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id da página: 11060 Schuon – Forma e substância nas religiões – Substância, Sujeito e Objeto Frithjof Schuon

Schuon Sujeito Objeto

SCHUON, Frithjof. Forme et substance dans les religions. Paris: Dervy-Livres, 1975

  • A necessidade cósmica de sujeitos conscientes como testemunhas da criação.

    • Dado que a Substância divina, em virtude de uma das suas dimensões, "quis" e "teve" de manifestar o mundo com a sua multiplicidade, quis e teve de manifestar, por consequência, testemunhas para este mundo e para esta multiplicidade.
    • Sem estas testemunhas, o Universo seria um espaço desconhecido cheio de pedras cegas, e não um mundo percebido segundo uma multitude de aspectos.
    • Onde há objetos, é necessário que haja igualmente sujeitos: as criaturas que são testemunhas das coisas fazem parte indissoluvelmente da criação.
    • O véu de Maya, ao desdobrar-se, semeou o vazio não apenas de coisas cognoscíveis, mas também de seres capazes de conhecimento, em diversos graus.
      • O grau-cume é o homem, pelo menos para o nosso mundo, e a sua razão suficiente é ver as coisas como só uma inteligência capaz de objetividade, de síntese e de transcendência as pode ver.
  • A coincidência entre Vontade e Necessidade em Deus e a refutação do arbitrário divino.

    • A afirmação de que a Substância "quis" e "teve" de manifestar o mundo, onde "querer" e "dever" coincidem em Deus, entendendo-se por estas palavras, respectivamente, a Liberdade e a Necessidade.
      • A primeira perfeição refere-se à Infinitude e a segunda à Absolutidade, pois em Deus não há constrangimento nem arbítrio.
    • A crítica à visão teológica que associa a perfeição divina à gratuidade das suas vontades.
      • Para a maioria dos teólogos, Deus só parece ser perfeito se as suas vontades forem gratuitas.
      • O facto subjetivo de o homem não poder apreender todos os motivos da Atividade divina parece equivaler, no seu espírito, a um caráter divino objetivo, o que significa praticamente um direito divino ao arbítrio e à tirania.
      • Esta visão é evidentemente contrária à Perfeição de Deus, a qual implica a Bondade fundamental, assim como a Beleza e a Beatitude.
  • A aplicação cosmológica da sentença corânica "A Minha Clemência precedeu a Minha Cólera".

    • A "Cólera", ou a "Rigor", não pertence à Substância absoluta, mas releva do grau das "Energias" e só intervém no mundo formal, seja à nossa volta, seja em nós mesmos.
    • A libertação do homem do reino do Rigor através da interiorização.
      • Se o homem perfurar esta camada e avançar até à camada superior – "o Reino de Deus está dentro de vós" –, ele escapa ao reinado do Rigor.
      • É preciso quebrar o gelo, o que só é possível com a ajuda de Deus; assim que a alma atinge a água subjacente, já não é possível qualquer rutura.
    • A transição da exterioridade para a interioridade.
      • Ao alarido da exterioridade sucede o silêncio da interioridade.
      • Este silêncio "sucede", mas na realidade está antes de nós; a alma entra nele como num rio sem origem e sem fim; rio de silêncio, mas também de música e de luz.
  • A relação sujeito-objeto e a natureza do Sujeito absoluto.

    • O princípio de que onde há objeto, há sujeito, justifica a existência no Ser de um polo objetivo e passivo, a Materia principial ou Prakriti, e de um polo subjetivo e ativo, o Spiritus manifestante, determinante, diversificante, nomeadamente Purusha, e assim, mutatis mutandis, em cada escalão do Universo.
    • A perspectiva da Substância como o Si mesmo, o Sujeito absoluto e infinito.
      • Se se partir da ideia de que a Substância é o Si mesmo, o Sujeito absoluto e infinito, cujo Objeto é, por um lado, a sua própria Infinitude e, por outro, o seu desdobramento universal, então não há cisão em sujeito e objeto em qualquer plano ontológico.
      • Haverá sempre um único e mesmo Sujeito em múltiplos graus de objetivação ou de exteriorização, pois o Sujeito não é um polo complementar, é simplesmente o que é.
      • Chamar-lhe "Sujeito" exprime que Atma é a Testemunha absoluta, simultaneamente transcendente e imanente, de todas as coisas, e que não é de modo algum uma Substância inconsciente, ainda que energética, como imaginam os panteístas e os deístas.
    • A transformação do Objeto em Sujeito na percepção intensa.
      • Quando a percepção do Objeto é tão intensa que a consciência do sujeito desaparece, o Objeto faz-se Sujeito, como ocorre na união de amor.
      • Neste caso, a palavra "sujeito" já não tem o sentido de um complemento por definição fragmentário, mas significa, pelo contrário, uma totalidade que concebemos como subjetiva porque é consciente.
  • A primazia do Sujeito sobre o Objeto na relação divina e cósmica.

