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id da página: 4938 MESTRE ECKHART SERMÕES Mestre Eckhart

Eckhart Sermon 101

Uma vez um mestre falou assim à sua alma:

“Retira-te do sorvedouro das atividades externas, fuja e guarda-te da confusão dos pensamentos, pois estas coisas só trazem balbúrdia e discórdia”.

Logo, para que Deus fale sua palavra na alma, esta tem que estar em descanso e em paz e apenas então Ele falará Sua palavra, ou seja: Ele mesmo na alma, não como uma imagem, mas Ele em pessoa!

Dionísio disse:

“Deus não possui imagem ou semelhança de Si mesmo, sendo como é intrinsecamente todo bondade, verdade e ser”.

Deus realiza todos os Seus trabalhos num átimo, quer seja em Si mesmo ou fora de Si mesmo. Não imaginem, nem por um só instante sequer, que Deus, ao fazer o céu, a terra e todas as coisas, fez uma coisa num dia e outra no dia seguinte. Moisés explicou assim, mas ele sabia que de fato tal não ocorria: ele falou assim para o benefício daqueles que de outra forma não poderiam conceber o fato. O que Deus fez foi o seguinte: Ele quis, ele falou, e as coisas aconteceram! Deus fez o Seu trabalho sem intermediários e sem imagens. E quanto mais liberto você estiver de imagens, tanto mais pronto você estará para o trabalho interno de Deus; e quanto mais voltado para dentro e esquecido de si mesmo você estiver, tanto mais aproximado disto você estará.

Dionísio encorajava seu discípulo Timóteo neste sentido, ao dizer:

“Caro Amigo Timóteo, voe você com uma mente sem preocupações acima de si mesmo e de todas as suas forças, acima, muito acima de todo o raciocínio e discriminação humana, acima de trabalhos e de todas as formas de existência, bem profundo no segredo e escuridão quieta, para que você possa se inteirar do Deus desconhecido e super divino”.

Deve haver uma retirada de todas as coisas. Deus desdenha agir através de meras imagens.

Alguém poderia nesta altura perguntar:

“O que Deus obra no chão e na essência?”

Isto eu não posso saber porque as forças da minha alma são capazes de receber apenas imagens; estas forças conhecem e atém-se a cada coisa com sua imagem adequada. Elas não são capazes de reconhecer um cavalo ao ser mostrada a imagem de um homem; e já que as coisas vêm de fora, aquele conhecimento está oculto de minha alma—o que é altamente benéfico.

Este não-saber torna-a imaginativa e a conduz a uma busca audaz, pois se ela percebe claramente o que é, ela não reconhece como nem o que seja. Sempre que o homem se inteira da causa das coisas, ele rapidamente delas se cansa e procura algo mais variado. Sempre querendo conhecer, é sempre inconstante. É desta forma que este saber sem saber mantém a alma constante e a estimula em sua busca.

Sobre isto um velho sábio afirmou:

“No meio da noite, quando tudo estava silente, uma palavra oculta me foi passada. Veio a mim como um ladrão às escondidas”. (Sap. 18:14,15)

Porque ele menciona uma palavra, se ela estava oculta? A função de uma palavra é revelar o que está oculto. Ela se revelou a mim e brilhou, revelando-me algo e tornando Deus conhecido de mim: por esta razão ele mencionou uma Palavra. Mas do que se tratou isso se queda oculto de mim. Foi desta forma que ela veio, sorrateira em uma calma murmurante e se revelou. Logo, porque está oculta é que se há de buscá-la. Ela brilhou e contudo estava oculta: nós devemos suspirar e anelar por ouvir tal palavra. São Paulo nos aconselha a persegui-la até seu vislumbre e que não nos detenhamos até que a termos agarrado. Após tê-la agarrado no terceiro céu, onde Deus se fez conhecido e onde ele presenciou todas aquelas coisas, ao voltar ele de nada havia se esquecido; mas estava tão profundamente no seu chão, que seu intelecto não podia abarcar e compreender isto: estava oculto dele. Logo, ele teve que procurar e perseguir dentro dele, e não fora dele mesmo. Está tudo dentro, nada fora, mas está completamente dentro. Consciente disto, ele afirmou:

“Estou seguro de que nem a morte nem qualquer sofrimento pode me separar do que encontrei dentro de mim”. (Rom. 8:38-39).

Um mestre pagão disse-o bem, ao constatar de certa feita:

“Estou ciente de que algo brilha em minha compreensão: posso nitidamente discernir de que se trata, mas o que é isto—não posso saber. E contudo, se o pudesse possuir, saberia tudo que há para ser sabido”.

