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id da página: 410 Schuon – Em Busca dos Vestígios da Religião Perene – Obstáculos da Linguagem da Fé Frithjof Schuon

Schuon Religio Fe

Obstáculos da Linguagem da Fé

  • Super-acentuação do aspecto "servidor" no Cristianismo no rito da Consagração
  • Como Tomás de Aquino analisa esse problema
  • Das hóstias consagradas restando depois da missa (Decreto de Graciano)
  • O ouro dos cálices
  • Da expressão elítica na literatura piedosa do Islã
  • Alguns exemplos de hadiths
  • Uma proposição do califa Ali contra o vinho

Resumo detalhado

  • No Cristianismo, tal como em outras tradições, encontram-se exemplos característicos da sobreacentuação do aspecto "servidor" da natureza humana.

  • Utiliza-se o termo "sobreacentuação" não para impor limites à virtude da humildade, na medida em que esta é determinada por uma situação objetivamente real — sem o que haveria excesso e não norma —, mas para especificar que um determinado sentimentalismo religioso está sempre propenso a exagerar a indignidade do homem.

  • Essa sobreacentuação se manifesta na tendência a reduzir o homem total e deiforme ao homem parcial e desviado, e, eventualmente, a reduzir o "homem enquanto tal" a "determinado homem".

  • Isso se reflete, de certa forma, no ato de suplicar a Deus, antes do rito da Consagração, "que receba favoravelmente esta oferenda de vossos servidores", ou "que faça descer o Espírito Santo" sobre as espécies eucarísticas, transformando-as "por um favor de tua bondade" no corpo e sangue de Cristo, e outras fórmulas desse tipo, conforme as liturgias.

  • Essas súplicas dão um caráter objetivo e sacramental a uma disposição subjetiva e moral.

  • São Tomás de Aquino, ciente do problema, questiona primeiramente se a súplica em questão não seria "um rogo supérfluo, já que o poder divino produz infalivelmente o sacramento".

  • Ele responde que, por um lado, "a eficácia das palavras sacramentais poderia ser contrariada pela intenção do celebrante".

  • Por outro lado, ele afirma que "não há nenhuma inconveniência em pedir a Deus o que estamos seguros de que realizará".

  • Por fim, São Tomás de Aquino conclui que o sacerdote roga, não para que a consagração se cumpra, mas "para que ela nos seja frutuosa".

  • O Aquinate baseia-se em um texto de Santo Agostinho, que, por sua vez, comunica uma opinião de Pascasio Radberto.

  • Estas explicações são plausíveis, exceto talvez no que se refere à legitimidade de uma petição cuja concessão é segura, pois esta legitimidade, embora evidente em certos casos, não parece sê-lo no caso de um sacramento.

  • As explicações de São Tomás não dão conta, contudo, do porquê da própria formulação, que é o ponto central sob o aspecto da linguagem religiosa, e isso independentemente das variações litúrgicas.

  • Relativamente à intenção subjacente — não à forma explícita — das preces eucarísticas, argumentou-se não só que elas se explicam pela indignidade do homem em si, mas também que a Missa é um "ato comunitário" e que se busca expressar o sentimento da assistência.

  • Sem querer estender-se na questão, que está fora do tema, observa-se que essa concepção do papel mais ou menos sacerdotal da assistência leiga é das mais ambíguas e pode dar lugar a muitos abusos, apesar das delimitações teológicas que, ademais, divergem de uma confissão para outra.

  • Outro exemplo de sobreacentuação religiosa é o do Decreto de Graciano (século XII), que estipula que, se sobrarem hóstias consagradas após a Missa, os sacerdotes "devem ser diligentes em consumi-las com temor e tremor".

  • Embora o sentido do sagrado exclua toda desenvoltura, isso não justifica uma expressão que dê a impressão de colocar um moralismo irritado no lugar da esperança que é simultaneamente vivificadora e pacificadora e que se impõe aqui.

  • O fiel deve ser capaz dessa esperança, sob pena de estar desqualificado para o rito.

  • A atitude que deve prevalecer em um caso como este não pode ser a de "temor".

  • A atitude correta é, ao contrário, um recolhimento contemplativo feito de serenidade e de santo gozo.

  • Esse recolhimento combina-se com o temor reverencial, sem dúvida, mas não ao ponto de reduzir toda a abordagem a um reflexo de separação ou de afastamento.

