BALSEKAR, Ramesh S. For the spiritual seeking: confusion no more. 1st ed ed. Mumbai, India: Zen Publications, 2003.
É o ego individual quem é o buscador espiritual. E o 'ego' realmente não existe. Quando alguém me diz que veio a mim para que seu ego seja destruído e ele possa ser 'autorrealizado' ou 'iluminado', eu pediria para ele produzir seu ego e eu o esmagaria de sua existência diante de seus próprios olhos!
O que é então o 'ego'? Quando faço esta pergunta - o que entendes pela palavra 'ego'? - a resposta da maioria das pessoas é que o ego é a 'identificação com um corpo como uma entidade separada das outras pessoas, e que esta separação é o que torna as pessoas infelizes'. Mas a mera identificação com um nome e uma forma (naama, roopa) não pode realmente constituir o ego, porque até mesmo um sábio que supostamente teve seu ego destruído também responde ao seu nome quando chamado, exatamente como a pessoa comum. Em outras palavras, a pessoa comum se considera uma entidade com um corpo e nome, separada dos outros, exatamente como o sábio o faz! Então, o que é que distingue o sábio da pessoa comum? O que é que faz de um sábio um sábio? A resposta é que o sábio tem o entendimento total sem a menor dúvida de que, nas palavras do Buda, 'Eventos acontecem, atos são feitos, mas não há um fazedor individual deles.' Em outras palavras, a pessoa comum considera que ela é a fazedora de suas ações e é responsável por essas ações; e que, da mesma forma, cada pessoa é responsável por suas ações. Por outro lado, o sábio tem a convicção total e absoluta de que nem ele nem ninguém mais é o fazedor de qualquer ação, que toda ação é o acontecimento divino através de algum organismo corpo-mente e não algo 'feito' por alguém.
Neste estágio, surge a pergunta: se ninguém é o 'fazedor' de qualquer ação, quem vive sua vida neste mundo? Quem é que experimenta felicidade ou infelicidade? Quem é que busca a 'autorrealização' ou a 'iluminação' ou o que for? A resposta direta é que pensamos que vivemos nossas vidas, mas na realidade, a vida está sendo vivida através dos bilhões de organismos corpo-mente. É o ego quem pensa que é o fazedor, e experimenta felicidade ou infelicidade. Então, neste assunto, o conceito básico é que desde que um bebê nasce e busca o seio de sua mãe instintivamente, a vida não tem sido nada além de busca, e é o ego quem pensa que é o buscador, o fazedor, responsável por suas ações.
A base deste conceito é que o ser humano é realmente nada mais do que um instrumento ou computador unicamente programado através do qual a Fonte ou Energia Primordial ou Consciência ou Deus (ou qualquer rótulo que se dê à Fonte - o UM sem um segundo) funciona e realiza ações. Em outras palavras, a Fonte usa os bilhões de computadores humanos unicamente programados exatamente como tu usas teu computador. Tu colocas uma entrada em teu computador programado e o computador não tem escolha a não ser produzir a saída para a qual foi programado. Podes, é claro, dizer que o computador tem o 'direito' de produzir a saída, assim como pensas que é teu 'direito' produzir tua ação!
Então, qual é a programação em 'teu' organismo corpo-mente, e como a Fonte (ou Deus) usa o computador humano? Tu não tiveste escolha sobre teus pais e, portanto, sobre os genes ou o DNA único em teu organismo corpo-mente; nem tiveste escolha sobre o ambiente em que nasceste e no qual teu organismo corpo-mente tem recebido seu condicionamento desde o primeiro dia. O DNA único e o condicionamento ambiental juntos formam a 'programação' em teu computador corpo-mente.
