387 A partir daí pede-se entender o que se passou com a doutrina sobre a Divindade. Também neste caso ocorreu uma mudança, embora não pela abolição do que foi revelado antes e sim por acesso progressivo a uma perfeição maior. A coisa se deu do seguinte modo. O Antigo Testamento manifestou claramente o Pai e obscuramente o Filho. O Novo manifestou o Filho e obscuramente indicou a divindade do Espírito. Hoje o Espírito habita entre nós e se dá mais claramente a conhecer.
Porque teria sido inseguro pregar abertamente o Filho antes de ser reconhecida a divindade do Pai; ou, antes de ser reconhecida a divindade do Filho, impor-se, por assim dizer, a do Espírito Santo. Poder-se-ia temer que, cerno as pessoas sobrecarregadas de alimentos ou postas de súbito ante a luz do sol, fôssemos prejudicados por aquilo que ainda não pedíamos suportar. Era muito melhor que, por adições parciais e, como diz Davi, por ascensões de glória em glória, brilhasse progressivamente o esplendor da Trindade.
Por isto, penso eu, o Espírito se comunicou aos discípulos de maneira singular e adaptando-se à capacidade de cada um; no início do Evangelho aperfeiçoou-lhes as forças, depois da Paixão de Cristo foi-lhes insuflado e só após a Ascensão lhes apareceu nas línguas de fogo. Pelo próprio Cristo foi sendo revelado aos poucos, conforme se vê, prestando atenção aos textos. "Eu rogarei ao Pai", disse ele, "e ele vos enviará outro Paráclito, o Espírito da verdade" (Jo 14,16s). Por tais palavras indicava não estar referindo-se a uma Potência diversa ou adversária da divina. Adiante dirá ainda que o Espírito seria enviado em seu nome (Jo 14,26) e então, omitindo a palavra "regarei", conservava a referente ao envio. Depois dirá: "eu o enviarei" (Jo 16,7), para mostrar sua autoridade, e enfim dirá que o Espírito "virá" (Jo 16,8), indicando o poder do mesmo Espírito.
Vede come a luz foi chegando aos poucos, e a ordem pela qual Deus se fez revelar a nós. Essa ordem também temos de respeitar por nossa vez, não enunciando tudo sem certo prazo, nem tampouco emitindo a revelação de toda a verdade. Porque uma coisa seria imprudente e a outra ímpia. Uma correria o perigo de ferir os de fora, a outra o de afastar nossos próprios irmãos.
Aquilo então que talvez já aflorou à mente alheia mas julgo fruto de meu pensamento quero agora formular. O Salvador conhecia certas coisas que ele achava que os discípulos ainda não podiam suportar, embora já estivessem repletos de copiosa doutrina. Por isto as ocultava. Mas acrescentava que o Espírito, quando viesse, lhes ensinaria tudo (Jo 16,12; 14,26). Penso pois que entre tais coisas estava a própria divindade do Espírito Santo, a ser declarada mais abertamente quando, após a ressurreição do Salvador, o conhecimento (gnosis) de sua própria divindade estivesse corroborado por tal milagre insigne. Que há de maior que isso, para ser prometido pelo Salvador, para ser ensinado pele Espírito? Nada mais digno da grandeza de Deus do que tal objeto da divina promessa e do divino ensinamento!