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Santos Gênese do símbolo

A adaptação pode ser apreciada como:
a) estado — como a concebem estaticamente certas doutrinas;

b) processo — sentido dialético, que revela as transformações do organismo em função do meio, provocando aumento de trocas entre o meio e o organismo, no intuito de favorecer a conservação deste.

Como processo, temos:
a) acomodação de esquemas: o organismo põe seus esquemas dirigidos ao meio exterior, acomoda-se a ele;

b) assimilação : incorpora o que lhe é afim e o de que necessita para a sua economia, o semelhante, o que pode e convém assemelhar.

Dessa ação múltipla, surge a atividade dos esquemas que, por sua vez, ante os diferentes, assimila-os em esquemas diferentes ou constrói, com esses, novos esquemas, para outras acomodações e assimilações.

Psicologicamente, pela assimilação, são incorporados em formas de esquemas fático-noéticos, por abstração dos dados da experiência. Não há incorporação real-fática, mas apenas esquemático-abstrata (intentionaliter), sempre proporcional ao cognoscente, na relação entre este e o objeto. O cognoscente conhece o que é cognoscível pelo cognoscente (modalidade do adágio escolástico de que "a ação segue-se ao agente", que é um postulado indiscutível).

A assimilação realiza uma incorporação segundo os esquemas, portanto nunca é pura. nem total, mas apenas esquemática. Consequentemente, não há um conhecimento totaliter, mas do totum da coisa, uma estrutura noética que se refere à coisa como um todo, mas como ela é em si, tomada totalmente, não é assimilada. Eis a razão por que o conhecimento não pode dar a captação da coisa exaustivamente (exhaustive), por mais que nos acomodemos a ela.

Aumentamos o conhecimento pela acomodação de esquemas técnicos que nos traduzem suas captações em esquemas assimiláveis a nós. (exemplos dos aparelhos de rádio que captam vibrações eletromagnéticas e nós traduzem em vibrações moleculares, para as quais temos esquemas somáticos. Não conhecemos diretamente, em si, as vibrações eletromagnéticas, mas seus símbolos).

A adaptação exige assim um equilíbrio (dinâmico, dialético) e estável entre acomodação e assimilação.

A adaptação implica a organização, pois é o funcionamento exteriorizado da organização, tanto no plano biológico como no psíquico. Mas, neste, a adaptação termina por formar uma estrutura, interdependente da organização biológica.

Esse desdobramento resultante do funcionamento da adaptação gerou a interiorização do homem, e a emergência do “espírito” que constitui uma nova ordem (relação entre o todo e as suas partes, e dessas entre si).

Essa ordem é criada pelas implicações entre esquemas, implicações mútuas e de significações solidárias, pois os elementos esquemáticos podem pertencer a várias tensões, quer sejam eles fático-noéticos, quer eidético-noéticos.

Resulta daí uma coordenação dos esquemas entre si, e entre esses e as coisas, funcionamento duplo, que gera:
a) o funcionamento do pensar pela adaptação dos esquemas às coisas;

b) estruturação das coisas pelo organizar-se do pensar, dos esquemas generalizados.

Dos fatos, capta a nossa organização psíquica um esquema fático da haecceitas, da eceidade do objeto: O esquema fático deste objeto, aqui e agora, é condicionado pelos esquemas acomodados. "É um livro vermelho, que está sobre a mesa". O que a intuição sensível capta é um esquema fático do livro, que está aqui e agora, mas este esquema está condicionado pelos esquemas acomodados da organização psíquica. A imagem, que temos dele, é, assim, o produto de uma emergência da organização psíquica e da predisponência do objeto, das suas notas, que foram por aquela assimilados, mas intencionalmente (intentionaliter).

A comparação, que dele fazemos com os esquemas generalizados, que são os noético-eidéticos, permite saber, através da sua acomodação e da assimilação, que dele é um livro, que é vermelho, etc.

Mas esse esquema fático, que é imagem, é estruturado numa ordem intuitiva, para a qual já há a cooperação dos esquemas generalizados, isto é, dos abstratos noético-eidéticos, que permitem ordená-lo no pensamento.

E como toda essa atividade é contemporânea na nossa intuição, no estado em que nos encontramos, neste lanço do caminho, não há uma intuição pura do fato, pois o decoramos, realizamos decorações, dando-lhe nexos, formando-o dentro de uma estrutura esquemática, como já o havia exposto Kant, quando se referia às formas puras (a priori), que atuam na estruturação da nossa experiência.

Portanto, a nossa experiência está condicionada à esquemática que possuamos. A experiência infantil é diferente de a de um homem adulto, todos o sabem. Neste caso, torna-se fácil compreender o papel da "cosmovisão" na experiência, porque, segundo a esquemática de um indivíduo, e aquela que tem em comum com um grupo social, ou um período histórico, ou todo um ciclo cultural, permitirá que a estruturação, formal portanto, da experiência, seja diferente, heterogênea de a de outros seres. Encontramos, assim, nessa explanação, as positividades afirmadas pelos idealistas, na aceitação das ideologias e das cosmovisões, sem que tais positividades excluam outras, que com aquelas cooperam na estruturação do conhecimento, como as propostas pelos realistas, pelos empiristas, pelos pragmatistas, etc.