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Agapit de Valaam

Agapit de Valaam

Da oração interior do coração

No Evangelho, é dito: "Quem quer seguir-me deve renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz." Se aplicadas à oração, essas palavras significam o seguinte: aquele que quer realizar a grandiosa obra da oração sem se desviar, deve antes de tudo renunciar à sua própria vontade e aos seus raciocínios e, em seguida, carregar sua cruz, ou seja, fazer um esforço da alma e do corpo que é inseparável dessa obra.

Tendo-se confiado sem restrições à solicitude da Providência, deve-se suportar esse trabalho com humildade e simplicidade, em vista do verdadeiro bem que Deus, a seu tempo, concede à oração assídua, quando por sua graça se apodera de nosso espírito e o fixa na imobilidade, com a memória de Deus no coração. Essa imobilidade do espírito, tornada quase natural e constante, é chamada pelos pais de "união do espírito com o coração". Nessa disposição, o espírito não tem mais o desejo de estar fora do coração. Pelo contrário, se, por causa das circunstâncias ou de conversas frequentes, o espírito for retido fora da atenção do coração, ele terá um desejo irresistível e uma sede espiritual de voltar para dentro de si, para se ocupar novamente com um zelo renovado da edificação de sua vida interior.

Quando há uma tal disposição íntima, tudo passa da cabeça do homem para o interior do coração, e então é como se uma certa luz do espírito iluminasse todo o seu interior. O que quer que se faça, diga ou pense, tudo é feito com plena consciência e atenção. Esse homem pode então ver claramente quais pensamentos, intenções ou desejos lhe vêm. De bom grado, ele constrange o espírito, o coração e a vontade a obedecer a Cristo, a cumprir todo mandamento de Deus ou de seus pais. Então ele corrige todo desvio por um sentimento de sincera penitência e contrição, lamentando sua falta, prostrando-se diante de Deus com dor e humildade, e pedindo-lhe com confiança a ajuda do alto. E Deus, ao considerar essa humildade, não o priva de sua graça.


Sobre o tempo da oração

Saibam que a oração do espírito-coração chega rapidamente ao coração de alguns, e lentamente ao de outros. Conheço três pessoas: para uma, ela veio assim que lhe foi falada, no mesmo instante; para outra, veio depois de seis meses; para a terceira, depois de dez meses; para um grande starets, depois de dois anos. Por que é assim, só Deus o sabe.

Saibam ainda que a oração antes da aniquilação das paixões é uma, e depois da purificação do coração é outra. A primeira é uma ajuda durante essa purificação; a segunda é uma certa garantia da bem-aventurança futura. Façam assim: quando sentirem que o espírito entra no coração e que a oração exerce sua ação, deem plena liberdade a essa oração, afastando tudo o que não a favorece, e enquanto ela permanecer, não façam outra coisa. Quando não sentirem uma atração semelhante, orem com uma oração vocal, fazendo prostrações e se esforçando de todas as maneiras para manter a atenção no coração, diante da face do Senhor. O coração se aquecerá com essa forma de orar.

Sejam calmos de espírito e vigilantes, sobretudo durante a oração do espírito no coração. Ninguém é tão agradável a Deus como aquele que se dedica a essa oração com aplicação. Quando não encontrarem boas condições para os exercícios de oração ou quando não tiverem tempo para rezar, mantenham de toda maneira e em todas as ocupações a disposição para a oração, ou seja, mantenham Deus na memória e façam diferentes esforços para vê-lo diante de vós pelos olhos do espírito. Façam-no com temor e amor, e quando sentirem que Ele está diante de vós, em todas as vossas ocupações, confiem-se com uma piedosa docilidade ao seu poder universal, sua onipotência, sua visão de tudo, sua onisciência, de modo que em cada uma de vossas ações, palavras e pensamentos, vos lembreis de Deus e de sua santa vontade. Eis brevemente em que consiste o espírito de oração.


Sobre a vontade e a justificação

Aquele que ama a oração deve absolutamente ter esse espírito. Por uma contínua atenção do coração, deve, tanto quanto possível, ajustar sua forma de compreender as coisas à de Deus. Deve submeter-se a Ele com piedade e docilidade. Da mesma forma, deve conformar suas próprias vontades e desejos à vontade de Deus. É preciso entregar-se inteiramente à sabedoria e ao querer de Deus. É preciso opor-se de toda maneira ao espírito de insubmissão, aos desejos, espontâneos ou não, de agir de forma descuidada. Esse espírito sussurra: "Isto ultrapassa minhas forças; para isso o tempo me falta; o momento não chegou para empreender este assunto; é preciso esperar um pouco; os deveres impostos pela obediência são um obstáculo" e muitas coisas semelhantes. Aquele que escuta essas sugestões jamais terá a esperança de rezar.

À independência de espírito alia-se a tendência a se justificar; ela começa a fazer pressão quando, levados por nossa independência e nossos movimentos arbitrários, fazemos algo que a consciência nos reprova. Então o espírito de autojustificação emprega todos os expedientes possíveis para enganar a consciência e apresentar como justo o que não o é. Que Deus vos preserve dessas más tendências!


Formas da Oração de Jesus

Em sua forma abreviada, a oração é pronunciada assim: "Senhor, tende piedade!" ou "Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim, pecador!". Na forma completa, ela é enunciada: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador!".

No início, ela é geralmente recitada com esforço, a contragosto. Na medida em que se pratica e se faz esforços - se, de fato, se está decidido, por meio dessa oração e com a ajuda da graça, a enfraquecer as próprias paixões -, estas, sendo atenuadas, a oração se tornará de tempos em tempos mais fácil, mais agradável e mais desejável, graças aos exercícios frequentes.

Ao fazer a oração vocal, deve-se esforçar de todas as maneiras para manter a inteligência fixa nas palavras da oração, pronunciar sem pressa, e concentrar toda a atenção nos pensamentos expressos pelas palavras. Quando o espírito for arrastado por pensamentos estranhos, é preciso trazê-lo de volta às palavras da oração, sem se perturbar.

A ausência de distrações no espírito não vem de imediato, nem quando a desejamos. Ela só vem quando nos humilhamos e Deus nos abençoa.

Esse dom de Deus não é determinado nem pelo tempo nem pela quantidade de orações, mas pela humildade do coração, pela graça de Cristo e por uma contínua autoconstricção.

Da oração vocal atenta, faz-se a passagem para a oração do espírito, que é assim chamada porque nos elevamos em direção a Deus ou vemos a Deus unicamente pelo espírito.



Versão francesa: Les Voies