Certas exposições de Ibn Arabi podem parecer incoerentes não somente pela razão que nós acabamos de indicar, mas também porque a inspiração intelectual, ecoando ao mesmo tempo inumeráveis verdades solidárias umas das outras, exerce uma espécie de pressão sobre o recipiente muito estreito que é o pensar discursivo e tende a nele quebrar a continuidade “horizontal”; por uma razão análoga, as epístolas de um São Paulo podem parecer incoerentes. A plenitude intrínseca da sinopse contemplativa, sem medida comum com o raciocínio, produzirá fórmulas sobrecarregadas de significações, enquanto impede de uma certa maneira a construção homogênea e definitiva de um sistema, que seria em todo caso muito limitado para “esgotar” um aspecto da Verdade divina.. Quanto mais as exposições de Ibn Arabi são essenciais, mais elas são descontínuas; o caráter profundamente nômade do espírito árabe, seu poder menos plástico que incisivo, aí parecem ser postos em benefício pela inspiração.
Nós não retornaremos aqui sobre a terminologia da qual este mestre faz uso, pois dela falamos em nosso estudo sobre o Sufismo (INTRODUÇÃO ÀS DOUTRINAS ESOTÉRICAS DO ISLAM, 1955), que se pode considerar a este respeito como uma introdução ao Fuçûç al-Hikam. Podemos também nos referir a nossa tradução parcial de al-Insân al-kâmil de Jili (Do homem universal, 1953), que se apresenta como uma exposição, mais contemplativa e mais explícita, de certas ideias fundamentais contidas nos Fuçûç al-Hikam. Aliás existe entra a linguagem de Ibn Arabi e aquela de Jili a diferença que caracteriza geralmente a distância mental entre o século XII e o XIV: aquilo que o primeiro exprime implicitamente, o segundo o precisa de uma maneira mais articulada, ao custo de uma certa delimitação das realidades.