HYMNES AUX KALĪ. LA ROUE DES ÉNERGIES DIVINES (1975)
-
A natureza da adoração na Roda Universal e a integração na Consciência de Bhairava
- A verdadeira adoração das energias, que se desdobram na criação, permanência, reabsorção e no inefável Quarto estado, fundamenta-se na tomada de Paramasiva em sua plenitude essencial, o que significa reconhecê-lo em sua potência e glória manifestas, permitindo que a homenagem digna desse nome faça fusionar as correntes diferenciadas de todas as modalidades na Consciência infinita, livre e imaculada de Bhairava.
- Este processo constitui uma integração total, denominada mahavyapti, na espontaneidade e beatitude do Si, onde formas, sabores e outras sensações deixam de ser separados pelo tempo, espaço e condições limitantes, tornando-se uma unidade indivisa na qual o universo grosseiro se mescla à pura Consciência.
- A Consciência manifesta-se, graças à sua liberdade, como uma realidade tanto interna quanto externa, consistindo em ambos os casos em uma consciência global, visto que a própria realidade externa é experimentada interiormente, revelando-se sob uma forma universal duodécupla que brilha incessantemente no sujeito, no conhecimento instrumental e no campo objetivo.
-
A dinâmica das rodas do Sujeito, do Conhecimento e do Objeto
- A prática esotérica propõe a união dos mundos a conhecer, simbolizados pela lua de dezesseis kalas, ao sujeito, simbolizado pelo fogo de oito kalas, mas, dado que a lua deve sua luz ao sol do conhecimento de doze kalas, o tratamento foca nas doze artesãs ou energias que resumem o conhecimento do mundo objetivo.
- Conforme exposto no Yogasamcaratantra, as rodas do sujeito e do objeto formam um par complementar onde o desdobramento de uma implica o recolhimento da outra, sendo necessário que sujeito e objeto se tornem um para que a Consciência se revele em sua plenitude, fazendo fluir a felicidade da suprema Consciência através da união de fogo e néctar.
- A união da matriz, que é a ilusão ou maya, com o linga, que é o Senhor dotado das cinco atividades divinas, produz a emissão e a reabsorção; ao pressionar fortemente estas duas rodas das atividades diárias para extrair sua essência, fulgura um esplendor que ultrapassa o sol e a lua, permitindo a percepção do supremo Sujeito consciente e o conhecimento do Tempo sob a forma de Bhairava.
- Transcender as rodas do sujeito e do objeto conduz à roda da Consciência universal de mil raios, da qual procede o ovo de brahman, onde o fogo do Sujeito supremo inflama o objeto ou soma, liberando o fluxo que engendra tanto o mundo comum a todos os seres quanto o mundo variado específico a cada um.
-
O ciclo de expansão e recolhimento do Sujeito Universal
- O soma inflamado espalha seu néctar através das rodas do objeto e do conhecimento até a roda do sujeito, fluindo subsequentemente para a roda quíntupla do corpo e dos órgãos sutis, após o que tudo se interioriza novamente na roda da reabsorção própria ao Sujeito universal.
- O Sujeito, identificado como o Cisne resplandecente de brancura, sorve novamente o mundo com intensa alegria, tomando consciência de si como Sujeito universal indiferenciado e encontrando plena satisfação ao reabsorver tudo em si mesmo, transcendendo a poluição do mérito e do demérito.
- Este Cisne onipresente, por sua autonomia, alia-se a modalidades mutáveis no corpo através do néctar da lua e move-se em direção às rodas secretas de onde o universo nasce e se dissolve, local onde reside a Beatitude e onde se obtém simultaneamente a liberação e a eficiência no mundo, culminando no acesso ao reino do brahman onde sujeito e objeto são iguais.
-
A definição e função das energias Kali e Kala segundo Abhinavagupta
- As doze bem-aventuradas energias da consciência, denominadas Kali, nascem simultânea ou sucessivamente e se desenvolvem como uma roda, manifestando-se exteriormente no tempo e interiormente nas impressões sensíveis, reforçando a liberdade do mestre da roda.
- Kali designa a Consciência em relação ao tempo que ela engendra, consistindo as kalikas em uma tomada de consciência global, enquanto kala refere-se à potência dinâmica na fonte do fracionamento universal, encarregada de fazer evoluir o mundo sem estar separada do Todo.
- As kalas situam-se entre as Kalis e os gunas, sendo energias espirituais aptas a serem purificadas; a purificação das categorias da realidade depende da purificação destas energias artesãs, conferindo ao mestre das kalas a soberania para suscitar ou fazer desaparecer as categorias do real à sua vontade.
