Quando terminei olhei para ele e vi que Laponder estava branco como cera. Lágrimas corriam pelo seu rosto.
Levantei-me rapidamente fingindo não ter notado e comecei a andar de um lado para outro da cela, esperando que se acalmasse.
A seguir sentei-me à sua frente e empreguei toda minha eloquência para convencê-lo de que era absolutamente urgente comunicar ao juiz que seu estado mental era patológico.
— Se ao menos o senhor não tivesse admitido o crime! suspirei.
— Não podia agir de forma diferente. Afinal, eles fizeram um apelo à minha consciência! — disse ele ingenuamente.
— O senhor acha que uma mentira é pior do que um estupro e assassinato? — perguntei desnorteado.
— Talvez não, na maioria dos casos, mas na minha situação pessoal. . . Veja o senhor, quando o juiz me perguntou se eu admitia o crime, tive força suficiente para dizer a verdade. Afinal, dependia de mim admitir ou negar. Quando cometi o crime. . . peço ao senhor não me pedir para relatar os pormenores, foram horríveis e não gostaria de me lembrar deles. . . quando cometi o crime, eu não tinha alternativa. Apesar de estar agindo com plena consciência, não tinha alternativa. Algo em mim, cuja existência eu desconhecia, despertou e se demonstrou mais forte do que eu. O senhor acha que se eu tivesse uma alternativa, eu teria matado? Nunca matei, nem sequer um pequeno animal. . . e agora mesmo, eu não seria capaz de matar.
Suponha que haja uma lei que obrigue a matar, e que aquele que não mata seja condenado a morrer — como acontece nas guerras. Então agora eu seria condenado a morrer. Não haveria alternativa para mim. Não poderia matar. Quando cometi o crime, a situação estava exatamente invertida.
— Pois, como o senhor tinha a impressão de ser uma outra pessoa, temos uma razão a mais para fazer o que for possível para evitar a sentença do juiz! — gritei.
Laponder fez um gesto defensivo: — O senhor está enganado. Os juízes estão certos, do ponto de vista deles. Poderiam eles soltar um homem de meu tipo? Para permitir que amanhã, ou depois de amanhã, acontecesse possivelmente outro caso igual?
— Poderiam mandar o senhor para uma instituição psiquiátrica. Pretendo dizer-lhes isso mesmo!
— O senhor estaria certo, se eu estivesse louco — respondeu Laponder com o rosto impassível. — Mas eu não sou louco. Sou algo completamente diferente — algo que, sem dúvida, se parece muito com um louco, mas que é exatamente o contrário. Por favor, escute. Ouça-me, por favor. Acho que o senhor não terá dificuldade em compreender. O que o senhor me disse a respeito do fantasma sem cabeça — que naturalmente é um símbolo, cujo significado é bastante fácil de interpretar, se o senhor pensar um pouco — tudo isso já aconteceu também comigo, da mesma maneira. Mas eu apanhei os grãos.
Por isso, tomei o "caminho da morte". Não posso pensar em nada mais sagrado do que me deixar levar pelo Espírito que está em mim: cegamente, em toda confiança, para qualquer caminho que queira me levar: para o patíbulo ou para o trono, para a riqueza ou para miséria. Quando tive que escolher, sempre o fiz sem hesitações.
Foi essa a razão pela qual não menti quando tive a possibilidade de escolher.
O senhor conhece as palavras do profeta Miqueias? Foi-te dito, oh! homem, o que é bom e o que o Senhor requer de ti.
Se tivesse mentido, teria criado a causa, pois me foi dada a possibilidade da escolha — enquanto não criei nenhuma causa quando cometi o crime; tratava-se simplesmente do efeito de uma causa que de há muito tempo se encontrava latente em mim, e sobre a qual eu não tinha nenhum controle.
Assim, minhas mãos estão limpas.
Foi o Espírito em mim que me levou a ser assassino, e dessa forma cumpriu uma execução; e como os homens me colocarão na forca, meu destino será desassociado do deles: conseguirei a liberdade.