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id da página: 12540 Daryush Shayegan – Hinduísmo e Sufismo – Ajapa e Dhikr Daryush Shayegan

Shayegan Ajapa Dhikr

SHAYEGAN, Daryush. Les Relations de l’hindouisme et du soufisme: d’après le “Majma 'al-bahrayn” de Dârâ Shokûh. Paris: Éditions de la Différence, 1979.

⚖️ Relação entre Ajapa (Hinduismo) e Dhikr (Islã)
  • A ajapa ou hamsa mantra jorra incessantemente de toda criatura, sendo o versículo corânico XVII:44 uma alusão a essa exaltação universal.
  • No Islã, Lahiji afirma que todos os átomos do universo celebram perpetuamente a glória do Senhor; o tasbih (exaltação e louvor a Deus) consiste em separar Deus de toda associação e afirmar Sua exclusividade, sendo "Não há Deus senão Deus" a negação de tudo-o-que-não-é-Deus.
  • Todos os seres exaltam a Deus porque o Ser Divino é o fundamento ontológico deles e se manifestou sob suas formas, louvando o atributo ou nome do qual são epifania.
  • O homem é o único criado à imagem de Deus, capaz de compreender a universalidade de Seus nomes e atributos.
  • Segundo Lahiji, todos os seres declaram o anal haq ("Eu sou a verdade") pelo fato de sua existência vir de Deus.
    1. Doença da Alma e Cura: O dhikr é a lembrança de Deus, o antídoto para a inconsciência e o esquecimento do Pacto da pré-eternidade, libertando o homem de sua condição de criatura. No Yoga clássico e na espiritualidade indiana, o homem está sujeito à dor universal (Patanjali: "duhkhameva sarvam vivekinah" - "Tudo é dor para os sábios"), que provém da insciência (avidya), que, no Yoga e no Samkhya, é a confusão da inteligência com o puro Espírito (purusa).
    • Vyasa, comentador dos Yoga Sutra, explica que a buddhi (inteligência) impregnada de vasana (impressões latentes da insciência) não consegue iluminar o purusa e renasce, mas se cumpre sua função de revelar o Espírito e a insciência cessa, ela não renasce mais.
    • Na Advaita (não-dualidade), a ignorância é a não-discriminação do não-Si (formas superpostas ao atman) do Si, o que é análogo ao esquecimento islâmico.
    • Assim como o esquecimento é curado pela lembrança de Deus, a insciência desaparece pela revelação do puro Espírito.
    • A revelação do purusa e a libertação definitiva no Yoga clássico se dão pelos oito membros do Yoga: yama (refreamentos), niyama (disciplinas), asana (posturas), pranayama (regularização do sopro), pratyahara (abstração dos sentidos), dharana (concentração), dhyana (meditação) e samadhi (união).
    1. O Ritmo do Sopro e a Fórmula Verbal: O dhikr é a interiorização da liturgia, com a concordância do sopro (inspiração/expiração) e das metades da shahada (la ilaha illa'llah, ou Hu e Allah segundo Dara). Isso é semelhante ao hamsa-yoga, onde o sopro se exala pelo hakara (Ha) e entra pela sakara (Sa), sendo o jiva movido por esses dois movimentos e repetindo incessantemente hamsa, hamsa.
    • No Yoga clássico, pranayama (a não-existência dos dois movimentos) se realiza quando a inspiração (entrada de ar de fora) e a expiração (saída de ar do pulmão) são interrompidas (tayor gati-viccheda), conforme Vyasa.
    • No ajapa e no dhikr, o ritmo da repetição verbal regulariza o sopro e harmoniza os movimentos; no Yoga clássico, a regularização é pelo prolongamento da expiração e inspiração até a suspensão e parada completa do sopro.
    • A relação entre sopro e estados de consciência (fundamento da ciência do sopro no Yoga) é implicitamente admitida no dhikr.
    • A regularização do sopro no Yoga harmoniza os estados mentais (vrtti) e cria um clima para a concentração. No Islã, a eliminação de pensamentos alheios a Deus pela expiração e la ilaha é seguida pela substituição pelo pensamento único de Deus na inspiração e illa'llah, o que leva à eliminação sistemática dos pensamentos e à unificação da consciência.
