Ars Sine Scientia Nihil
- A máxima Ars sine scientia nihil ("a arte sem a ciência é nada"), enunciada pelo Mestre parisiense Jean Mignot durante a construção da Catedral de Milão em 1398, como resposta à opinião emergente de que scientia est unum et ars aliud ("a ciência é uma coisa e a arte é outra").
- A interpretação de que a scientia de Mignot não se referia simplesmente à engenharia, mas à razão, tema, conteúdo ou fardo da obra a ser realizada, transcendendo a sua mera funcionalidade.
- A afirmação homóloga de Dante acerca da sua Commedia, de que a obra foi empreendida não para um fim especulativo, mas prático, visando remover os viventes do estado de miséria e conduzi-los ao estado de bem-aventurança.
- O paralelo no colofão de Asvaghosa ao Saundarananda, onde declara que o poema, prenhe do fardo da Liberação, foi composto de maneira poética não para dar prazer, mas para dar paz.
- A orientação do escultor Giselbertus, no Juízo Final de Autun, para o seu tema, com a inscrição Terreat hic terror quos terreus alligat error ("Aterrorize este terror aqueles que o erro terrestre mantém em cativeiro").
- A distinção de Guido d'Arezzo entre o verdadeiro músico e o cantor que é apenas um artista, expressa nos versos que afirmam ser grande a distância entre os músicos e os cantores, pois estes vocalizam, enquanto aqueles compreendem a composição da música.
- A concepção de que aquele que canta o que não saboreia é definido como um animal, e que não é a arte sozinha, mas a doutrina que faz o verdadeiro cantor.
- O pensamento análogo em Santo Agostinho sobre não desfrutar daquilo que se deve usar, e em Platão, para quem as Musas são concedidas para serem usadas intelectualmente, não como fonte de prazer irracional, mas como auxílio para a circulação da alma.
- A reminiscência em Quintiliano de que os doutos compreendem a razão de compor, ao passo que os indoutos buscam o prazer.
- A citação de Platão no Timeu sobre o prazer da composição de sons, que para os não inteligentes é prazer, mas para os inteligentes é o deleite ocasionado pela imitação da harmonia divina realizada em movimentos mortais.
- A correspondência do deleite platônico com o verbo sapit em Guido d'Arezzo, relacionado com a sapientia definida por São Tomás de Aquino como scientia cum amore.
- A ideia de que tocar um instrumento com arte e sabedoria ensina coisas que agraciam a mente, enquanto questioná-lo ignorantemente apenas produz balbucio.
- A recordação das palavras de Platão no Fedro de que não apenas a arte, mas também a inspiração é necessária para que a poesia tenha valor.
- A identificação da scientia de Mignot, do documentum de Guido e da dottrina de Dante como o elemento que suscita admiração e que é ditado pelo Amor ou pelo Espírito Santo.
- A concepção de que não é o poeta, mas o próprio Deus que fala, e que toda a verdade, seja dita por quem for, provém do Espírito Santo.
- A definição da tarefa da arte como tornar inteligível a verdade primordial, tornar audível o inaudito e enunciar a palavra primordial, sob pena de não ser arte.
- A caracterização da heresia moderna como a visão privada e sentimental que faz das obras de arte uma experiência essencialmente sensacional.
- A crítica à "estética" moderna, cujo termo deriva de aisthesis, a irritabilidade biológica que os seres humanos partilham com plantas e animais.
- A incompreensão do índio americano perante a possibilidade de se gostar das suas canções sem partilhar o seu conteúdo espiritual.
- A identificação do homem moderno como aquele que Platão chamou de "amante de belas cores e sons" e de tudo o que a arte faz com estas coisas, que tão pouco têm a ver com a natureza do belo em si.
- A reafirmação da verdade de que a arte é uma virtude intelectual e que a beleza tem a ver com a cognição.
- A máxima de que a ciência torna a obra bela, a vontade a torna útil e a perseverança a torna duradoura.
- A reafirmação final do princípio: Ars sine scientia nihil.