“Às vezes me pergunto”, disse o coelho, “por que pareces preferir a lua ao sol.” “Hábito profissional”, respondeu a coruja. “Quando brilho diretamente à luz do dia, outros fazem o que precisa ser feito; quando brilho indiretamente ao luar, ocupo-me das coisas eu mesmo.” “Das coisas — como tu mesmo?”, sugeriu o coelho, dando um salto travesso no ar. “Todas as ‘coisas’ são manifestações do que-eu-sou”, disse a coruja severamente, “estendidas no espaço-tempo conceitual, na mente integral.” “De fato”, comentou o coelho, mordiscando um trevo suculento, “deve ser ótimo para elas!” “Fico contente que penses assim”, respondeu a coruja, “mas, na relatividade, quando minha mente está dividida, deve haver também sofrimento aparente. Se o positivo e o negativo fossem iguais, anular-se-iam mutuamente, e a equanimidade, que é a reintegração, sobreviria.”
“Então é por isso que temos de sofrer?”, perguntou o coelho, “por isso existe a infelicidade?” “Nem felicidade nem infelicidade existem”, respondeu a coruja; “nenhuma contraparte interdependente existe — são estimativas conceituais que se anulam mutuamente em negação recíproca.”
“Então, o que são elas?”, perguntou o coelho. “O que és tu?”, replicou a coruja. “O que é toda percepção sensorial, todo conhecimento, julgamento, discriminação?” “Aquilo que faz tudo isso, suponho”, disse o coelho. “Eu mesmo, por exemplo.” “Como tal, és apenas o que é percebido”, piou a coruja, “isto é, apenas um objeto na mente.” “Então o que percebe o que é percebido?”, perguntou o coelho. “Eu”, respondeu a coruja; “Eu, eternamente Eu.” “E a quê ou a quem se aplica esse ‘Eu’?”, perguntou o coelho, contraindo o nariz de modo desconfiado. “A quê ou a quem?”, repetiu a coruja. “Queres que te diga?” “Sim, por favor!”, disse o coelho. “Muito bem”, disse a coruja, “ouve, e escutarás.” E — erguendo as asas e estendendo o pescoço — a floresta ecoou e re-ecoou o seu brado retumbante: “Pa-a-ra-a qu-e-e-e, pa-a-ra-a qu-e-e-e, pa-a-ra qu-e-e-e-m!”