seus Calames (Aqlam) são de Luz" (o Princípio de manifestação universal - o Purusha hindu - é concebido aqui como uma pluralidade de raios verticais que correspondem respectivamente às possibilidades essenciais derivadas dos Nomes divinos ou Aspectos do Ser). Uma outra tradição, relatada por Ibn Abbas, ensina que "Allah criou o Calame antes que Ele criasse a Criação (Khalq), e Ele estava sobre o Trono (Allah está sobre o trono a partir do momento em que uma relatividade é visada, o Trono significando, aqui, não a manifestação informal, mas a imutável Transcendência ou a incomensurável "descontinuidade" do Princípio em relação a Seus Aspectos mais ou menos relativos; de modo que esta segunda proposição quer dizer que o Princípio ontológico permanece inafetado por Sua bipolarização da qual procederá a Manifestação cósmica) e o Calame olhou para Ele com um olhar de temor reverencial (haybah) e se fendeu; e a Tinta (Midad, que representa a possibilidade inicial e indiferenciada de manifestação, enquanto que as Letras - Huruf - marcam sua diferenciação indefinida) gotejou dela". - A Incomensurabilidade divina tendo-se espelhado no Calame, - Sua autodeterminação existencial, - este não pôde conter nos limites de sua determinação a incomensurabilidade da Indeterminação divina, e traduziu Esta em modo diferenciado; a Tinta é portanto o reflexo da Toda-Possibilidade, - reflexo que, sendo tal, não saberia equivaler senão à única possibilidade de manifestação, - e será transmutada pelo Calame em possibilidades existenciais indefinidamente diversas. A Toda-Possibilidade é o conjunto dos Nomes (Asma) ou Mistérios (Asrar) divinos, e é aí igualmente a acepção superior das Letras que serão então concebidas como inerentes seja à Essência suprema (Dhat), portanto ao "Não-Ser", seja às Qualidades (Sifat), portanto ao Ser, sem prejuízo de que o Ser é "um", ad intra (ittisalen) assim como ad extra (infisalen); é assim que as Letras superiores (puramente principiais, cada uma sendo Allah, mas nenhuma sendo as outras), "se espelham" no Calame que, "feito de Luz", recebe seu reflexo e "se fende" sob a "pressão" (simbolizada por el-haybah, o "temor") de sua incomensurabilidade, para as transcrever em modo manifestado, criado, "quebrado".

(2) Ibn Abbas diz que "o Calame é fendido, e a Tinta escorre dele até o Dia da Ressurreição (Yawm el-Qiyamah, isto é, enquanto "dura" o ciclo da Manifestação universal); e Allah ordenou ao Calame: Escreve! E o Calame respondeu: Senhor, o que escreverei? Ele disse: Transcreve Minha Ciência de Minha Criação; tudo o que existirá até o Dia da Ressurreição (o conjunto das possibilidades de manifestação incluídas na Onisciência divina)". - De acordo com Said ben Mansur, "a primeira das coisas que escreveu o Calame foi: em verdade, Minha Misericórdia precedeu Minha Cólera" (Inna Rahmati sabaqat Ghadabi). - Ibn Abbas relata também que "o Calame retraçou naquela hora o que existirá até o Dia da Ressurreição (o pralaya da doutrina hindu), e o que foi determinado em termos de bem e de mal e de felicidade e de infelicidade, em conformidade com a Palavra divina: Nós contamos (predestinamos) toda coisa em um modelo (um protótipo) preciso (Corão, surat Ya Sin, 11); o que quer dizer: sobre a Tábua guardada". - "Em verdade, há junto a Allah uma tábua de pérola branca que ele olha a cada dia e a cada noite com trezentos e sessenta olhares; e por cada olhar, Ele cria e faz subsistir e mata e vivifica e destrona e entroniza e faz o que Ele quer" (isto é: o que nenhuma vontade individual jamais saberia modificar, e o que os indivíduos como tais ignoram as causas). - Enfim, cita-se ainda este ensinamento do Profeta: "Allah escreveu os destinos das criaturas cinquenta mil anos (número simbólico que exprime a incomensurabilidade entre a ordem principial e a ordem manifestada) antes que ele criasse os Céus (a manifestação informal) e a terra (a manifestação formal)". E um comentador acrescenta: "Este hadith demonstra que o Calame precedeu (principialmente e ontologicamente) o Trono, e que ele é a primeira das coisas criadas (esta palavra tendo aqui o sentido não de "manifestado", mas de "determinado"); e Ele criou a Tábua depois dele (o Calame)".

(3) Se a Criação ocorreu cinquenta mil anos após a inscrição dos "destinos das criaturas", - importa insistir nisso, - este intervalo simbolicamente temporal marca a transcendência do Calame e da Tábua em relação ao resultado de seu "ato comum"; quando se considera este como uma "predestinação", segundo a terminologia ocidental, - dever-se-ia antes dizer "repartição" (qismah, de onde a palavra turca kismet) ou "escolha" (ikhtiyar), - é preciso ter o cuidado de entender isso no sentido de uma relação puramente principial, portanto extratemporal. Os dois "Instrumentos" da Manifestação universal são eles mesmos respectivamente as duas primeiras Letras do Alfabeto divino, a saber, o Alif e o Ba; todas as outras Letras estão contidas virtualmente no ponto diacrítico sob o Ba, este sendo a imagem refletida da Unidade divina; ele é a primeira gota de Tinta que se escapou do Calame, e sua significação é "Misericórdia" (Rahmah).

(4) O ato comum dos dois Instrumentos divinos tem dois aspectos, um principial e o outro efetivo, em conformidade com o que enunciam as precedentes citações: com efeito, "o Calame retraçou naquela hora o que existirá até o Dia da Ressurreição", e "Allah escreveu os destinos cinquenta mil anos antes que ele criasse os Céus e a terra"; mas por outro lado, "a Tinta escorre até o Dia da Ressurreição"; isto é, não somente o Calame escreveu, mas ele escreve de uma forma permanente à medida que as coisas se manifestam; no primeiro caso, ele determina as possibilidades de manifestação na ordem principial, e no segundo, ele as realiza na ordem manifestada por seu ato imediato. Acrescenta-se ainda que as duas superfícies da Tábua são simbolicamente iguais aos "dois mares" (bahrayn), isto é, às "Águas superiores" e às "Águas inferiores", que são respectivamente as possibilidades informais - ou supra-formais - e as possibilidades formais.