Restam as ditas doutrinas tradicionais de nossos predecessores a cerca da alma. Voltemos a propor a questão como desde o princípio, e tentemos determinar o que é a alma e qual seria sua definição mais universal.
Dissemos que um gênero dos entes é a substância, e esta é, num primeiro sentido, como matéria, o que não é por si uma coisa concreta; em outro sentido, a forma e a figura, segundo a qual se diz já uma coisa concreta, e num terceiro sentido o composto das duas. A matéria é potência, a forma ato, e este termo se diz em dois sentidos: como a ciência e como a contemplação.
Parecem substâncias, principalmente, os corpos, e entre estes, os naturais, pois estes últimos são princípios dos demais. Dos corpos naturais, uns têm vida, os outros não a têm; entendemos por vida o nutrir-se, crescer e consumir-se por si mesmo. De modo que todo corpo natural que participa da vida será uma substância, entendida assim a substância como composta. E visto que se trata de um corpo tal que tem vida, o corpo não será a alma, pois o corpo não se atribui a um sujeito, e sim, melhor, é como substrato e matéria. É mister, pois, que a alma seja substância como forma do corpo natural que tem vida em potência. Porém esta substância é ato; portanto, a atualidade de um corpo tal.
Ora, esta se diz de duas maneiras: uma, como a ciência; outra, como a contemplação. E é evidente que o é como a ciência; pois tanto o sono como a vigília implica a presença da alma, e a vigília é algo análogo à contemplação, o sono à posse da ciência sem seu exercício, e a ciência é anterior por sua origem no mesmo indivíduo; pelo qual a alma é a atualidade primeira de um corpo natural que tem vida em potência, isto é, organizado. E também são órgãos as partes das plantas, porém sumamente simples; assim, a folha é abrigo do pericárpio, e o pericárpio do fruto; as raízes são algo análogo à boca, pois ambas absorvem o alimento. Portanto, se se há de dizer algo comum a toda alma, será a atualidade (enteléquia) primeira de um corpo natural orgânico. E por isto não se deve indagar se a alma e o corpo são uma só coisa, como não se faz para a cera e a figura, nem em geral para a matéria de uma coisa e aquilo de que é matéria. Pois o uno e o ser se dizem de muitas maneiras, mas seu sentido principal é o ato.
Dissemos o que é alma em geral: a substância segundo a noção, isto é, a essência de um certo corpo, como se algum instrumento fora um corpo natural por exemplo, um machado; pois seu ser machado seria sua substância, e isto sua alma, já que se separando esta deixaria de ser machado, salvo em um sentido equívoco. Porém na realidade é um machado. Com efeito, não é de um corpo desta índole de que é essência e razão a alma, e sim, de um corpo natural tal, que tenha em si mesmo o princípio do movimento e do repouso.
Temos agora que ver o que dissemos nas partes do corpo. Se o olho, com efeito, fosse um vivente, sua alma seria a vista, pois esta é a substância do olho, segundo sua noção. O olho é a matéria da vista, e se esta falta, já não há olho, a não ser equivocadamente, como o olho de pedra ou o desenhado. Deve-se aplicar assim o que se disse da parte a todo o corpo vivente, pois uma relação análoga à da parte com a parte é a de toda a sensação com todo o corpo sensitivo, enquanto tal. Por outro lado, não é o corpo que perdeu a alma aquele que é, em potência, capaz de viver, e sim aquele que a tem: o sêmen e o fruto são, em potência, um corpo determinado. Assim, pois, do mesmo modo que o oorte e a visão, a vigília é também ato, enquanto que a alma o é como a vista e a capacidade do instrumento; o corpo é o ente em potência; porém, assim como o olho é a pupila unida à vista, também aqui a alma e o corpo constituem o vivente.
É fora de dúvida que a alma não é separável do corpo, ou pelo menos algumas de suas partes, se é naturalmente divisível, pois a atualidade de algumas das partes é a delas mesmas. Porém nada impede que algumas outras sejam separáveis, por não serem atualidades de nenhum corpo. Ademais, não é claro se a alma é atualidade do corpo como o piloto da nave. Baste isto como definição e esboço geral da alma.
(De Anima, II, 1.)