ABHINAVAGUPTA. La lumière sur les tantras: chapitres 1 à 5 du Tantrāloka. Lilian Silburn; André Padoux. Paris: De Boccard, 1998.
Tantraloka (Capítulo 1, vv. 52-68)
A CONSCIÊNCIA
52. A realidade suprema (param tattvam) do cognoscível é Siva, pura luz consciente (prakasa), pois aquilo que não é luz consciente não pode tornar-se luminoso nem possuir existência real.
53. Mesmo a não existência das coisas (avastuta) possui, ela também, como domínio único (ekagocara), o assombro: “Não há aqui o pote.” A noção “isto não existe” difere, com efeito, do estado de inconsciência próprio de um objeto inanimado, como um muro.
54. Aquilo que se denomina luz resplandece em todo lugar. Uma vez que escapa a toda negação (anapahnavaniyatvat), que poderiam, em relação a ela, as construções lógicas (manakalpana)?
55. Esses próprios critérios lógicos, que dão vida ao que existe, são animados, em última instância, pelo Senhor supremo e somente por Ele.
56. Mesmo aquele que se compraz em tudo negar deve reconhecer que a negação do conhecimento, do conhecedor e do cognoscível somente é possível na medida em que estes se manifestam para ele, sujeito consciente.
57. Sendo esta realidade da consciência primordial tanto na negação quanto na afirmação, que papel poderiam desempenhar os critérios lógicos?
58–61a. O Kamikagama declara assim que esta realidade, o sujeito supremo, não depende de noções lógicas (hetuvida): “O Deus dos deuses não depende de outra coisa; ao contrário, é o outro — neste caso, os critérios lógicos, pramana — que depende dele. Por isso Ele é autônomo, independente, Senhor universal, isento de sucessão temporal, de espaço, de modalidade, pois de Ele tudo depende. Consequentemente, Ele é onipresente, eterno, omniforme, benéfico (Siva).”
61b–62. Onipresente, Ele enche todo o universo; eterno, não possui começo nem fim; omniforme, manifesta-se em todas as coisas conscientes e inconscientes. É por isso que Agamas tais como o Dilottara declaram que Ele reveste múltiplos aspectos:
63. Siva é dito sêxtuplo, Ele que tem a natureza dos mundos (bhuvana), dos corpos (vigraha), da luz (jyotis), do éter (kha), do som (sabda) e do mantra associado a bindu, nada, etc.
64. Seja qual for uma dessas modalidades (bhava) em que o yogin se absorve, e que ele atinja, graças ao conhecimento (vijnana) de uma dentre elas, como o éter, o som, etc., obterá a libertação suprema; não há dúvida quanto a isso.
65. Estes não são senão aspectos secundários do Deus cuja natureza é universal; quando todas as limitações que o concernem são eliminadas, alcança-se o estado que não possui limite (anavacchinnata).
66. Afirma-se, com efeito, no Kamikagama: “O Deus reveste todas as formas (akrti) e não possui nenhuma, assim como acontece com a água ou com o espelho. Dele, toda coisa, móvel ou imóvel, é inteiramente penetrada (vyapta).”
67–68. Nele, os atributos de onipresença, de onisciência etc. não são distintos entre si, pois Ele não possui senão um único atributo que a todos contém. Tem-se, portanto, razão em admitir que Ele está indissoluvelmente unido à energia de liberdade. Quanto às suas múltiplas outras energias, sua existência depende unicamente de estarem unidas a esta única energia.