SHAYEGAN, Daryush. Les Relations de l’hindouisme et du soufisme: d’après le “Majma 'al-bahrayn” de Dârâ Shokûh. Paris: Éditions de la Différence, 1979.
🕉 Disciplinas Espirituais: Ajapa e Dhikr
- Dara Shokuh informa que, entre as disciplinas espirituais dos monistas indianos, a ajapa é considerada a melhor, jorrando incessantemente de toda criatura, tanto em estado de vigília quanto em sono, sem qualquer vontade ou intenção, sendo o versículo corânico XVII:44, que declara que "Não há coisa alguma que não exalte Seu louvor", uma referência a essa prática espiritual.
- A ajapa é identificada como hamsajapa, que se decompõe em so'ham, onde a expiração corresponde ao pronome da terceira pessoa, "Ele" (Sah em sânscrito), e a inspiração se refere a "Eu" (Aham em sânscrito), e essa fórmula mental é homologada com a fórmula islâmica Hu Allah ("Ele é Deus"), sendo o Hu a inspiração e o Allah a expiração do sopro.
- A palavra ajapa designa o mantra ou fórmula mágica, e o hamsa, também chamado ajapa, se refere aos sons de Ha (hakara) e Sa (sakara), que se decompõem em so'ham (sah-aham), significando "Ele eu sou".
- A Brahma Upanisad (16-21) ensina que a alma (jiva) murmura sempre o sakaram e o hakaram, e a Dhyana Upanisad (61-63) acrescenta que pelo Ha o sopro se exala, e pelo Sa ele entra de novo, sendo o mantra hamsa, hamsa murmurado vinte e um mil e seiscentas vezes dia e noite, e esse mantra ajapa é chamado gayatri, considerado dispensador de salvação para os yogis, capaz de libertar o homem de seus pecados apenas pela imaginação.
- A Yogasikha Upanisad (I, 130-132) esclarece que, embora o hamsa (saída do sopro com sakara/Ha e reentrada com sakara/Sa) seja involuntariamente repetido por todas as almas, para os yogis iniciados na ciência da kundalini, a fórmula se inverte, passando a ser so'ham ("Eu sou Ele") em vez de hamsa.
- O jiva move-se continuamente de alto a baixo e de baixo a alto pelos movimentos inversos dos sopros prana e apana, como uma bola que quica sem parar, subindo com Ha e descendo com Sa, e murmurando incessantemente hamsa, hamsa.
- A Pasupata Upanisad (12) compara a concentração constante da mente nesse mantra a um sacrifício mental, e a Brahma Upanisad (32-35) identifica o hamsa com as três divindades Brahma, Visnu e Siva.
- O hamsa está presente no corpo do purusa (Isvara) como o óleo está na semente ou o perfume na flor, penetrando em todas as coisas, de Brahman até o mais insignificante fio de erva, contendo o germe dormente que pode ser atualizado por métodos apropriados.
- Esse germe espiritual no homem tem duas dimensões: é o fundamento do ser, como uma semente no centro sutil mais interior (muladhara), identificada com o germe primitivo bindu (também a "Palavra Transcendente") do qual procede o nada e a sílaba sagrada interior (pranava); e é também o símbolo e a realidade que resume todos os planos do universo, sendo o germe das cinquenta matrka (simbolizadas pelos cinquenta anéis da kundalini) e homologado aos diferentes planos do universo.
- O hamsa, como semente dormente e Brahman virtual, só se torna visível quando Siva se une à Sakti (energia cósmica) no sétimo centro de mil pétalas, o local da divina harmonia dos contrários, o que implica uma técnica fisiológico-espiritual que, ao despertar a semente, ativa os estados transconscientes, cuja forma definitiva é o kundalini yoga.
- A Hamsa Upanisad (10-13) considera o hamsa como o Si interior, o vidente (rsi) (hamsa pratyagatmaiva), onde Ham é a semente (bija) e Sah é a potência ou energia (sakti), e a forma so'ham é a chaveta ou o elo (kilaka) que une essas duas entidades.
- Essa Upanisad opõe ao hamsa individual um paramhamsa, que é o Si supremo, a divindade, o polo macrocósmico ou a contraparte universal, tendo a aplicação da fórmula por objetivo a visão direta (saksatkara) de hamsatma.
- A meditação do hamsa deve ser feita saudando-o como a forma do Paramatma, o Supremo sem segundo, o Único com a natureza de Puro Espírito, desprovido de movimento, e estabelecido na inspiração e expiração do sopro dentro de todos os seres, sendo o exercício desses dois movimentos o hamsa, repetido vinte e um mil e seiscentas vezes dia e noite como so'ham.
- A realização do hamsa desperta o germe espiritual no homem que, ao florescer, torna-se o Si supremo, resultando na visão direta do Atman, o próprio hamsa.
- Como mantra, o hamsa é o resumo mágico de todos os planos do ser e se identifica com a sílaba sagrada OM, estabelecendo correspondências ocultas com todas as modalidades do ser.
- O japa mantra ou hamsa mantra é homologado, na Hamsa Upanisad (10-13), às quatro condições macrocósmicas (caturdha): o corpo grosseiro universal (virad), o corpo sutil universal (sutra), o estado causal ("Senhor de todos" - sarvesvara), e o Si supremo interior e indiferenciado (pratyagabhinna-paramatma).
- A Brahma Upanisad (69-80) explicita essas correspondências, associando as três letras da sílaba sagrada OM (A, U, M) aos três cakras fundamentais (muladhara, coração - anahata cakra, e região entre as sobrancelhas - ajnacakra), e às três divindades Brahma, Visnu, e Rudra, que são os nós (granthi) que dão acesso a esses cakras.
- O hamsavakya (a fórmula hamsa) permite ao yogi despertar a consciência cósmica (kundalini) no primeiro centro (muladhara) e participar de sua progressão no corpo sutil inferior (adholinga), no centro do coração como corpo sutil do atman (atmalinga), e no corpo de luz (jyotirlinga) no meio das sobrancelhas.
- O despertar progressivo dos centros sutis pelo hamsa, simbolizado pela ascensão vertical da serpente que perfura os três nós de Brahma, Visnu e Rudra, possibilita a penetração do espírito no plano transcendente da supraconsciência, o centro de mil pétalas (sahasra cakra), onde se realiza a harmonia divina dos contrários (Siva-Sakti).
- O yogui, aplicando o japa por um longo período e meditando no atman nas três formas de visva (grosseiro), taijasa (sutil), e prajna (causal), nos níveis microcósmico e macrocósmico, realiza a manifestação plena de paramatma, conforme a Mahavakyopanisad (5-6).