  • São Julián Eymard, apóstolo da adoração do Santíssimo Sacramento, não teria aprovado essa atitude.

  • A expressão de Graciano faz sentir o que há de inconscientemente profanador na vulgarização do sacramento eucarístico, ditada por uma piedade mais emotiva do que realista.

  • Tal piedade esquece o mandamento de não dar "aos cães o que é sagrado".

  • Esquece-se o princípio de que a caridade bem compreendida depende da verdade e, portanto, da natureza das coisas.

  • Há algo singularmente desproporcionado ou "desagradável" no fato de consumir hóstias consagradas pela simples razão de que há demasiadas e não se quer conservá-las.

  • Há nisso uma dissonância que indica a disparidade entre o sacramento e a aplicação que dele se faz, ou entre a natureza do sacramento e uma certa interpretação carente de realismo e flexibilidade.

  • Trata-se de subestimar a Deus por excesso de zelo.

  • Acrescenta-se que é muito preferível o tremor de Graciano à impertinência dos modernistas.

  • Ao considerar neste contexto o cálice dourado da Missa, recorda-se uma expressão que também atesta o "ostracismo" ocasional do sentimentalismo religioso.

  • Lê-se mais de uma vez que o ouro não é mais do que um "metal vil" enquanto a alma é bela, e outras expressões desse gênero.

  • O fato de o ouro ser matéria não o torna "vil" de modo algum, sem o qual a hóstia consagrada e, a fortiori, o corpo de Cristo e o da Virgem — elevados ao Céu e não destruídos — seriam "vis" igualmente, quod absit (o que não aconteça).

  • É necessário possuir uma mentalidade fundamentalmente moralizante para confundir, na prática, uma inferioridade simplesmente existencial com uma baixeza moral.

  • O próprio fato de o cálice da Missa dever ser dourado desmente tal abuso de terminologia, com a desagradável associação de ideias que logicamente acarreta.

  • Esse abuso não teria sido mencionado se não houvesse muitos outros exemplos desse tipo na literatura piedosa, pelo menos quando o tema tratado convida a tais confusões.

  • O "complexo" fundamental é sempre o desprezo pela "carne" em nome do "espírito", ou da natureza em nome da sobrenatureza, com ou sem razão.

  • Nesta ordem de ideias, ignora-se facilmente a dignidade e a inocência do animal, que deve pagar os gastos terminológicos da decadência humana.

  • Tendo sido feita referência à teologia islâmica no capítulo anterior, é relevante assinalar certos obstáculos que tornam particularmente penoso o acesso à literatura piedosa do Islã, e que chegam a bloqueá-lo em muitos casos.

  • Trata-se especialmente de uma acusada tendência à expressão elíptica e, quase correlativamente, uma tendência não menos desconcertante ao hiperbolismo ou mesmo à exageração pura e simples.

  • Não que o Cristianismo esteja imune a esse tipo de obstáculo — o que já foi visto —, mas sua linguagem é em média mais "ariana" do que a da piedade muçulmana.

  • A linguagem cristã é, portanto, mais direta e mais aberta, menos simbolista e menos florida, correndo menos riscos no aspecto em questão.

  • Para o ocidental, a exageração é algo intelectualmente inadequado e moralmente pouco honesto.

  • Para o oriental próximo, ela compensa sua falsidade com sua utilidade.

  • A exageração acentua a verdade estilizando-a, ou seja, destaca a intenção íntima da imagem que amplifica.

  • A exageração quase faz as vezes de "essencialização", ou seja, aparece por vezes como "mais verdadeira" que seu objeto, no sentido de que manifesta sua qualidade secreta, esmaecida pelo véu das contingências.

  • O caráter quantitativo — não qualitativo — da exageração não lhe retira nada de sua força contundente, aos olhos de quem a aceita e a pratica.

  • Isso está relacionado com o prestígio da ideia de "poder" e, portanto, também com o argumento da Onipotência.

  • O simbolismo é a linguagem primordial, a da Sophia perennis (Sabedoria perene).

  • Resta saber quais são os seus deveres e quais são os seus direitos, sendo as respostas diversas segundo os temperamentos e as épocas.