    1. Condições e Técnicas de Concentração: As posturas do dhikr (pernas cruzadas, mãos nas coxas) sugerem a regulamentação das posturas corporais yóguicas.
    • O recolhimento, a abstração dos sentidos, a supressão de pensamentos e o resultante recolhimento em si mesmo, bem como a concentração e meditação (moraqiba) no coração pela visualização de símbolos, assemelham-se aos métodos yóguicos.
    • O pratyahara (abstração dos sentidos, onde os sentidos se desunem de seus objetos e a mente imita essa abstração) corresponde à "clausura das portas das percepções sensoriais" descrita por Najm Razi.
    • A concentração no coração sugere a ekagrata (concentração em um único ponto) ou dharana de Patanjali (fixação da mente em um lugar único, como o umbigo, o lótus do coração - hrdaya pundarika, ou a ponta da língua).
    • No Islã, o coração é o centro sutil das teofanias de Deus, e a fórmula persa de "aniquilar-se graças à potência do dhikr e à eliminação dos pensamentos" (bitasarof-e dhikr wa nafy-e khatir mahw gardad) sugere a dhyana (meditação), que é um fluxo de pensamento unificado (ekatana) e não afetado por outros pensamentos, segundo Vyasa.
  • Ghazali em sua Alquimia da Felicidade (Kimiya-e Sa'adat) descreve quatro graus do dhikr: 1) liturgia da língua (coração inconsciente); 2) dhikr desce ao coração, mas exige esforço para fixação; 3) dhikr se estabelece e toma posse do coração, sendo difícil separá-lo; 4) dhikr se estabelece no coração do Invocado (madhkur - Deus), e o coração se esvazia de tudo-o-que-não-é-Deus, contendo apenas Deus (o grau do amor - ishq - e da aniquilação - fana).
    • Os graus 1 e 2 lembram a ekagrata e a dharana (esforço do yogi para fixar o pensamento); o grau 3 se assemelha à dhyana (pensamento uniforme, difícil de distrair); o grau 4 (aniquilação) corresponde ao samadhi de Patanjali, cuja apoteose é o asamprajnata (samadhi sem suporte, sem semente).
  • As posturas e ritos preliminares (como os yama - não-violência, verdade, não-roubo, abstinência sexual, não-avareza; e os niyama - limpeza, contentamento, ascese, estudo da doutrina do Yoga, meditação em Isavara) encontram paralelos nas abluções rituais, limpeza corporal e espiritual, e nas orações diárias do Islã, que são preliminares essenciais para ambas as disciplinas.
  • A verdadeira espiritualidade no Islã começa com o dhikr pela iniciação; na Índia, a iniciação pelo guru leva a uma segunda vida espiritual, tornando o iniciado dvija ("duas vezes nascido").
    1. A Iniciação: Em ambas as tradições, a iniciação desempenha um papel fundamental.
    • No Islã, o mestre espiritual, tendo amadurecido o fruto da "árvore da walayat", planta a semente no coração do discípulo, cuidando dela e exigindo perseverança e continuidade nas disciplinas. Os iniciados obtêm sua iniciação da "Nicha das luzes da profecia" (Realidade mohammadiana, Espírito da walayat).
    • O Yoga também exige iniciação, e a iniciação do guru é uma segunda vida (dvija), significando a morte em um plano inferior e o renascimento em um modo de ser mais elevado. A filiação espiritual é uma cadeia ininterrupta. Mircea Eliade escreve que o renascimento iniciático é definido no Yoga como o acesso a um modo de ser não profano, expresso por nomes como moksa, nirvana, asamskita.
    1. Fenômenos Psicoespirituais: O dhikr e o Yoga são acompanhados por fenômenos visuais, acústicos e cromáticos, como as formas preliminares de Deus descritas na Svetasvatara Upanisad (II, 11) e os fenômenos auditivos em certas Upanisads, que se assemelham às visões e sons místicos dos sufis.
    • Esses fenômenos indicam o acesso a mundos sutis e planos parapsicológicos, servindo como sinais do progresso espiritual.
