O tempo é apenas uma ilusão, uma aparente sucessão de momentos no decorrer de uma viagem que os seres fazem no eterno presente. Em certos instantes da espiral da vida, encontramo-nos muito próximos de outros instantes passados ou futuros; depois, afastamo-nos novamente deles. O nosso destino está previsto, é previsível? Sentimo-lo vagamente e, contudo, se invertemos a marcha do tempo, se seguimos a nossa evolução da velhice até à infância, muitas coisas se esclarecem, se explicam, tornam-se lógicas, coordenam-se. O acaso, o imprevisto apagam-se. A infância é o resultado da idade madura, o desfecho do futuro. Não é uma predestinação, é simplesmente a realização de uma realidade fundamental da natureza do mundo. O tempo não é senão uma ilusão. Todos os momentos da vida coexistem no substrato divino e maravilhoso da eternidade.
Cada um vive várias vidas paralelas. Pode-se, portanto, fazer de todo homem vários retratos descontínuos e contraditórios; não se deve procurar amalgamá-los. O destino espiritual, o papel que cada um desempenha na comédia do mundo, é independente da vida emotiva ou sensual, assim como da vida intelectual. O erro dos moralistas reside em querer ligá-los. Muitas vezes, lutamos contra o nosso destino que nos inquieta ou nos parece um fardo demasiado pesado. Cumpre saber, no momento oportuno, estar disponível e submeter-se às forças misteriosas que nos habitam e nos inspiram atos aparentemente absurdos ou contrários às leis humanas que são a nossa razão de ser, o cumprimento do nosso humilde papel num mundo cujo propósito e segredo ignoramos.
O nosso destino, o papel que temos a desempenhar no mundo humano, na história da espécie, justifica os dons que recebemos e pode unicamente explicar a estranheza dos caminhos que nos conduziram ao que nos tornamos, realizamos. Certas formas de ser, de viver, de pensar regressam periodicamente quando nos encontramos num eixo ou outro da espiral da vida e o momento é oportuno para realizar um aspeto de nós próprios ou da nossa missão. A astrologia pode, por vezes, explicar os seus dados. Reencontramos a cada noite o mundo dos sonhos que continua de uma noite para a outra e a cada dia o ritmo das nossas atividades. Um não possui qualquer relação com o outro. O mesmo sucede com os nossos diversos planos de vida. Jamais procurei tornar-me algo ou alguém. Entreguei-me totalmente aos presentes mais diversos, às atividades mais heteróclitas. Contudo, parece-me hoje que o destino me esperava em cada esquina, que ele se serviu de mim e me levou a desempenhar um certo papel sem que eu jamais o tenha querido ou escolhido. A diversidade mesma dos meus interesses, a ausência completa de ambição e de laços, de procura de uma carreira, de um lugar convencional na sociedade eram as condições mesmas que deviam permitir-me ser uma espécie de ligação entre duas civilizações. A minha natureza tornava-me apto para este papel; seria um acaso ou a previdência dos deuses que fazem de nós o que lhes apraz. A liberdade para cada um ser o que é, o direito de viver e de pensar em oposição às convenções, está, segundo os hindus, na base de todo progresso humano individual ou coletivo.
Não é por vaidade que se indicam ao longo destas memórias os êxitos, os elogios ou os incentivos que se receberam nos diversos domínios de atividade em que se tentou e nos quais se poderia ter feito carreira. Um pouco como sucede com os yogis que se descobrem pouco a pouco poderes dos quais não devem servir-se se quiserem prosseguir a sua busca, a minha adaptabilidade parece-me, após a ocorrência, ter sido como uma sequência de tentações e, ao mesmo tempo, um elemento que me permitia inserir-me num mundo diferente, de alcançar o essencial partindo de atividades periféricas, onde uma abordagem direta teria encontrado demasiados obstáculos. O mesmo aconteceu com o meu regresso ao Ocidente. Os deuses ofereciam-me possibilidades múltiplas, brincando comigo, para me permitir realizar um destino pelo qual nunca me senti responsável.
Pouco a pouco, a morte retira aqueles que conosco e perto de nós viveram os mesmos acontecimentos, souberam as mesmas coisas, partilharam as mesmas emoções. Os lugares tão queridos já não existem. Todos estes seres, estas paixões, estes ódios, estas aventuras só subsistem numa única memória. Fora dela, jamais existiram. Regressam ao magma do não-ser, do nada. Esta casa de Valognes, hoje destruída, onde Tate morreu, ninguém a viu a não ser eu com a sua grande escadaria de pedra em espiral, as suas janelas com caixilhos, toda a história de uma família há cinco séculos. Deve-se deixá-la escorregar para o esquecimento, ou conceder-lhe ao menos um túmulo, uma placa, essa pouca matéria à qual os fantasmas se prendem tão asperamente à vida?
Não se escrevem as memórias para os outros, nem para si próprio, mas para dar vida a seres, a coisas que, de outra forma, jamais teriam existido, não teriam vivido, jamais teriam saído do limbo, e também para aqueles cuja imagem foi falsificada, traída, dos quais se fez fantoches esvaziados da sua realidade humana, das suas paixões. Falar-se-á deles para que tenham nascido, para que tenham vivido, para que vivam. Levanta-se por um instante o véu do tempo. Dá-se a eles e a si próprio a ilusão de ter vivido.
Não se irá verificar os fatos e as datas que a memória confunde. Mas apenas desenhar retratos para que as sombras se agarrem a eles e retomem um humilde lugar no mundo ilusório e abençoado dos vivos.
Nunca se tomaram notas. Não se possui nenhum documento, a não ser algumas cartas. As memórias que se evocam surgem à sua vontade nos limites da memória onde jaziam adormecidas por vezes há muito tempo.
DESTAQUES