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id da página: 13655 Silburn – Xivaísmo de Caxemira – Hinos aos Kali Lilian Silburn

Silburn Tantra Kali Krama

Lilian SilburnXivaísmo de Caxemira – A Roda das Energias Divinas

  • A Natureza da Consciência Não-Dual e a Realidade do Mundo
    Sivanandanatha, logo no início de seu Srikalikastotra, estabelece a não-dualidade absoluta, a Consciência total que abarca tanto a forma quanto o sem-forma, o ser e o não-ser, o bem e o mal, resumindo seu sistema na espontaneidade do sem-igual ou niruttarasahaja, a Consciência incomparável fora da qual nada existe. Esta divindade é denominada niruttara, não no sentido de ser inferior a algo, mas porque, sendo única e solitária, não possui nada a transcender, contendo tudo em si sem dualidade de continente e conteúdo, pois o que seria outro é ainda ela mesma. Ksemaraja opõe-se à teoria da irrealidade do mundo manifestado, afirmando que o Senhor se revela como o anuttara do Trika sob a forma de tríplice energia, manifestando simultaneamente a diferenciação dos estados de vigília e sonho e a sua própria indiferenciação no interior desses estados. Seu mestre, Abhinavagupta, em sua obra Anuttarastika, condensa a doutrina da não-dualidade descrevendo o absoluto como a Realidade única e a Consciência indicível de Bhairava que se expande espontaneamente, comparando o surgimento da Luz consciente à aquisição de um tesouro esquecido, que é o reino da ausência universal de dualidade. Diferente do não-dualismo de Sankara, que considera os laços e o devir como pura ilusão, o não-dualismo intransigente de Abhinavagupta e do sistema Krama não rejeita nada fora do absoluto, nem mesmo os laços, visto que a ilusão é apenas uma forma da energia criadora e nada existe além do Uno, ou ekavira, o herói único que não tolera um segundo.

  • A Dinâmica do Tempo, a Energia e a Metodologia Krama
    O sistema Krama, partindo de uma experiência mística integral e prática, fundamenta-se na unicidade da Consciência como energia total, onde Siva e a energia divina estão sempre entrelaçados e são inseparáveis, não havendo supremacia de um sobre o outro. Sivananda destaca a noção de mahakala, o grande tempo destrutivo e essência do tempo que a deusa Consciência fraciona em doze kalis para fazê-las brilhar em si mesma; este tempo indiviso engendra o mundo mas também abole a diferenciação quando a grande kali o consome. O tempo apresenta-se com perfeita ambivalência, pois embora revista o aspecto de sucessão escravizante e dolorosa que mina a vida, é no próprio instante que se reencontra sua essência primordial, servindo os ciclos das doze kalis para resgatar o tempo em sua realidade de Siva eterno e imutável. Ao contrário do Trika, que explica o inferior pelo superior, o Krama adota uma marcha ascendente, partindo da energia fragmentada no espaço e no tempo até a energia transfigurada, onde o tempo amaldiçoado recobra sua essência de mahakala ou de kalasamkarsini, a energia que extrai a medula do tempo. O objetivo é a conquista das energias prisioneiras do tempo através do gesto místico ou kramamudra, que apõe ao devir o selo do imutável, transcendendo a alternativa ou vikalpa que gera a impressão de duração e desgasta as forças humanas.

  • Simbolismo da Roda, do Fogo e a Expansão do Eu
    As potências negadoras são ilustradas pelo fogo da Consciência que consome o múltiplo e abre acesso ao absoluto quando se cava o vazio intersticial entre duas modalidades conscientes, sendo as kalis comparadas a chamas devoradoras que desaparecem sem deixar vestígios após consumir seu combustível. O sistema caracteriza-se pelo símbolo dinâmico da Roda da consciência inefável, ou anakhyacakra, onde se agenciam harmoniosamente as rodas de energias, como a roda de doze raios, permitindo situar a experiência humana em sua totalidade e demonstrar a unidade entre o homem e o universo. Mahesvarananda oferece a imagem de uma nora cujos alcatruzes representam os mundos variados e cuja corda é a energia divina que faz o mundo turbilhonar; contudo, mais do que estruturas rígidas, deve-se imaginar uma espiral turbilhonante que se eleva segundo o eixo vertical da kundalini ou retombe em círculos definidos. A escolha fundamental reside entre encerrar-se nos limites do eu moldado pelos círculos do devir ou viver os ciclos em sua totalidade vibrante onde eixo e circunferência se confundem, percebendo que o eu limitado não tem existência própria e que o Tantrismo visa imensificar o eu, quebrando seus limites sem aboli-lo, reconhecendo que a existência individual é a existência do Senhor.

  • A Espontaneidade (Sahaja) e a Discriminação Mística
    Sivanandanatha inaugura uma ênfase no espontâneo ou sahaja, conceito que influenciaria escolas posteriores de yoga e que possui paralelos com o pensamento de mestres ocidentais como Mestre Eckhart, para quem o amor verdadeiro repousa na inatidade, e Heidegger com seu conceito de sempre-já-lá. O espontâneo no Krama não é o natural ordinário, mas uma experiência mística decorrente da kramamudra, uma integração total onde se percebe que nada de novo surgiu e que o Inato nunca faltou, exigindo uma preparação de purificação das faculdades sensíveis e intelectuais. A discriminação sutil é indispensável para distinguir os processos do homem ordinário, preso à oscilação entre atração e repulsão, do homem livre cuja vontade divinizada goza de uma escolha livre e espontânea; da mesma forma, a inteligência deve passar do pensamento discursivo dualizante para uma natureza intuitiva onde os vikalpas perdem sua nocividade. A raiz da aberração que cria a duração e o tempo linear reside em um desequilíbrio infinitesimal e na oscilação que faz fletir o impulso inicial, transformando o ato em hábito e gerando a dúvida.

  • A Purificação dos Vikalpas e a Eficiência da Via da Energia
    Em consonância com os budistas Yogacara, os partidários do Krama admitem a impermanência universal das coisas e noções, mas sustentam a natureza imutável do Eu, onde a temporalidade se desvanece na perspectiva do Ato supremo ou spanda. O erro que suscita a duração introduz-se com o elo entre agente e ação, devendo o yogin trabalhar na redução dos vikalpas através de um método purificador e da verdadeira discriminação ou sattarka para dissolver as tendências inconscientes ou samskaras. Abhinavagupta descreve como um vikalpa momentâneo engendra uma tendência também momentânea, e propõe a concentração em uma série de ideias semelhantes sem desvios, mantendo a vigilância na charneira entre dois pensamentos para que a fórmula o universo é minha obra ganhe evidência total. O processo é ilustrado pelo arco de Siva-Rudra: a flecha vibrante parte de uma intenção pura no instante, sem a oscilação da corda frouxa, atingindo o alvo com a mesma vibração do coração do Arqueiro divino, simbolizando a tomada de consciência do Eu que funde em um só todo vivo arco, corda, flecha e alvo. Esta via da energia, essencialmente mística, rejeita os meios de liberação externos como posturas, controle da respiração e meditações formais prisioneiras da via individual, privilegiando o discernimento, a veneração interior das kalis na atividade cotidiana e a adoração espontânea do Coração supremo que flui sem preparação.