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id da página: 13644 Silburn – Xivaísmo de Caxemira – Hinos aos Kali – Vibrações Lilian Silburn

Silburn Tantra Kali Spanda

Lilian SilburnXivaísmo de Caxemira – A Roda das Energias Divinas

HYMNES AUX KALĪ. LA ROUE DES ÉNERGIES DIVINES (1975)

O desdobramento das doze energias e a quintúpla atividade
  • Segundo Abhinavagupta, os doze raios da roda indizível (anakhya) constituem os doze aspectos sucessivos que a Consciência do iogue assume, correspondendo às quatro energias — criação, permanência, reabsorção e estado indizível — aplicadas respectivamente ao objeto conhecido, aos meios de conhecimento e ao sujeito cognoscente.
  • Ao somar a estas quatro energias a Esplendor ou liberdade divina que dissemina a graça, obtém-se a quintúpla atividade de Siva que, conforme Ksemaraja, ocorre constantemente em cada indivíduo através de um processo ininterrupto de integração.
  • A prática das Kalis destina-se exclusivamente ao místico que penetrou em seu coração e busca o domínio sobre seus órgãos em todas as circunstâncias para jamais perder a quietude, permitindo que suas energias recolhidas se desdobrem em doze movimentos que partem do coração até o contato com o mundo sensível e retornam.
  • O ciclo completo envolve emitir o objeto numa percepção fugaz, estabilizá-lo ao reconhecê-lo, reabsorvê-lo interiormente e ocultá-lo; caso restem vestígios no inconsciente, o iogue deve emitir e reabsorver continuamente até a fundição total na Consciência, o que corresponde ao aniquilamento definitivo ou à graça no sistema Krama.
  • O sistema de "anakhya da atividade" foca nos movimentos de aparição, permanência, reabsorção e estado indizível percorrendo os três domínios (conhecido, conhecimento e sujeito), distinguindo-se do sistema mencionado por Sivanandanatha, que foca na substância das energias e culmina na certeza intuitiva (pramiti).
A medida da realidade e os quatro domínios da consciência
  • O termo para medir (ma) indica uma tomada de consciência à medida de nossa relação com o eu e as coisas; essa percepção transforma-se pela obra das Kalis, evoluindo da dualidade que acorrenta ao devir até a Consciência indiferenciada que contém o múltiplo como idêntico a si mesma, comparável a reflexos inseparáveis no orbe de um espelho.
  • Prameya (o cognoscível ou lua): Cobre o plano da experiência objetiva e os elementos que, para o homem comum, são inferíveis e externos, mas para o iogue tornam-se conhecimento direto sob seu domínio; caracteriza-se pela multiplicidade e novidade constante, devendo tornar-se a "lua cheia" para quem pratica as Kalis.
  • Pramana (o conhecimento ou sol): Refere-se à tomada de consciência interior e estável, abrangendo o pensamento individual, a memória, a imaginação e a discriminação nocional que afirma algo pela exclusão de outro; situa-se entre o sensível e o puro Sujeito.
  • Pramatr (o sujeito cognoscente ou fogo): Divide-se entre o sujeito vazio ou limitado (sunyapramatr), que ignora o mundo ou está em êxtase sem resíduos, e o Sujeito universal (parapramatr), que conserva a consciência de Si mesmo nas atividades e cuja energia não é apenas intenção, mas felicidade contínua.
  • Pramiti (a intuição inefável): É o conhecimento radical e a fonte dinâmica que surge quando o Sujeito supremo, despojado de construções mentais, goza do ato puro e tranquilo da consciência; corresponde ao estado indizível onde o universo, embora não diferenciado, é percebido como a soma das energias divinas.
A dinâmica dos três instantes e a transfiguração pelo iogue
  • O triplo campo da consciência (Pramatr, Pramana e Prameya) desdobra-se em três momentos consecutivos: o instante de interioridade onde o sujeito repousa na essência, o instante de despertar do conhecimento e o instante de exterioridade voltado à ação objetiva.
  • Para o homem comum, esses instantes encadeiam-se imperceptivelmente gerando escravidão e dualidade imediata; diferentemente, o iogue, com atividade indiferenciada, percebe o objeto como idêntico à sua própria consciência, vivenciando o "Eu" de forma imediata antes da tomada de consciência objetiva.
  • A prática das Kalis pode ser realizada pela via inferior, percebendo o torneio das energias nas atividades sensoriais, ou pela via da energia, que é espontânea, ocorre após a iluminação e visa absorver-se no ato da Consciência para equalizar o interno e o externo (kramamudra).
  • Segundo Abhinavagupta e seu mestre Sambhunatha, as energias de vontade, conhecimento e atividade só podem ser objeto de culto quando estão prestes a abandonar suas distinções mútuas e fundir-se na pura liberdade ou consciência.
A progressão luminosa através dos ciclos das Kalis
  • A iluminação do "Eu" atua como um farol cuja intensidade aumenta progressivamente, atravessando os planos do conhecido, do conhecimento e do conhecedor, reproduzindo em cada nível as fases de aparição, permanência e reabsorção.
  • No ciclo do conhecido (Prameya): O iogue experimenta primeiro uma visão global e instantânea das coisas como energias (aparição), depois as vê com clareza como distintas mas integradas ao Ser (permanência), em seguida a luz da consciência torna-se tão intensa que só ela permanece visível (reabsorção), culminando na dissolução dos traços de objetividade no vazio (indizível).
  • No ciclo do conhecimento (Pramana): O farol ilumina o círculo cognitivo onde o objeto é absorvido pelo conhecimento (aparição), a fruição torna-se igual em todas as coisas e a ideia de tempo é abolida (permanência), o sujeito limitado reabsorve os órgãos e a inteligência discriminadora dissipando o medo da dualidade (reabsorção), restando apenas a certeza mística (indizível).
  • No ciclo do sujeito (Pramatr): O "Eu" toma prazer breve nos órgãos cognitivos (aparição), reconhece sua essência de forma permanente (permanência) e, como Sujeito universal, abole os limites individuais (reabsorção), identificando-se finalmente com a Energia total, a indizível Kalasamkarsini, que flui espontaneamente através de todos os domínios unificados.
Métodos de realização: prática gradual e Kramamudra
  • Embora a escola Krama admita a possibilidade de atingir a Consciência suprema sem graus, apenas certos gênios conseguem realizar as Kalis simultaneamente e em liberdade, possuindo o domínio do grande "selo" da Consciência (kramamudra) a partir de qualquer ponto.
  • A prática progressiva foca em uma Kali de cada vez, descobrindo os estados indizíveis nas transições, com o objetivo de efetuar uma ruptura em direção ao Centro; uma vez atingido o Centro, a distinção entre conhecido, conhecimento e conhecedor desaparece.
  • A kramamudra distingue-se da prática gradual das Kalis por ser um movimento pendular instantâneo que parte da consciência do ser iluminado para o estado ordinário e retorna, nivelando interioridade e exterioridade até que o iogue perceba que, mesmo na periferia, jamais deixou o Centro.
  • A prática completa das Kalis é árdua devido aos resíduos da dualidade (samskara) que exigem um trabalho de aprofundamento e exteriorização alternados, como uma espiral, até que as energias "vacuitantes" perfurem o bloco do eu e permitam a emergência do anakhya vibrante, tornando o iogue um Soberano que faz girar as rodas da consciência.