    • Najm Razi descreve como o sufi, praticando o dhikr, tem visões de sua alma, onde seus comportamentos morais em potência se atualizam, revelando os mistérios inatos da psique que o comum dos mortais só conhecerá na "ressurreição menor".
    • Esses poderes extraordinários são encontrados nos yogis como poderes sobrenaturais (siddha), sendo o Capítulo III dos Yoga Sutra dedicado a eles.
    • O yogi, ao exercer o samyama (união de pratyahara, dharana e samadhi) sobre os samskara (virtualidades psíquicas de impressões residuais de vidas anteriores), obtém conhecimento de suas vidas passadas, permitindo-lhe percorrer o tempo para trás e conhecer o ponto inicial de sua transmigração e a qualidade do karma acumulado.
    • Embora o Islã não admita a lei do karma, e o sufi atualize seus comportamentos morais em função dos atos armazenados na alma em vida, e o yogi se veja na perspectiva do samsara (prolongamento indefinido da personalidade), o fenômeno de perscrutar as profundezas da alma está presente em ambas as tradições, sendo resultado da ascese e critério de progresso.
    • A siddha que permite ao yogi conhecer as etapas de suas transformações e renascimentos (Vyasa: janma-parinama-krama) é homologável aos poderes dos sufis de conhecerem os mistérios de sua alma.
    • Assim como nas disciplinas islâmicas, o Yoga adverte o yogi contra o uso abusivo desses poderes: eles devem ser apenas critérios de progresso, e o abuso detém o avanço espiritual e transforma o praticante em um feiticeiro. Lahiji advertia o sufi a não se apegar aos véus luminosos, teofanias de obras, atos ou atributos, mas buscar a teofania da Essência.
    1. Fisiologia Sutil: Ambas as tradições conectam os métodos e disciplinas espirituais à fisiologia sutil do corpo humano, sendo os centros sutis importantes no Islã.
    • Dara Shokuh em seu livro O Espelho da Verdade menciona três centros de meditação: 1) no peito, sob a mama esquerda (o coração fisiológico - dil-e sanubari); 2) no cérebro (o coração esférico - dil-e moddawar), onde a concentração imuniza contra perigos; 3) na base da coluna vertebral (o coração de nenúfar - dil-e nilufari).
    • A concentração se faz no coração fisiológico, onde os "Arquétipos-Imagens" do mundus imaginalis se desvelam ao "olho do coração", sendo o mundo dos Arquétipos-Imagens parte do malakut.
    • A influência indiana é perceptível nos três centros de Dara, mas é na doutrina de Alaoddawla Semnani sobre os "sete profetas de teu ser" que se encontram as homologias mais fortes com os centros sutis do Yoga tântrico.
    • Os centros sutis (latifa) são: 1) latifa qalabiya (órgão sutil adquirido, o Adão de teu ser); 2) latifa nafsiya (alma inferior/censurável, o Noé de teu ser); 3) latifa qalbiya (sede do Eu espiritual, o Abraão de teu ser); 4) latifa sirriya (o segredo, centro da transconsciência, o Moisés de teu ser); 5) latifa ruhiya (centro do espírito, o Davi de teu ser); 6) latifa khafiya (centro do mistério, que recebe inspiração do Espírito Santo, o Jesus de teu ser); 7) latifa haqqiya (centro divino, o Maomé de teu ser).
    • Esses sete latifa são homologados aos ciclos da profecia (de Adão a Maomé) e às sete esferas celestes no plano macrocósmico.
    • O homem progride por esses centros, com apercepções cromáticas indicando o progresso.
    • Apesar das diferenças estruturais, os centros sutis na Índia e no Islã estruturam os centros psicoespirituais do homem (homologado ao cosmos).
    • O percurso dos centros sutis e os fenômenos visuais, cromáticos e auditivos correspondentes revelam a ascensão do crescimento espiritual, culminando na Índia na harmonia divina da união Siva-Sakti e no estatuto do liberado-vivo, e no Islã, na superação dos graus do sol da profecia para atingir o nível supremo de Maomé, o ápice da gnose, a "separação que segue a união", a "lucidez que procede da aniquilação" e o ponto de equilíbrio entre tashbih (teologia simbólica) e tanzih (teologia negativa).