  • A questão espinhosa da forma e substância nas religiões, e dos paradoxos da expressão espiritual, foi tratada em Forme et Substance dans les Religions (Forma e Substância nas Religiões), nos capítulos Quelques difficultés des Textes sacrés (Algumas Dificuldades dos Textos Sagrados) e Paradoxes de l'expression spirituelle (Paradoxos da Expressão Espiritual), e ainda mais amplamente nos três primeiros capítulos de Le soufisme, voile et quintessence (O Sufismo, Véu e Quinta Essência).

  • Muitas das paradojas da literatura islâmica, começando pelos próprios ahâdîth (ditos do Profeta), explicam-se por um elipsismo desejoso de causar um "choque catalítico" à margem da lógica, mesmo a mais elementar.

  • O senso comum aparece então como algo "exterior" e "superficial", profano se se quiser, logo como uma falta de penetração, de intuição, de sutileza.

  • A própria paradoja das elipses é considerada como um estímulo ao instinto das intenções subjacentes.

  • Um exemplo é o hadîth seguinte, cuja autenticidade é irrelevante, visto que é citado sem hesitação: "O alimento mais puro é o que ganhamos com o trabalho de nossas mãos".

  • O hadîth prossegue: "o Profeta Davi trabalhava com as suas próprias mãos para ganhar o seu pão".

  • E mais: "O comerciante que dirige os seus negócios honestamente e sem desejo de enganar os outros será situado no outro mundo entre os Profetas, os santos e os mártires".

  • A este discurso, de um absurdo flagrante no que tange ao sentido literal, poder-se-ia objetar que Davi era rei e que a questão de um trabalho manual não lhe concernia.

  • Contudo, pode-se imaginar que ele pretendia dar bom exemplo ao seu povo e que não considerava a realeza como um trabalho que devesse ser remunerado.

  • Este ponto não tem grande importância, mas, como a imagem de um rei que se considera obrigado a trabalhar para pagar seu sustento é absurda em si mesma, valia a pena indicar sua plausibilidade eventual.

  • O essencial é que um comerciante está a priori interessado em ganhar o máximo possível, e a tentação das fraudes, pequenas ou grandes, está em seu próprio ofício.

  • A avidez é até considerada, no Alcorão (Sura A Rivalidade, 1 e 2), como o vício que caracteriza ao homem caído: "A rivalidade (para ganhar mais) vos distrai (de Deus), até que visiteis as tumbas...".

  • Combater metodicamente essa tentação, renunciando, portanto, basicamente ao instinto de lucro, e fazê-lo com base na fé em Deus, ou seja, em um ideal espiritual, é morrer para um modo de subjetividade.

  • A objetividade, seja intelectual ou moral, é, de fato, uma espécie de morte.

  • A objetividade, que é no fundo a essência da vocação humana, é um modo de santidade e coincide com esta na medida em que seu conteúdo é elevado ou na medida em que é íntegra.

  • O desapego do comerciante, por amor a Deus, é "determinada santidade", e esta, do ponto de vista da substância, coincide com a "santidade enquanto tal".

  • Isso explica a referência, no hadîth citado, aos santos e até aos Profetas.

  • As palavras "entre os Profetas" não indicam a localização celestial, mas sim a afinidade no aspecto considerado, o do desapego "pela Face de Deus" (liwajhi-Llâh).

  • A sentença é escandalosa à primeira vista, mas convida à meditação justamente por essa razão.

  • A evidência é que o elipsismo dialético e simbolista pode dar lugar a muitos abusos ou fazer perder o sentido crítico, que, no entanto, se supõe que deva estimular.

  • "Os deuses gostam da linguagem obscura", diz um texto hindu.

  • Eles gostam dessa linguagem, não porque afetem a ininteligibilidade, mas porque odeiam a profanação.

  • Se o vício da profanidade for removido das almas, os deuses removerão de sua linguagem o véu de obscuridade.

  • Resta saber em que medida o homem tem o direito a este princípio, e em que medida pode falar em nome dos deuses, e como os deuses.

  • Não há apenas a expressão elíptica de aparência paradoxal, mas também a expressão simbolista, analógica e alusiva.

  • Citam-se as seguintes palavras, atribuídas ao califa Ali (com razão ou sem ela, o que não é a questão, pois são referidas tal como estão e o que importa é a multidão e o sucesso de ditos deste gênero e não sua autenticidade): "Se apenas uma gota de vinho caísse em um poço, e depois este fosse tapado e se construísse nesse local um minarete, eu não subiria a ele para fazer a chamada para a oração".

