SERVIER, Jean. Storia dell’utopia: il sogno dell’occidente da Platone ad Aldous Huxley. Roma: Edizioni Mediterranee, 2002.
IV. Utopia e Milenarismo: O Sonho de Perfeição
- Os príncipes-filósofos da Antiguidade buscaram para a cidade justa estruturas que remetessem ao passado, pois não conseguiam conceber modelos superiores.
- Os humanistas do Renascimento e os filósofos do Século das Luzes idealizaram uma cidade justa da qual seriam os guias iluminados, pois rejeitavam a Cidade dos Iguais, dura e intransigente, almejada pelo povo.
- A utopia constitui a reação de uma classe social, a visão tranquilizadora de um futuro planejado, que expressa, por meio dos símbolos clássicos do sonho, o desejo profundo de reencontrar as estruturas rígidas da cidade tradicional — a satisfação do seio materno — na qual o homem se aprisiona com alívio na teia das correspondências cósmicas e das proibições, aliviado do livre arbítrio e de toda responsabilidade.
- A distinção proposta por A. Daren (Wunschraume und Wunschzeiten, em Conférences 1924-1925 de la Bibliotèque de Warburg, Leipzig-Berlim, 1927), entre o desejo humano projetado no espaço (utopia) e o projetado no tempo (milenarismo), é inconsistente.
- A natureza dos desejos é o que distingue a utopia da Terra Prometida, e não a dimensão na qual o homem localiza seu sonho ou esperança.
- Existe a mesma diferença entre a utopia (cidade antiga, República ou Atlântida) e a Terra Prometida, que se situa simultaneamente no extremo do Mediterrâneo e no Fim dos Tempos.
- A definição de Mannheim, que considera utópicas “todas as ideias situacionalmente transcendentes (e não apenas as projeções dos desejos que de alguma forma têm o efeito de mudar a ordem histórico-social existente)”, também não pode ser aceita.
- A maioria das utopias, desde a República de Platão até a Utopia de Tomás Moro, não teve o efeito de transformar a ordem histórico-social pré-existente.
- Outras, como a Vicária de Cabet, não resistiram à prova da tentativa de concretização.
- A utopia não é “situacionalmente transcendente”; pelo contrário, está imersa no presente, tal como um sonho tem suas raízes na vida real.
- Embora a palavra utopia evoque imagens e fantasias distantes da realidade, toda visão do que deveria ser implica uma análise crítica do que é.
- Existem utopias que, conforme as conjunturas históricas, denunciaram os abusos de uma sociedade em crise ou, confiantes na superioridade humana, exaltaram as fascinantes perspectivas abertas ao homem por uma ciência quase onipotente.
- Essas fantasias, nascidas do fracasso, manifestaram-se em circunstâncias conflitantes semelhantes, apresentando a imagem tranquilizadora de um conflito já resolvido, e não o caminho para superá-lo.
- A crítica de Marx e Engels a Proudhon acusou de utopismo um socialismo fundamentado na razão, na justiça e no desejo sincero de remediar o mal-estar social, contrapondo-lhe o socialismo científico, que se autodenominava fisiologia social e baseava sua ação na tomada de consciência das contradições da sociedade capitalista.
- Marx atacou o socialismo utópico de Proudhon, em parte devido à dificuldade em conceber, após a revolução, algo distinto das estruturas proudhonianas que ele taxava de utopistas.
- Os proudhonianos enfatizavam a possibilidade de alcançar o objetivo através da lenta e paciente educação moral e política de todos os cidadãos, despertando sua consciência individual.
- Os marxistas transformaram a revolução em um apocalipse inevitável, gerado pelas contradições internas da sociedade capitalista, um dilúvio provocado pelos pecados dos homens.
- O marxismo e a doutrina de Proudhon, como toda reflexão revolucionária, emergiram do milenarismo: um antecipando o fim do mundo, o outro preparando os eleitos para viver sem leis na Cidade dos Iguais.
