Quando se fala do homem, pensa-se primeiramente na natureza humana enquanto tal, isto é, enquanto ela se distingue da natureza animal. A natureza especificamente humana é feita de centralidade e de totalidade e, portanto, de objetividade, esta sendo a capacidade de sair de si e aquelas a capacidade de conceber o absoluto. Em primeiro lugar, objetividade da inteligência: capacidade de ver as coisas como elas são em si mesmas; em seguida, objetividade da vontade, de onde o livre arbítrio; e enfim, objetividade do sentimento - ou da alma se se preferir: capacidade de caridade, de amor desinteressado, de compaixão. "Nobreza obriga": o "milagre humano" deve ter uma razão de ser proporcionada à sua natureza e é isso que predestina - ou condena - o homem a se superar; o homem não é inteiramente ele mesmo senão se superando. De forma paradoxal, é somente se superando que o homem se situa em seu próprio nível; não menos paradoxalmente, recusando-se a se superar ele se situa abaixo do animal que - por sua forma e por seu modo de contemplatividade passiva - participa adequadamente e inocentemente de um arquétipo celeste; sob um certo aspecto, o animal nobre é superior ao homem vil.
O valor individual do homem pode ser seja físico, seja psíquico, seja intelectual, seja ainda os três ao mesmo tempo. Os valores mais exteriores são a beleza e a saúde do corpo; a primeira manifesta nossa "deiformidade", e a segunda se acrescenta a título de norma. Há, em seguida, o valor moral, que é a beleza da alma ao mesmo tempo que participa da inteligência; há, enfim, o valor do espírito. O homem não é responsável nem por sua beleza nem por sua feiura - salvo em certa medida ao envelhecer - mas isto não saberia impedir que a beleza como tal seja um valor que pode contribuir para a alquimia espiritual; a feiura também, aliás, mas de uma forma indireta e a contrario, a título de suporte de certas tomadas de consciência. Quanto à saúde do caráter, o homem é de toda evidência responsável; se ele a possui por natureza ele deve mantê-la, pois ele poderia perdê-la; se ele não a possui, ele deve adquiri-la.
E o homem é assim feito que sua inteligência só tem valor efetivo ao se combinar com um caráter virtuoso. De resto, não há homem virtuoso que seja totalmente desprovido de inteligência; e quanto ao homem inteligente, sua capacidade intelectual só tem valor pela verdade. A inteligência e a virtude não são conformes à sua razão de ser senão por seus conteúdos ou arquétipos sobrenaturais; em uma palavra, o homem não é plenamente humano senão se superando, portanto em primeiro lugar se dominando.
No que se segue, acontecerá de se dar conta de fatos sem dúvida muito evidentes, mas o assunto obriga a isso, pois não se pode passar em silêncio nenhum aspecto do homem, mesmo que seja dos mais exteriores. Também a exposição, em parte ao menos, terá mais o caráter de uma enumeração que o de uma especulação, e isso pela força das coisas; sem esquecer que os truísmos podem ter sua razão de ser a título de introdução. Se portanto a exposição corre o risco de parecer um pouco heteróclita, a razão está no próprio assunto, isto é, na complexidade do fenômeno humano; espera-se poder ser consciencioso sem ter de ser muito pedante.