    • A perspectiva da primazia do Objeto: quando se acentua a Realidade objetiva e esta prima no relacionamento, o sujeito torna-se objeto no sentido de ser totalmente determinado por ele, esquecendo o elemento consciência.
      • Neste caso, o sujeito, enquanto fragmento, é absorvido pelo Objeto, enquanto totalidade, tal como o acidente se reintegra na Substância.
    • A perspectiva da primazia do Sujeito, que prevalece sobre a anterior.
      • A adoração de Deus não se deve simplesmente ao facto de Ele se apresentar como uma realidade objetiva de uma imensidade vertiginosa e esmagadora – sem o que se deveriam adorar as estrelas e as nebulosas –, mas sobretudo porque esta realidade a priori objetiva é o maior dos sujeitos.
      • Ele é o Sujeito absoluto da nossa subjetividade contingente; é a Consciência simultaneamente omnipotente, onisciente e essencialmente benéfica.
    • A superioridade do sujeito consciente sobre o objeto inanimado.
      • O sujeito como tal prima sobre o objeto como tal: a consciência de uma criatura capaz de conceber o céu estrelado é mais do que o espaço e os astros.
      • O argumento de que os sentidos podem perceber um sujeito superior ao nosso é sem valor, pois os sentidos nunca percebem senão o aspecto objetivo, não a subjetividade como tal.
    • A ordem da manifestação: o elemento objetivo, a priori virtual, foi antes do subjetivo capaz de o atualizar pela percepção – como testemunha o Gênesis –, dado que, na ordem principial, o subjetivo é anterior ao objetivo, o que precisamente o mundo retrata em sentido inverso, pois é de certo modo uma superfície refletora.
  • A perspectiva advaita sobre a relação sujeito-objeto e a natureza do mundo.

    • Segundo a perspectiva advaita, o elemento "objeto" é sempre interno relativamente a um elemento "sujeito", de modo que as coisas – incluindo os sujeitos enquanto funcionam como objetos pela sua própria contingência – são as imaginações, os sonhos de um sujeito que evidentemente as ultrapassa.
      • O mundo formal, por exemplo, é o sonho de uma Consciência divina particularizada que o envolve e penetra.
    • A retificação do erro solipsista na interpretação do idealismo hindu.
      • Os hindus tendem a afirmar demasiado facilmente que o mundo só está no nosso mental, o que sugere o erro solipsista, ou seja, que somos nós que criamos o mundo ao imaginá-lo.
      • Ora, evidentemente, não é a criatura – ela própria conteúdo do sonho cósmico – que é o sujeito imaginante, mas Aquele que sonha o mundo: é Buddhi, projeção de Atma, a "Consciência arcangélica", por assim dizer.
      • O indivíduo só imagina os seus próprios pensamentos, sendo impotente perante os dos Deuses.
  • O homem como medida das coisas e o seu lugar central no cosmos.

    • Tendo criado o mundo material, Deus nele projetou sujeitos capazes de o perceber, e delegou, em última instância, no homem, o único capaz de o perceber totalmente, ou seja, em conexão com a Causa ou a Substância.
    • Daqui resulta que o homem é a medida das coisas, como atestam todas as doutrinas tradicionais.
    • A posição intermediária do homem entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno.
      • Espacialmente, o homem situa-se entre o "infinitamente grande" e o "infinitamente pequeno", de modo que é a sua subjetividade, e não uma qualidade do mundo objetivo, que cria a linha de demarcação.
      • Se nos sentimos ínfimos no espaço estelar, é apenas porque o grande nos é muito mais acessível do que o pequeno, o qual escapa rapidamente aos nossos sentidos.
      • Isto deve-se ao facto de ser o grande, e não o pequeno, que reflete, em relação ao homem, a Infinitude e a Transcendência de Deus.
    • O homem como ponto de junção entre o exterior e o interior.
      • Tudo isto é apenas um símbolo, pois o homem é um ponto de junção de uma maneira muito mais real, e entre duas dimensões infinitamente mais importantes: o exterior e o interior.
      • É precisamente em virtude da dimensão de interioridade, que desemboca no Absoluto e, por consequência, no Infinito, que o homem é quase divino.
    • A dualidade do homem como sujeito e objeto.
      • O homem é simultaneamente sujeito e objeto: é sujeito em relação ao mundo que percebe e ao Invisível que concebe, mas é objeto em relação ao seu "próprio Si mesmo".
      • O ego empírico é de facto um conteúdo, portanto um objeto, do sujeito puro ou do ego-princípio, e sê-lo-á com maior razão em relação ao Sujeito divino imanente que, em última análise, é o nosso verdadeiro "Si-mesmo".
    • A questão advaita "quem sou eu?": não se é nem este corpo, nem esta alma, nem esta inteligência; só Atma permanece.
  • A escolha humana fundamental entre o exterior e o interior.

