VIDE
Excertos de Julián Marías — O TEMA DO HOMEM
A FELICIDADE COMO BEM SUPREMO
(Ética a Nicômaco, I 1097 a 15 —- 1098 a 7, 16-20.)
Voltemos de novo ao bem que procuramos, para perguntarmos o que é. Porque parece que é diverso em cada atividade e em cada arte; com efeito, é um na medicina, outro na estratégia, e assim nas demais. Porém, que é o bem de cada uma? Não é aquilo pelo que se fazem as demais coisas? Na medicina é a saúde; na estratégia, a vitória; na arquitetura, a casa; em outros casos, outras coisas, e em toda a ação e decisão é o fim, pois todos fazem por ele as demais coisas. De tal modo, que se há algum fim de todos os atos, este será o bem realizável, e se há vários, serão estes. Nosso razoamento, depois de muitos rodeios, volta ao mesmo ponto; porém tentemos esclarecer isto mais um pouco. Parecendo serem vários os fins e alguns serem escolhidos por outros, como a riqueza, as flautas e os instrumentos em geral, é evidente que nem todos são perfeitos, mas o melhor parece ser algo perfeito; de sorte que se há só um bem perfeito, esse será o que procuramos, e se há vários, o mais perfeito deles.
Chamamos mais perfeito o que se procura por si mesmo e não por outra coisa, e o que nunca se escolhe por outra coisa mais que os que se escolhem ao mesmo tempo por si mesmos e por outro fim, e em geral consideramos perfeito o que se escolhe por si mesmo e nunca por outra coisa.
Assim parece ser sobretudo a felicidade, pois a escolhemos sempre por si mesma e nunca por outra coisa, enquanto as honras, o prazer, o entendimento e toda virtude os preferimos, certamente, por si mesmos (pois embora nada resultasse delas, desejaríamos todas estas coisas); porém também os preferimos em vista da felicidade, pois cremos que seremos felizes por meio deles. A felicidade, pelo contrário, ninguém a procura por estas coisas nem, em geral, por nenhuma outra.
Parece que ocorre o mesmo no tocante à autarquia, pois o bem perfeito parece ser suficiente. Não entendemos, porém, por suficiência o viver para si só e no isolamento, mas também viver para os pais e os filhos e a mulher, e em geral para os amigos e concidadãos, visto que o homem é por natureza social. Mas se deve tomar estas coisas dentro de certos limites, pois estendendo-o aos pais e aos descendentes e aos amigos dos amigos, chegar-se-ia até o infinito. Mas isto examinaremos depois. Achamos suficiente o que por si só, isoladamente, torna a vida desejável e não necessita nada; e pensamos que a felicidade é assim. É o mais desejável de tudo, sem que nada se lhe acrescente; porém é evidente que se torna mais desejável se se lhe acrescenta o menor dos bens, pois o acrescentado se torna um excesso de bens, e, entre os bens, o maior é sempre mais desejável. Parece, pois, que a felicidade é algo perfeito e suficiente, já que é o fim de nossos atos.
Mas embora pareça certo e reconhecido dizer que a felicidade é o melhor, seria desejável que se mostrasse com clareza maior o que é. Talvez se conseguisse isso ao se compreender a obra do homem. Com efeito, do mesmo modo que no caso de um flautista, de um escultor e de todo artífice, e em geral dos que fazem alguma obra ou atividade, parece que o bom e o bem estão na obra, assim também parecerá no caso do homem, se há alguma obra que lhe seja própria. Haverá obras próprias do carpinteiro e do sapateiro, porém nenhuma do homem, sendo este naturalmente improdutivo? Ou então, assim como parece haver alguma obra própria do olho e da mão e do pé, e em geral de cada um dos membros, poder-se-á atribuir ao homem alguma função à parte destas? E qual será esta, afinal? Porque o viver parece também comum às plantas, e procura-se o próprio. Devem ser postas de lado, portanto, a vida de nutrição e a de crescimento. Viria depois a sensitiva, mas parece que esta também é comum ao cavalo, ao boi e a todos os animais. Resta, por último, certa vida ativa própria do ente que tem razão; e este, por um lado, obedece à razão, por outro, a possui e pensa. E como esta atividade se diz de duas maneiras, deve-se tomar a que é em ato, pois parece que se diz primariamente esta. (...)
O bem humano é uma atividade da alma conforme à virtude, e se as virtudes são várias, conforme a melhor e mais perfeita, e além disso em uma vida perfeita. Porque uma andorinha não faz verão, nem um só dia, e tampouco faz feliz o homem um dia só nem um tempo breve.