Oficialmente um agnóstico”, Aldous Huxley declarou em 1926, “mas (como modestamente afirmava) quando em circunstâncias emocionais identificadas com certas paisagens, trabalhos de arte,... com certas pessoas, eu sei que ‘Deus está em Seu céu e tudo vai bem com o mundo’.”
O trecho acima, extraído de um ensaio escrito quando o autor tinha trinta anos de idade, mostra claramente seus sentimentos ambivalentes sobre religião e Deus. O intuitivo versus o racional. Aparentemente o “germe místico” de Huxley, como William James chamava sua própria voz interior, ficou adormecido por muitos anos.
Em seus romances e ensaios dos anos 20, Huxley era sarcasticamente cético, descrente da religião e do recolhimento em que viviam fiéis devotos. Seus deuses eram “vida, amor e sexo”. Desdenhava a religião que negasse essa trilogia. Abominava as colocações de Swift, Pascal, Baudelaire e mesmo São Francisco de Assis! De acordo com Huxley, eles eram pessoas que “odiavam a vida”.
Os primeiros mentores de Huxley foram os apaixonados “amantes da vida” — Robert Burns, D. H. Lawrence e William Blake. Usando suas palavras, ele era um “adorador da vida”. O seu Deus era o Deus da Vida. Ele acreditava na diversidade do ser humano; todos os desejos satisfeitos, mas temperados pela razão. A moderação pregada por Aristóteles. A filosofia da justa moderação era, como Huxley escreveu, uma questão do “equilíbrio dos excessos balanceados”. Como os gregos, ele defendia o culto de muitos deuses — exaltando todos os aspectos da vida humana. Qualquer um poderia viver com essa “exaltação dos excessos”, como ele dizia, usando discernimento, equilíbrio e simplesmente boas maneiras; um conceito de difícil alcance para pessoas comuns, mas não para pessoas com a nobreza intelectual e moral do próprio Huxley.
Nos vinte anos seguintes, sua atitude hedonística começou a declinar, e seu “germe místico”, a amadurecer. 0 pluralismo cedeu lugar ao monismo, como se constata em A Filosofia Perene (1944), uma documentação da doutrina comum a todas as principais religiões: a de que a verdade é universal, e Deus, Uno.
Nos anos 40, Aldous Huxley foi rotulado como “místico”. Seria descrição exata se compreendêssemos o misticismo como definido por William Blake, “O ser em uníssono com Deus”, e pela descrição de Plotino do êxtase espiritual, “O voo do solitário para o Solitário”.
O misticismo é geralmente definido, pelos maus poetas, como tudo que seja misterioso e, pelos sábios sofisticados, como os “homens igualando-se a Deus”. A definição literal da palavra é “a íntima união da alma com Deus mediante contemplação e amor”.
A afirmação de que Aldous Huxley acreditava abertamente em Deus poderia espantar a atual geração de jovens encantados com o livro Admirável Mundo Novo (1932), que continua sendo a leitura favorita dos universitários intransigentemente agnósticos que nunca se preocuparam em ler nenhum outro romance do autor.
Aldous Huxley conhecia intuitivamente a realidade de Deus — ou “The Ultimate Reality”, ou “The Divine Ground of our Being”, ou “The Force”, de George Lucas, ou “Higher Power”, de Bill Wilson, ou “Divine Spark”, de Emerson — como maravilhosamente expresso nestes ensaios.
Impressos originalmente na revista bimensal Vedanta and the West, de 1941 a 1960, os ensaios são aqui publicados pela primeira vez em forma de livro. Vedanta and the West, agora extinta, foi editada pela Sociedade Vedanta do sul da Califórnia, de 1940 a 1970, com modesta circulação para menos de mil assinantes. Entre seus famosos editores estavam Aldous Huxley, Christopher Isherwood, John Van Druten, Gerald Heard, e o Swami Prabhavananda, que dirigia a organização. Entre os ilustres colaboradores da revista estavam personalidades como Nehru, da índia, o rabino Asher Block, U Thant, Somerset Maugham, Arnold Toynbee, Vincent Sheean, Tagore, Alan Watts, e o Dr. Joseph Kaplan, diretor do departamento de física da UCLA.
Nos vinte anos em que o autor foi associado ao Vedanta Center, contribuiu com mais de quarenta artigos para a revista. Escolhemos os mais representativos desse conjunto. Esses ensaios são novos para o público leitor em geral. Durante trinta anos eles estiveram perdidos nos arquivos da Sociedade Vedanta. Alguns deles eventualmente tornaram-se trechos dos romances que Huxley escrevia então, o mais importante sendo Time Must Have a Stop (1945), trabalho favorito do próprio Huxley.
Huxley tornou-se devoto de Prabhavananda, um monge da bem conceituada ordem de Ramakrishna da índia, e foi por ele iniciado. Mas houve um estremecimento entre o guru e o discípulo quando o autor começou a experimentar mescalina e LSD como estimulantes para a iluminação. Prabhavananda opunha-se firmemente ao uso de drogas e, ainda mais, ao uso de drogas como atalho para aguçar a percepção espiritual. O guru de Huxley proclamava que as drogas impediam o crescimento espiritual — se o indivíduo se torna tolo quando entra no estado visionário induzido, permanece tolo quando retorna à consciência normal. Ao passo que a verdadeira experiência espiritual transforma e ilumina, como testemunhado nas vidas dos grandes santos e gênios espirituais.
Por fim, Huxley foi atraído para Krishnamurti, mais próximo do Zen do que do Vedanta.
Embora tendo-se afastado da Sociedade Vedanta, Huxley continuou a suprir a revista com seus ensaios. Sua admiração por Swami Prabhavananda nunca oscilou. Fez sua última conferência, intitulada “Símbolo e Experiência Imediata”, em 1960, três anos antes de sua morte.
Jacqueline Hazard Bridgeman, HUXLEY, Aldous. Huxley e Deus. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2022