    • O homem é, pois, chamado a escolher – por definição, de certo modo – entre o exterior e o interior.
      • O exterior é a dispersão compressante e a morte.
      • O interior é a concentração dilatante e a vida.
    • O símbolo da hostilidade da exterioridade proporcionado pela relação com o espaço.
      • Ao lançar-se no espaço planetário – de facto ou em princípio – o homem mergulha numa noite fria, desesperante, mortal, sem alto nem baixo e sem desfecho.
      • O mesmo é verdade para qualquer investigação científica que ultrapasse o que é normal para o homem em virtude da lei de equilíbrio que o rege ontologicamente.
    • A natureza acolhedora da interioridade.
      • Quando o homem avança para o interior, entra numa ilimitação acolhedora e apaziguadora, fundamentalmente feliz, embora não seja fácil na prática.
      • Só pela interioridade deificante, seja qual for o seu preço, o homem é perfeitamente conforme à sua natureza.
    • O paradoxo da condição humana e o contra-senso do egoísmo.
      • O paradoxo da condição humana consiste em não haver nada que nos seja tão contrário como a exigência de nos ultrapassarmos, e nada que seja tão fundamentalmente nós mesmos como o fundo desta exigência ou o fruto desta ultrapassagem.
      • O contra-senso de todo o egoísmo é querer ser si mesmo sem o querer ser completamente, portanto para além do ego empírico e dos seus desejos; ou é referir tudo a si, mas sem se interiorizar, ou seja, sem se referir ao Si mesmo.
      • Toda a absurdidade humana está nesta contradição.
  • A interiorização libertadora como consequência da compreensão da Substância una.

    • A interiorização libertadora, ou a necessidade de interiorização, decorre da própria noção de Substância, ou mais precisamente da nossa compreensão desta noção.
      • A ideia de Unidade liberta se for aceite com todas as suas consequências, em conformidade com a sinceridade da fé.
    • A limitação do pensamento conceptual para apreender a Substância.
      • Apreender a natureza da Substância una, portanto simultaneamente única e total, é antes de mais um pensamento, o que implica a oposição complementar entre um sujeito e um objeto.
      • Esta dualidade é contrária ao próprio conteúdo do pensamento da Unidade: ao objetivar a Realidade una, apreende-se-a mal.
      • O erro é dimensional, não essencial; é comparável a um círculo que se supõe identificar-se a uma esfera: num domínio onde só a esfera é eficaz, o círculo é quase inoperante, embora seja a sombra da esfera e, em planimetria, se identifique a ela como a verdade se identifica à realidade.
    • A realização da Unidade no Coração.
      • No plano do pensamento, pode-se conceber a Substância, mas não se pode alcançá-la; o pensamento é, portanto, uma adequação imperfeita e provisória.
      • Só se pode realizar a verdade da Substância Una no Coração, onde a oposição entre um sujeito conhecedor e um objeto a conhecer é superada.
      • É no Coração que toda a objetivação – por definição limitativa – se encontra reduzida à sua fonte ilimitada no interior mesmo da Subjetividade infinita.
      • As manifestações objetivas da Substância transcendente são descontínuas em relação a ela; só no Coração há continuidade entre a consciência e a Substância imanente, seja virtual, seja efetivamente.
  • A passagem obrigatória do conhecimento mental para o conhecimento cardíaco.

    • A concepção da Substância como realidade objetiva é imperfeita e inadequada, porque implica a separação entre sujeito e objeto, não sendo realmente proporcionada ao seu conteúdo, que é absolutamente simples e não polarizado.
    • A obrigatoriedade de superar a separatividade conceptual.
      • Ou se compreende imperfeitamente o que significam as noções de Absoluto, Infinito, Essência, Substância, Unidade, e então satisfaz-se com os conceitos, como fazem os filósofos no sentido convencional da palavra.
      • Ou se compreendem estas noções perfeitamente, e então elas obrigam, pelo seu próprio conteúdo, a ultrapassar a separatividade conceptual, procurando o Real no fundo do Coração.
      • Esta busca deve fazer-se não como aventureiros, mas com a ajuda dos meios tradicionais, sem os quais nada se pode e nada se tem o direito de fazer, pois "quem não colige comigo, dispersa".
    • A revelação da Substância como imanente e inclusiva.
      • A Substância transcendente e exclusiva revela-se então como imanente e inclusiva.
    • A implicação do amor no conhecimento de Deus.
      • Pode-se dizer também que, sendo Deus Tudo o que é, deve-se conhecê-Lo com tudo o que se é.
      • E conhecer O que é infinitamente amável – pois nada é amável senão por Ele – é amá-Lo infinitamente.