Ao que o outro mestre retorquiu:

“Sê corajoso em tua busca. Pois se puderes segurar isto, terás o somatório total do que é bom e de quebra também a vida eterna!”

Santo Agostinho disse algo parecido:

“Percebo que algo brilha e fulgura diante de minha alma: se estivesse plenamente aperfeiçoado e estabilizado, por certo seria a vida eterna!”

Isto é algo que se revela, mas ao mesmo tempo se oculta; vem, mas como um ladrão para tudo surripiar e fazer tabula rasa do que existe na alma. Esta coisa que aparece tem a clara intenção de chamar a alma de volta para si mesma, e em seguida roubar e tirar a alma de si mesma.

Sobre isto, comenta o profeta:

“Senhor, tira deles o espírito e dá-lhes o teu espírito em troca”. (Sl. 103:29-30).

Isto também foi o que a alma saturada de amor quis dizer:

“Minha alma se dissolveu e desmanchou quando o Amor falou a sua palavra”. (Cant. 5:6) Quando ele entrou, eu tive que me retirar.

Cristo quis dizer isto quando falou:

“Quem tudo abandonar por minha causa será recompensado a cem por um, e quem quiser possuir isto deve negar a si mesmo e a todas as coisas; e quem deseja me servir que me siga e não busque mais suas coisas”.

Mas agora alguém poderia dizer:

“Mas meu caro senhor, você quer inverter a ordem natural das coisas e ir contra sua natureza! É a natureza da alma absorver as coisas através dos sentidos e formar imagens. Para que contrariar esta ordem natural das coisas?”

Não! Mas sabe lá você que nobreza Deus conferiu à natureza humana, ainda totalmente desconhecida e não revelada? Pois quem se atreveu a tentar descrever a nobreza da alma não foi mais além do que os levaram suas inteligências naturais; e eles não sonharam jamais entrar em seu próprio chão, de tal modo que de fato eles nada conhecem.

Foi o que o profeta disse:

“Em silêncio eu me sentarei, e ouvirei o que Deus me dirá”. (Sl. 84.9).

Por ser de tal forma secreta, esta palavra vem na noite e na escuridão.

São João disse:

“A luz brilhou na escuridão e tomou seu lugar de direito, e tantos quantos a receberam se tornaram com toda autoridade filhos de Deus; a estes lhes foi dado o poder de se tornarem filhos de Deus”. (João 1:5,11-12).

Tomem bem nota de como se usa esta palavra secreta e esta escuridão. O filho do Pai Celeste não nasce isolado nesta escuridão, que é Sua característica: você também pode nascer como filho do mesmo Pai celestial e a você também ele encherá de força. Vejam como é enorme a utilização disto! A despeito de todo o conhecimento dos mestres, obtidos por seus intelectos e compreensões, ou o que eles chegarão a obter até o dia do Juízo Final, eles não tiveram qualquer ideia que fosse deste conhecimento e deste chão. Apesar de poderem rotulá-lo de loucura—um não-saber, há contudo mais seiva aqui do que em todo saber e compreensão fora disto, pois é este não-saber que lhe atrai para fora de todas as coisas restritas, assim como de você mesmo, inclusive.

Foi o que Cristo disse:

“Quem não negar a si mesmo, e não deixar pai e mãe, e deles não se desapegar completamente, de mim não é digno”. (Mat. 10:37)

Como se estivesse dizendo: Quem não se desligar de todas as criaturas externas não pode nem ser concebido neste nascimento divino nem nascer. Mas, subtraindo-se de você mesmo, e de tudo que for externo, este desapego lhe proporcionará isto. E a bem dizer, e disto estou seguro, quem estiver estabelecido nisto não pode jamais se desligar de Deus. Ele não pode de forma alguma cometer um pecado mortal. A ele seria preferível sofrer a morte mais horrenda, como os santos fizeram antes dele, do que perpetrar o menor dos pecados mortais. Além disto, eu afirmo que tais pessoas não por vontade própria cometer nem que seja apenas um pecado venial, eles mesmos ou em relação a outros, se o puderem evitar. Tão profundamente estão eles estabelecidos e atraídos a isto, eles não podem se voltar a qualquer outro caminho que seja: para este caminho estão voltadas todas as suas forças, sentidos e energia.

Possa Deus, que nasceu de novo como homem, assistir-nos neste nascimento, ajudando-nos eternamente, a nós, fracos homens, a nascermos de novo Nele como Deus.

Amém.