ABHINAVAGUPTA. La lumière sur les tantras: chapitres 1 à 5 du Tantrāloka. Lilian Silburn; André Padoux. Paris: De Boccard, 1998
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A afirmação constante de Abhinavagupta da onipresença atual da divindade e a posição de que apenas a ignorância impede a percepção imediata de sua luz libertadora fundamentam a hierarquia das vias de liberação, organizada segundo a intensidade variável da graça divina, que concede diferentes modos de apreensão do absoluto.
- A graça mais intensa, que age de forma direta e imediata sem configurar propriamente uma via, é mencionada pelo TĀ como ponto inicial, seguida pelo impulso espiritual, pelos esforços intelectuais, mentais, rituais e corporais, em gradação decrescente de proximidade em relação ao Princípio.
- Os capítulos 2 a 5 seguem esse movimento descendente, enquanto os capítulos posteriores do tratado detalham prescrições rituais e práticas yogues.
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Anupāya: a não-via como expressão da afirmação absoluta da onipresença divina e da revelação imediata, concedida pela graça mais intensa.
- Abhinavagupta, em TĀ 2.2, observa que, por definição, nada há a dizer da não-via, pois a revelação é concedida de uma vez por todas e não exige ação.
- Jayaratha sugere a interpretação de “anupāya” como “pouca via”, reduzida quase a nada devido à intensidade da graça, mas Abhinavagupta insiste em sua natureza absoluta.
- A citação de uma estrofe do TĀV (2.2) destaca: “Siva não se manifesta graças às vias. Ao contrário, são estas que brilham de seu esplendor.”
- Esse modo é reservado a seres imaculados totalmente dedicados à sua essência bhairaviana, que percebem em tudo apenas o sabor do Si, dissolvendo-se no fogo da Consciência.
- A brevidade do capítulo 2 se explica pela impossibilidade de desenvolver a natureza da não-via: apenas os agraciados pela graça suprema a recebem, podendo inclusive morrer de imediato pela intensidade da experiência, sobrevivendo, quando possível, apenas em estado de absorção contemplativa.
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Śāmbhavopāya: a via de Śiva, entendida como caminho espiritual elevado baseado na adesão direta e súbita à pulsão criadora da divindade.
- Essa via é descrita como “união espontânea e imediata” com o impulso divino, uma adesão total ao fulgor originário da consciência.
- O TĀ (1.146-147) afirma: “O que fulgura imediatamente à orla do conhecimento, na consciência pura e global de si, no domínio indiferenciado, é denominado vontade. Assim como um objeto aparece claramente a quem tem os olhos bem abertos, do mesmo modo se revela a natureza de Śiva a alguns seres excepcionais.”
- O conhecimento exigido é, em certo sentido, simples — a consciência divina e sua potência criadora — mas também complexo, pois envolve a compreensão da manifestação cósmica enquanto reflexo da consciência suprema, incluindo o papel dos fonemas, dos planos da Palavra e dos mantras.
- O capítulo apresenta a cosmogonia da Palavra, reelaborada a partir da tradição tântrica e gramatical, estruturada como uma metafísica da manifestação.
- A culminação dessa via é a experiência do yogin que, pela prática contemplativa, identifica-se com Bhairava, dissolvendo toda dualidade na consciência plena, como expressam as estrofes finais: “Manifestando o universo em mim mesmo no éter da consciência, eu sou o Criador... perceber isto é ser idêntico a Bhairava.”
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Śāktopāya: a via da energia, fundada na razão intuitiva (sattarka) que conduz do pensamento discursivo à realização mística (bhāvanā).
- A dualidade se dissolve por meio da tomada de consciência global (parāmarśa), que elimina desejos e apegos sensoriais, purificando a inteligência e reconduzindo-a ao Absoluto.
- O mestre espiritual, “consagrado pelas deusas”, transmite a graça e conduz o discípulo à absorção em Śiva.
- Rituais e regras são secundários, sendo o tarka o único meio realmente útil por seu caráter de consciência intensificada, conduzindo à śuddhavidyā.
- Abhinavagupta expõe a concepção da “roda da energia” (śakticakra), sistema dinâmico no qual as energias divinas sustentam os sentidos, o mundo e a consciência, dissolvendo-se no centro imutável da divindade.
- O ciclo das doze Kālī, herdado do Krama, simboliza o processo cósmico e os estados da consciência yogue, conduzindo à dissolução final em Mahābhairava-candograghorakālī.
- Mantras como SAUH e KHPHREM são apresentados como meios de absorção, em correspondência com os movimentos do sopro cósmico e da kundalinī.
- A verdadeira prática é a fusão no Coração incriado, estado no qual toda ação e palavra do yogin se tornam manifestação direta da divindade.
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Ānavopāya: a via do ser limitado (anu), destinada aos yogins que, permanecendo presos à vida sensorial, aspiram à libertação.
- Essa via busca purificar corpo e mente, conduzindo à interiorização, ao recolhimento e à identificação progressiva com Bhairava.
- O capítulo 5 descreve apenas três práticas principais (meditação, respiração e mantras), reservando às seções posteriores o detalhamento ritual.
- As práticas partem de elementos mentais e corporais para conduzir à experiência da unidade da consciência, mostrando analogias com a via da energia, porém em nível mais baixo.
- Abhinavagupta enfatiza que até mesmo a atividade (kriyā), quando vivida plenamente, se identifica ao conhecimento e conduz ao yoga.
- O recolhimento da inteligência (buddhidhyāna) leva à visão da Realidade suprema, tornando possível perceber Bhairava até nas ações ordinárias.
- O yogin pode ainda seguir o prāṇa interior até sua fonte, penetrar no som primordial (śabda) ou absorver-se no movimento do mantra, atingindo estados místicos em que corpo e respiração participam do processo de libertação.
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Considerações finais: todas as vias têm por meta a mesma realidade suprema, o acesso ao “Oceano do indiferenciado” (TĀ 1.226).
- A escolha da via depende da intensidade da graça recebida e das disposições espirituais do adepto, sendo que todas, em graus diversos, podem conduzir à liberação em Śiva.