- Os proudhonianos visavam despertar a consciência individual antes de poderem exercer sobre a História essa “pressão necessária”, termo que Proudhon usava para a revolução.
- Portanto, não é possível assimilá-los aos utopistas, aos filósofos que oferecem, na serena limpidez de um presente imutável, a visão de cidades radiantes cujas leis justas foram estabelecidas, de uma vez por todas, pelos príncipes-filósofos.
- Interpretações infrutíferas, mas engenhosas, tentaram explicar a utopia com base na psicologia dos utopistas ou referindo-se à Cidade de Deus, um mito de perfeição social presente no inconsciente coletivo.
- No entanto, a utopia é a Cidade do Homem, tolerante e indiferente a qualquer pensamento religioso, com a ressalva de um cristianismo ditado pela censura do eu consciente ou por imperativos de certas épocas.
- Todas as utopias configuram-se como religiões do Homem, poupando-lhe as angústias da meditação sobre o sentido de sua aventura terrena e fornecendo-lhe um objetivo claro.
- De Platão a Saint-Simon, Fourier ou Cabet, diversos reformadores políticos parecem ter buscado na utopia a visão tranquilizadora de um futuro ordenado para o homem, refletindo-se nas águas primordiais do sonho.
- John Lagard, discípulo de Jung, expressou a ideia de que “O cristianismo envelheceu”, e que ele “precisa renascer imediatamente de nossos sonhos, assim como já se mostrou na revelação de São João” (The Lady of the Hare).
- As várias utopias concebidas nos primórdios da reflexão sociológica exibem analogias inegáveis com a cidade das civilizações tradicionais.
- Elas retomaram a geometria rígida e as leis restritivas que não podem ser questionadas por serem justas, ou seja, em conformidade com o Mito.
- A cidade radiante, a Cidade do Sol, ignora os problemas do momento; é a ilha encantada milagrosamente preservada no oceano, a arca perfeita reencontrada nas profundezas de um sonho.
- Cercada por altas muralhas ou protegida pelo mar, ela representa, para além dos sistemas econômico-sociais que a sustentam, uma aspiração profunda, tal como um sonho expressa os desejos e as angústias de um indivíduo.
- As utopias se manifestam como sonhos nascidos do sentimento de abandono (Geworfenheit), na acepção que Heidegger lhe confere em Sein und Zeit, que é a condição do homem lançado no mundo, à mercê de si mesmo, que não espera mais nada de um poder superior cuja existência nem sequer crê.
- Platão sonha com uma república governada por príncipes-filósofos que reencontra em suas leis justas as estruturas das civilizações tradicionais e da cidade antiga.
- Posteriormente, a utopia se torna o refúgio daqueles que temem as grandes correntes milenaristas que, desde o advento do cristianismo, não cessam de abalar o Ocidente.
- Mais tarde, a utopia serviu como um objetivo proposto aos movimentos revolucionários com o intuito de melhor contê-los.
- Os humanistas e os sábios almejavam tornar-se os guias iluminados da nova sociedade; os estadistas, homens da Igreja e industriais que idealizaram a Cidade do Sol não podiam conceber a ação libertadora, a “pressão sobre a História”, que unicamente possibilitaria a realização de suas ambições.
- Tanto uns quanto outros foram impedidos pela piedade, pelo respeito aos valores de sua sociedade, de seu tempo e de sua classe social, pelo culto aos deuses da cidade, chegando até o reconhecimento do direito divino dos reis.
- Todos esperaram por um longo tempo que uma autoridade misteriosa lhes outorgasse o poder, em nome da sabedoria e da razão.
- A utopia foi para eles como um sonho que ocultava sua Weltschmerz, dor do mundo, pena de viver, com pouca variação nos tempos e modalidades expressivas de um período para outro da história.
- A utopia é, primordialmente, a vontade de retornar às estruturas imutáveis da cidade tradicional da qual são senhores iluminados, uma cidade que emerge além das águas turvas do sonho, como uma ilha no oceano, como a Cidade do Homem liberto de toda angústia ao fim da noite.