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id da página: 10543 Clemente de Alexandria Pedagogo|PEDAGOGO CRIANÇA Clemente

Clemente Parvulum

§ 14. O próprio Senhor revelou claramente a universalidade da salvação com estas palavras: « Esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê ao Filho e crê em Ele tenha vida eterna, e o ressuscite no último dia » (Jo 6,40).

§ 15. Na medida em que é possível neste mundo — que é designado simbolicamente como « o último dia », « reservado » hasta que se acabe —, temos a firme convicção de haver alcançado a perfeição. A fé, com efeito, é a perfeição da aprendizagem; por isso se nos diz: « O que crê no Filho tem vida eterna » (Jo 3,36).

§ 16. Pois bem, se nós que acreditamos, temos a vida, quê outra coisa nos resta por receber superior à consecução da vida eterna?

§ 17. Nada falta à fé, que é perfeita em si e acabada. Se algo lhe faltasse, não seria perfeita; nem seria tal fé, se coxeasse no mínimo. Depois da partida deste mundo, os que creram não tem nenhuma outra coisa que esperar: receberam as arras aqui embaixo e para sempre. Este futuro, que agora possuímos pela fé, o possuiremos do todo realizado depois da ressurreição; de modo que se cumpra a palavra: « Fazei-vos em vós segundo vossa fé » (Mt 9,29).

§ 18. Donde se acha a fé, ali está a promessa, e o cumprimento da promessa é o descanso final; de maneira que o conhecimento está na iluminação, mas o término do conhecimento é o repouso, objetivo final de nosso desejo.

§ 19. Assim como a inexperiência desaparece com a experiência e a indigência com a abundância, assim também, necessariamente, com a luz se dissipa a obscuridade. A obscuridade é a ignorância, pela qual caímos no pecado e nos cegamos para alcançar a verdade. O conhecimento, portanto, é a luz que dissipa a ignorância e outorga a capacidade de ver com claridade.

§ 20. Pode dizer-se também que o rechaço das coisas piores põe de manifesto as melhores. Pois o que a ignorância mantinha mal atado, o desata felizmente o conhecimento. Ditas ataduras ficam rapidamente rompidas pela fé do homem e pela graça de Deus. Nossos pecados são lavados pelo único remédio curativo: o batismo do Logos.

§ 21. Ficamos lavados de todos nossos pecados e, de repente, já não somos maus; é a graça a singular da iluminação, pela que nossa conduta já não é a mesma que a de antes do banho batismal. E como o conhecimento — que ilumina a inteligência — surge, ao mesmo tempo em que a iluminação, assim, de súbito, sem haver aprendido nada, ouvimos chamar-nos discípulos; a instrução nos foi conferida anteriormente, mas não pode concretar-se em quê momento.

§ 22. A catequese conduz à fé; e a fé, no momento do santo batismo, é ilustrada pelo Espírito Santo. O Apóstolo explicou com grande precisão que a fé é a única e universal salvação da humanidade, e que é um dom — igual e comum para todos— do Deus justo e bom: « Antes de chegar a fé, estávamos sujeitos à custódia da lei, à espera da fé que havia de revelar-se. De modo que a lei foi nosso Pedagogo para elevar-nos a Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Mas, chegada esta, já não estamos sob o Pedagogo» (Gal 3,23-25).

§ 23. É que não vos dais conta de que já não estamos sob esta lei, sob o jugo do temor, mas sim sob o Logos da liberdade, o Pedagogo? Mais adiante, acrescenta o Apóstolo umas palavras que excluem toda acepção de pessoas: « Todos, pois, sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque quantos haveis sido batizados em Cristo vos haveis revestido de Cristo: já não tem judeu, nem grego, nem escravo, nem livre, nem homem, nem mulher, porque todos sois um corpo em Cristo Jesus». (Gal 3,26-28)

§ 24. Assim pois, não são « gnósticos » e outros « psíquicos » no mesmo Logos; todos os que rechaçaram a concupiscência da carne são iguais e « pneumáticos » diante o Senhor.

§ 25. Por outro lado, acrescenta ainda o Apóstolo: « Todos nós fomos batizados em um só espírito para formar um só corpo, sejam judeus, sejam gregos, sejam escravos, sejam livres; e todos nós bebemos uma única bebida » (I Cor 12,13; Em dita passagem paulina foi considerado “pneuma” = « espírito », em lugar de “póma” = bebida).