FOERSTER, W. Gnosticismo. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972
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A grande variedade de sistemas gnósticos e seus objetivos comuns
- Explicação da oposição entre o mundo divino e o mundo atual do homem.
- Compreensão da razão pela qual um elemento divino se encontra aprisionado no gnóstico.
- Inclusão do chamado para despertar o elemento divino.
- Descrição do fim do mundo, quando o divino retorna à sua pátria e este mundo é destruído ou se torna impotente.
- Menção às questões fundamentais resumidas pelo Gnosticismo: "Quem éramos? No que nos tornamos? Onde estávamos? Para onde fomos lançados? Para onde nos apressamos? De que somos libertos? O que é o nascimento? O que é o renascimento?".
- Centralidade do "chamado" para a compreensão de si mesmo e a consequente definição de uma compreensão de Deus e do mundo.
- Explicitação, nos sistemas gnósticos, do que está implícito na atenção ao chamado.
- Necessidade, para o gnóstico, de um sistema que mostre sua origem, a existência do mundo, o processo de redenção e sua consumação final.
- Proliferação de sistemas gnósticos para apresentar essas explicações.
- Papel decisivo de entidades mitológicas e míticas, correspondendo à essência do homem como responsividade ao "chamado".
- Impossibilidade de reduzir todos os sistemas a uma única fonte, apesar de derivações entre sistemas individuais.
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A distinção fundamental no Gnosticismo em relação ao Helenismo
- Contraste entre a distinção helenista dos mundos sensível e espiritual e a clivagem fundamental no Gnosticismo.
- Para o pensamento grego, o poder criador do mundo, seja Deus, Demiurgo, razão universal ou fogo, é supremo e último.
- Para o Gnosticismo, existe uma clivagem fundamental entre o mundo criado e a plenitude da existência divina, a "luz".
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O tipo "Iraniano" de Gnosticismo e seus sistemas representativos
- Abordagem a partir de dois princípios opostos desde a origem: luz e trevas, bem e mal, Deus e matéria.
- A treva como elemento agressivo, tornando-se cobiçosa pela beleza do mundo da luz e obrigando este a tomar contramedidas.
- Envio de uma figura do mundo da luz que desce voluntariamente e é total ou parcialmente engolida pelas trevas.
- Alternativa: queda de uma figura de luz, o "homem", por um erro trágico nas trevas.
- Explicação clara do cativeiro do "ouro" na lama.
- O divino como protótipo de um evento a ser revertido pelo homem ou como elemento divino caído no homem, necessitando de uma nova missão do mundo da luz.
- Identificação deste ramo por H. Jonas como tipo "Iraniano", com base na religião de Zoroastro.
- Diferenciação em relação ao dualismo zoroástrico: no Gnosticismo, um princípio identifica-se com este mundo e o outro é totalmente oposto a ele.
- Representação deste ramo no Poimandres, no Maniqueísmo, em parte no Mandeísmo e sua influência no Ocidente.
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O outro ramo do Gnosticismo: partindo de um único princípio e a questão da "queda"
- Abordagem a partir de um princípio único, o divino, do qual uma parte se separa, ou seja, cai.
- Dificuldade expressa na questão de como de um princípio simples, não criado, imperecível e bom, surgiram naturezas de substância diferente, como a perecibilidade e o Meio.
- Contraste com o Helenismo: a série de "éons" que emanam de Deus não implica um deslizamento gradual, mas uma "queda" motivada pelo que é considerado o pecado primal.
- A queda e suas consequências como elemento separador deste ramo do Gnosticismo em relação ao Helenismo.
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A proeminência do Demiurge e a identificação com o Deus do Antigo Testamento
- Destaque do Senhor e Criador deste mundo, derivado da entidade caída: o "Demiurge".
- Nomeação frequente do Demiurge como Ialdabaoth.
- Identificação do Demiurge com o Deus Criador do Antigo Testamento.
- O Demiurge como senhor do "sete", senhor do destino, e por vezes produtor de um filho, o Diabo.
- Posse, por parte de Ialdabaoth, de uma partícula do mundo da luz, proveniente da entidade caída.
- O objetivo central: o retorno dessa partícula de luz à sua pátria.
- Característica do Gnosticismo ocidental: a identificação do Demiurge com o Deus do Antigo Testamento.
- O Criador deste mundo não é o Deus mais elevado para o gnóstico.
- Interpretação da palavra de Isaías 45:5, "Eu sou Deus, e além de mim não há outro", como expressão de soberba e ignorância do verdadeiro Deus.
- Inadequação dos mandamentos do Antigo Testamento como guia para o gnóstico, seja na ascese, no libertinismo ou no meio-termo.
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Sistemas com ideias mais próximas do Helenismo e suas variações
- Sistemas que trabalham com ideias mais próximas do Helenismo.
- Exemplo: o Deus inconcebível deposita uma "semente do mundo" contendo tudo o que este mundo viria a ser.