  • E também: "Se uma gota de vinho caísse em um rio, e este secasse e a erva nascesse em seu leito, eu não levaria ali animal algum para pastar".

  • Tomadas em seu sentido literal, estas palavras são propriamente absurdas porque são contrárias à natureza das coisas do duplo ponto de vista do vinho e de sua proibição.

  • Na realidade, o vinho é nobre em si — como provam as bodas de Caná e o rito eucarístico —, e o Alcorão não o proíbe senão por causa do perigo da embriaguez, ou seja, de irresponsabilidade, de contenda e de assassinato, e por nenhuma outra razão.

  • Contrariamente à natureza do vinho e à intenção da Lei, as palavras citadas significam, em boa lógica, por um lado, que o vinho é intrinsecamente mau e, por outro, que é por isso que a Lei o proíbe.

  • Diz-se, tradicionalmente, que no Paraíso o vinho será permitido, e ninguém ignora que Cristo, Moisés, Abraão e Noé bebiam vinho.

  • Todos os semitas o faziam, como Judeus e Cristãos ainda o fazem, e com honra.

  • É igualmente conhecido o papel positivo que o simbolismo do vinho desempenha no Sufismo.

  • Um testemunho disso é a Khamriyah, o célebre poema místico de Omar ibn El-Fâridh.

  • Omar Khayyam se surpreende, em suas Quadras, de que o vinho seja proibido neste mundo inferior, enquanto no Paraíso será autorizado, uma ocorrência que só faz sentido no esoterismo.

  • O absurdo da sentença citada é tão flagrante que essa mesma dissonância permite supor — ou obriga a admitir — que há aí uma intenção alusiva e analógica.

  • Trata-se, consequentemente, não do vinho em si, mas do princípio negativo ou maléfico da embriaguez psíquica.

  • Essa embriaguez é natural e individual, não sobrenatural e libertadora.

  • Este aspecto da embriaguez é o que intervém em qualquer grau na música profana, ou na música assimilada de maneira profana, a qual amplifica o ego em vez de o superar.

  • A perspectiva islâmica exclui até mesmo a música profana como uma "consolação sensível" pacificadora ou estimulante, ao menos em princípio.

  • A música profana resulta em um narcisismo refratário à disciplina espiritual, uma adoração de si que está nos antípodas da extinção beatífica da qual a arte sacra pretende dar um pressentimento.

  • Ao ouvir uma bela música, o culpado se sentirá inocente.

  • O contemplativo, ao contrário, ouvindo a mesma música, esquecer-se-á de si mesmo pressentindo as essências.

  • Metaforicamente falando, ele encontrará a vida perdendo-a, ou a perderá encontrando-a.

  • Isso equivale a dizer que, para o contemplativo, a música evoca todo o mistério do retorno dos acidentes à Substância.

  • O Cristianismo é uma religião musical, se assim se pode dizer, como indica o papel importante dos cantos e dos órgãos nas igrejas.

  • O Islã busca representar o ponto de vista oposto, o da sequidão e sobriedade com vistas à "única coisa necessária".

  • O Islã compensa essa pobreza com a musicalidade da salmodia do Alcorão, e também, em sua dimensão sufí, com as poesias, os cantos e as danças, outras tantas manifestações esotéricas do "vinho" proibido pelo exoterismo.

  • O papel preponderante da sexualidade no Islã também não é excluído.

  • Voltando ao hadîth de Ali, o empenho do quarto califa contra o vinho explica-se ao se admitir que o vinho é, praticamente, o orgulho.

  • A tensão narcisista que a embriaguez produz é, na verdade, o "pecado original" considerado em seu aspecto luciferino.

  • Da mesma forma, compreende-se o empenho do hadîth sobre os comerciantes — citado em primeiro lugar — se forem levadas em conta as equações "avidez igual a concupiscência" e "concupiscência igual a queda".

  • O que está em consideração é também o pecado original, mas desta vez em seu aspecto de egoísmo ávido e avaro.

  • A vitória sobre o "dinheiro" e o "vinho" converte-se na vitória sobre o "velho Adão": a vitória a secas, aquela que é personificada pelos santos e os Profetas.

  • A natureza destes não é outra senão a Fitrah, a "Natureza primordial", a dos eleitos no Paraíso.