Excertos de Julián Marías — O TEMA DO HOMEM
A VIDA CONTEMPLATIVA
(Ética a Nicômaco, X, 1177 a 12-b 6. b 24-26.)
Se a felicidade é uma atividade conforme à virtude, é razoável que seja segundo a mais excelente, e esta será própria do melhor. Seja o entendimento ou outra coisa aquilo que por natureza parece reger e ser principal, e possuir a intelecção das coisas belas e divinas; seja um ente divino também ele mesmo, ou então o mais divino que há em nós, sua atividade, segundo a virtude que lhe é própria, será a felicidade perfeita. E já dissemos que é contemplativa.
Isto parece estar de acordo com o que dissemos antes e com a verdade. Com efeito, esta atividade é a mais excelente (pois também o é o entendimento, entre tudo o que há em nós, e as coisas que o entendimento, conhece são as mais excelentes das cognoscíveis); ademais, é a mais contínua, pois podemos contemplar continuamente, mais que qualquer outra coisa. E pensamos que é necessário que o prazer se encorpore à felicidade; ora, a mais grata das atividades conforme à virtude é a que se realiza de acordo com a sabedoria; parece, portanto, que a filosofia encerra prazeres admiráveis por sua pureza e sua firmeza, e é provável que os que sabem tenham uma vida mais agradável que os que procuram o saber.
Por outro lado, a chamada suficiência será encontrada principalmente na vida contemplativa, pois fazem falta para o homem sábio e justo, como para os demais, as coisas necessárias para a vida; porém, uma vez providos suficientemente destas coisas, o justo necessita pessoas com as quais e para com as quais pratique a justiça, e do mesmo modo o homem moderado, ou o valente, ou qualquer dos demais, enquanto o sábio, mesmo isolado, pode exercitar a contemplação, e quanto mais sábio for, mais. Acaso o fará melhor com colaboradores; porém, sem dúvida, é o homem mais suficiente. E parece que somente esta atividade é amada por si mesma, pois não tem nenhum resultado fora da contemplação, enquanto na vida ativa procuramos mais ou menos algo à parte da ação.
Parece também que a felicidade consiste no ócio (schole), pois nos esforçamos para repousar e guerreamos para estar em paz. (...) Será esta portanto a felicidade do homem, se preencheu toda a duração de sua vida, pois nenhuma coisa imperfeita pertence à felicidade.