-
As cinco atividades da Consciência e a etimologia da raiz Kal-
- Abhinavagupta elucida no Tantraloka os sentidos da raiz kal-, definindo que a suprema Consciência é chamada Kali porque realiza cinco atividades em sucessão: ksepa, a projeção da realidade diferenciada a partir do Si; jnana, o conhecimento intuitivo da natureza indiferenciada do diferenciado; samkhyana, a avaliação ou escolha que evidencia a diferenciação extrema; gati, o movimento que faz a realidade aceder à sua essência como reflexos em um espelho; e nada, a ressonância última indiferenciada e a tomada de consciência global do Si.
- Existe uma progressão na atividade da Consciência onde ela projeta a coisa em si mesma, apreende a essência indiferenciada do que foi diferenciado, suscita a dúvida através da diferenciação extrema, reconhece sua própria natureza reabsorvedora dissolvendo o sujeito limitado e, finalmente, faz aparecer o diferenciado em sua essência indiferenciada plenamente expandida.
- A energia flui livremente em todos os níveis impregnados de Consciência, pois ela engloba tudo, dissolvendo as etapas do conhecimento e os estados diferenciados na pura Consciência do Si que subsiste além das construções mentais.
-
A unicidade de Kalasankarsini e a transcendência da sucessão
- Quando a suprema Deusa retrai o tempo em si mesma, é denominada Kalakarsini ou Matrsadbhava, a Realidade eficiente dos sujeitos cognoscentes, sendo única em contraste com as doze modalidades de Kali, e sob sua influência o sujeito cognoscente reveste-se do brilho da beleza.
- A Consciência que reside de maneira duodécupla nos sujeitos é absolutamente única e livre de qualquer restrição de sucessão; não havendo sucessão, não há simultaneidade, caracterizando a kramamudra como a transcendência de ambas as ideias.
- Segundo Jayaratha, não existe uma décima terceira Kali separada que governe as outras doze, mas apenas uma única Realidade, Kalasankarsini, na qual as energias se refletem e da qual tiram sua substância, evitando-se assim o regresso ao infinito e a dualidade entre as energias e seu criador.
- O real não é nem um nem múltiplo, sendo comparável a reflexos no interior de um espelho, e a Consciência reside igualmente nos movimentos emanadores, conservadores e reabsorvedores, pois as energias não descem a um nível inferior, devendo ser veneradas de maneira igual na plenitude que não varia.
-
A plenitude da realização e a espontaneidade mística (Sahaja)
- A adoração plena consiste na identificação com a Realidade imaculada em qualquer roda que a Consciência divina se manifeste, superando a visão ordinária que escraviza ao devir e a absorção isolada em Siva, para alcançar a absorção em Mahabhairava ou no Coração cósmico.
- A Consciência possui uma ressonância espontânea perpétua dita grande Coração supremo, onde reside o Ato vibrante de tomada de consciência do Si e a Palavra absoluta; quando o mundo se funde neste Coração, desperta-se a vibração genérica ou spanda.
- O yogin que se torna mestre da roda das energias vive no espontâneo, onde sua atividade é pura adoração e o fluxo do coração o precipita no Uno, permitindo-lhe contemplar os movimentos do universo na luz da unidade e exercer sua liberdade abandonando-se à pulsação do Coração divino.
- Este estado permite ao místico residir no Centro, oscilando entre a periferia dos órgãos sensoriais e o coração sem perder o contato consigo mesmo, experimentando uma sucessão no Imutável e uma felicidade universal que abraça tanto a interioridade pura quanto o mundo renovado.
-
A metáfora dos elementos e a progressão das Kalis
- A atividade das Kalis pode ser compreendida através de uma metáfora elementar onde os homens comuns vivem em terra árida ignorando a água da energia divina, enquanto os teólogos apenas discutem o mapa do rio e alguns místicos se imergem sem retornar.
- O grande místico, comparável ao nadador ensinado por um mestre, transita livremente entre o rio do Si e a terra firme; o fluxo e refluxo da primeira Kali correspondem a irrigar o mundo ordinário com a água do Si, tornando a terra fecunda.
- Nas etapas subsequentes, a terra torna-se um jardim flutuante onde a água é néctar de imortalidade (segunda Kali), o ar é conquistado através dos sopros (terceira Kali) e a secura residual é dissolvida (quarta Kali), consumindo-se as limites do eu pelo fogo do Sujeito viril (Agni).
- Finalmente, com a última Kali, o Sujeito supremo torna-se o cisne que voa livremente no espaço etéreo que engloba terra, água, ar e fogo, onde o céu imutável é fogo radiante que ilumina uniformemente, permitindo ao cisne mover-se por todos os elementos sem se poluir, soberanamente livre em relação a todos os níveis do real.