- Menção a um arconte senhor da "hebdomad" (esfera dos planetas) e outro mais exaltado sobre a "ogdoad" (esfera das estrelas fixas).
- Conversão final desses arcontes e sua permanência contente em suas respectivas esferas no fim do mundo.
- Presença de uma "filiação" na "semente do mundo", incapaz de ascender por seu próprio esforço (tema de Basílides segundo Hipólito).
- Outros sistemas: três princípios constituindo a ideia do mundo, com um quarto elemento corpóreo acrescentado.
- Sistemas com três princípios cuja ação recíproca é o motivo da história do mundo.
- O princípio do meio, semelhante a uma serpente, traz ideias do princípio mais elevado para a matéria.
- Possibilidade de ausência de qualquer menção a uma "queda" nesses sistemas.
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A natureza da entidade que cai: princípios masculinos e femininos
- A entidade que cai pode ser masculina ou feminina.
- Exemplo dos Naassenos: "Adão" ou "o homem interior" caiu do "homem primal" para os "produtos terrenos do esquecimento".
- Exemplo da gnose de Baruque: "Elohim" une-se em amor a "Eden", sendo posteriormente claro que Elohim pertence ao lado do Deus bom.
- Queda de um princípio feminino, por vezes sem motivo real apresentado.
- Razões para a queda de um princípio feminino: motivo erótico (sendo chamada de Prunikos, "lasciva") ou desejo de ser como o Deus mais elevado.
- Início da cadeia de eventos no mundo com a queda do princípio feminino.
- Influência do relato bíblico da criação nessas especulações.
- Mecanismos para ligar a entidade caída aos homens caídos: Prunikos concede luz a Ialdabaoth, que a sopra no homem; ou "Sofia" semeia a semente de cima em homens específicos.
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O "eu" no homem e a ideia do "Homem Primal"
- A ideia de que o "eu" no homem pertence ao mundo divino expressa através de declarações sobre um "Homem Primal" no mundo superior da luz.
- O "Homem Primal" como o "não-criado" ou, mais frequentemente, o "auto-originado".
- Possibilidade de identificar o homem terreno, no cerne do seu ser, com o Homem Primal divino (ex.: Pregação Naassena e Maniqueísmo).
- Dificuldade em expressar este pensamento onde um ser feminino cai (ex.: Valentinianismo).
- Aparição esporádica de "homem", "Homem Primal", "Adamas", Adão, etc., mesmo nessa forma de Gnosticismo.
- Identificação do Homem Primal com o Redentor, como na Sophia Jesu Christi: "Naquela hora a luz tornou-se manifesta... num primeiro homem imortal e andrógino, para que através deste imortal os homens pudessem alcançar a salvação e despertar de sua incapacidade para o conhecimento...".
- Elevação do primeiro homem ou homem primal acima da divisão sexual e expectativa do mesmo para os pneumáticos no mundo da luz.
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O "chamado" como meio de redenção e a personificação do Redentor
- A descida do "ouro", o "eu" caído dos pneumáticos, contida nos eventos relativos à entidade caída.
- Incapacidade do elemento divino no homem de escapar por si mesmo do cativeiro neste mundo.
- A redenção trazida por um "chamado" do mundo invisível que revela a pátria celestial.
- O "chamado" por vezes oculto sob a palavra-chave de "aprendizagem" (ex.: Megale Apophasis e os Setianos).
- O sistema gnóstico individual como um "chamado", exemplificado no Poimandres.
- Muitos sistemas gnósticos possuem um "Redentor", uma figura do mundo da luz que desperta o elemento divino.
- O Redentor como personificação do próprio chamado (ex.: Manda d'Hai no Mandeísmo, que significa "conhecimento da vida").
- No domínio cristão, Jesus Cristo assume naturalmente o papel decisivo.
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A cristologia gnóstica: Docetismo e a obra redentora de Cristo
- Os primeiros gnósticos cristãos: Jesus como mais sábio e justo, com um poder do alto que lhe permitiu eludir o criador do mundo.
- Visão similar: descida de Cristo sobre Jesus no Batismo e seu retorno ao Poder antes da crucificação (ex.: Carpócrates e Cerinto).
- Rejeição da ideia de que Cristo redimiu através do sofrimento real na Cruz: "Pois, se a vida estivesse nele, como o corpo estaria morto?".
- Doutrina do Docetismo: Jesus sofreu apenas em aparência (grego: dokein), não na realidade (ex.: sistema basilidiano segundo Ireneu).
- A obra redentora e libertadora de Cristo: proclamação do "chamado" sobre o Pai desconhecido.
- Cristo como modelo a ser seguido (ex.: Basilidianos de Hipólito, onde Jesus é o primeiro da "separação dos tipos").
- Entre os Valentinianos: Jesus Cristo "também entregou o que vestiu", assumindo elementos pneumáticos e psíquicos.
- Ato redentor no sentido próprio: envio de um raio de poder para destruir a morte e libertação dos psíquicos através da alegoria do sangue.
- Para os pneumáticos, conduta do Salvador tem caráter prototípico; sua ação não transforma o "eu".
- Menção ocasional a uma vitória sobre a morte (ex.: Carta a Regino).
- Salvação dos psíquicos numa gradação inferior, mas ainda assim vida eterna.
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A imagem da serpente e a variação do "Redentor redimido"
- Utilização da imagem da serpente, identificada com o Logos ou com "Jesus", para levar os "despertados" para cima.
- A ascensão como elemento decisivo e "redentor" no retorno ao mundo invisível.
- Combinação peculiar com o "conhecimento": a serpente leva para cima aqueles que se tornaram "livres" através do autorreconhecimento.
- Variação especial: o "Redentor redimido".
- Redentor e redimidos são da mesma natureza.
- Ao entrar neste mundo, o Redentor aparentemente assume aquilo de que deve libertar os outros, tornando-se ele próprio necessitado de redenção.
- Perspectiva a partir de cima: Deus busca a si mesmo, como na Megale Apophasis: "Isso é o que eles dizem: 'Eu e tu somos um, tu estás antes de mim, eu estou depois de ti.' Isto... é o único poder, dividido acima e abaixo, gerando a si mesmo, multiplicando-se a si mesmo, buscando a si mesmo, encontrando a si mesmo, sua própria mãe, seu próprio pai...".
- O que é redimido é, em última análise, o Redentor, pois ambos são substancialmente o mesmo.
- Limitação desta ideia: se fosse apenas isto, seria uma filosofia de alternância perpétua, sem um redentor que remove definitivamente uma situação.
- O anseio gnóstico, expresso na Megale Apophasis, é "não mais vir a ser".
- O Redentor não é redimido do reino do qual liberta os outros, pois descarta o que assumiu.
- Raridade da afirmação de que o Redentor é ou se torna redimido.
- Ausência da ideia do Redentor redimido no Gnosticismo ocidental e no Poimandres.
- Distinção gnóstica entre o "redentor", o Deus supremo e os redimidos.
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Sacramentos e fórmulas mágicas no Gnosticismo
- Superfluidade estrita dos sacramentos para o gnóstico, sendo a redenção perfeita o "conhecimento da inefável grandeza".
- Presença frequente de sacramentos nos sistemas gnósticos, provavelmente por herança de movimentos de origem.
- Exemplo: Batismo Mandeano derivado do auto-batismo dos judeus.
- Sacramentos no Gnosticismo cristão: Batismo, Unção, Selamento, Eucaristia e Câmara Nupcial.
- Escassez de informações detalhadas nas fontes patrísticas e fragmentos.
- Fórmulas do sacramento da Redenção dos Marcosianos (segundo Ireneu).
- Alusões aos sacramentos nos Atos de Tomé, no Evangelho de Filipe e na Exegese sobre a Alma.
- Fórmulas que os gnósticos devem pronunciar após a morte ao passar pelas esferas estelares.
- Fornecimento de material sobre essas fórmulas por Ireneu e Orígenes.
- Origem alheia dessas fórmulas em relação ao Gnosticismo.
- Indicação de que, para muitos, o Gnosticismo não era suficiente e ainda sentiam perigo das "potências", necessitando de um sinal de pertença ao mundo da luz.
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A ética gnóstica: liberdade da lei e as bases da conduta
- Aparência de indiferença ética devido à crença em serem "salvos por natureza".
- Acusação dos Padres da Igreja: "Por isso, os mais perfeitos entre eles fazem sem medo tudo o que é proibido.".
- Necessidade de aprofundamento: a conduta gnóstica não era medida pela ética da Igreja.
- Afirmação de Carpócrates de que "Fé e amor redimem".
- Reação gnóstica contra tudo o que é chamado de "lei": "Ele diz que 'Meu e teu' foram introduzidos pela lei.".
- Leis, sejam do criador do mundo ou humanas, como imposições externas das quais o gnóstico quer se libertar.
- Oposição principal dirigida contra a Lei do Antigo Testamento, revestida da autoridade do criador do mundo.
- A regra de conduta resultante daquilo que provém do verdadeiro Deus supremo.
- Única coisa interiormente vinculante: a fé (resposta ao chamado) e o amor (que vê no próximo alguém potencialmente "salvo por natureza").
- Compreensão da indiferença gnóstica quanto à confissão perante as autoridades e participação em refeições de oferendas aos ídolos.
- Consideração dos ídolos como inexistentes e sentimento de elevação acima dos poderes do destino.
- Possível indiferença em relação à vida sexual, considerando a vida corporal irrelevante.
- Conclusão oposta também possível: a ascese como forma de não fortalecer a vida corporal que se extinguirá.
- Provável ausência de pensamento de ascese direta, embora por vezes praticada.
- Destaque, entre os oponentes, do lado libertino do Gnosticismo como mais escandaloso, enquanto condutas próximas dos cristãos "ortodoxos" ou ascéticas recebiam menos atenção.