Pode parecer chocante que o ser humano, que supostamente foi criado 'à imagem de Deus', esteja sendo reduzido a um computador programado. Mas não nos esqueçamos de que o ser humano é basicamente um objeto - uma espécie de objeto que, juntamente com milhares de outras espécies de objetos, forma a totalidade da manifestação. E o que funciona através dos bilhões de computadores humanos é a Fonte ou Deus ou energia primordial, produzindo através de cada computador humano exatamente aquela saída ou ação que se supõe que aconteça de acordo com a vontade de Deus (ou Fonte) ou de acordo com, digamos, a Lei Natural ou a Lei Cósmica. Isto não é diferente do fato de que a eletricidade, um aspecto da energia primordial, funcionando através de cada aparelho elétrico, produz o que o aparelho em particular foi projetado para produzir.
Como a Fonte (ou Deus) usa o computador humano? De acordo com meu conceito, a entrada é um pensamento que vem da Consciência, da Fonte; o cérebro responde a esta entrada e a saída surge na forma de uma reação no organismo corpo-mente humano. A pesquisa provou que a entrada do pensamento ocorre meio segundo antes da reação do ego. É, portanto, óbvio que o ego individual não tem controle sobre a entrada, e, é claro, o ego não teve controle sobre a programação no organismo corpo-mente. Em outras palavras, o ego não tem controle sobre a entrada e certamente não teve controle sobre a programação que dita a reação, que é obviamente uma reação biológica ou mecânica. E, no entanto, o ego chama esta reação de sua própria ação! O pensamento é uma entrada; as outras entradas são baseadas nos objetos aos quais os sentidos respondem - o que é visto ou ouvido ou provado ou cheirado ou tocado - sobre os quais o ego também não tem controle. Em outras palavras, o que acontece é que o cérebro reage a uma entrada no organismo corpo-mente estritamente de acordo com a programação, sobre nenhuma das quais o ego tem controle. E, no entanto, o ego diz que esta reação mecânica é sua ação!
Um ponto importante é que a reação biológica ou mecânica no computador corpo-mente é exatamente a mesma, seja a de uma pessoa comum ou a de um sábio. Se a entrada é a mesma e a programação é semelhante, então a saída é muito provável que seja a mesma. Se as duas pessoas veem a mesma coisa ou ouvem a mesma coisa, a saída será a mesma, por exemplo, raiva ou diversão ou medo ou pena ou o que for. Existe um grande equívoco de que a autorrealização ou a iluminação trazem uma transformação tão tremenda que o sábio se torna um ser humano perfeito: sem raiva, sem frustração e sem medo. Então, a pergunta surge: se a reação no computador programado do organismo corpo-mente é mais ou menos a mesma, qual é a diferença entre um sábio e um homem comum? A resposta está no que acontece depois que a reação inicial ocorre.
No caso da pessoa comum, quando uma reação negativa acontece - a raiva surge - o ego assume a situação. O ego diz: 'Estou com raiva; eu não deveria estar com raiva, me disseram que se eu não controlar minha raiva, terei pressão alta e isso pode levar a um ataque cardíaco ou a um derrame.' Este é o envolvimento do ego no tempo horizontal, enquanto a reação no computador corpo-mente é apenas no momento presente. No caso de um sábio, a raiva surge e pode tomar a forma de gritar com a pessoa que a causou. Mas ali a reação termina e o sábio está aberto ao que quer que possa acontecer no próximo momento. Lembro-me de um incidente particular quando eu visitava meu guru, Nisargadatta Maharaj. Alguém fez uma pergunta, e a raiva surgiu. Maharaj gritou com ele: 'Você vem aqui há seis anos e faz uma pergunta estúpida como essa?' O visitante em questão conhecia Maharaj o suficiente e deu uma resposta espirituosa; todos riram e o riso de Maharaj foi o mais alto: um momento raiva, no momento seguinte 'diversão'! No caso da pessoa comum, teria havido a identificação do ego com essa raiva como 'estou com raiva e aquele homem me deixou com raiva; portanto, eu não vou rir da sagacidade daquele homem'. Em outras palavras, no caso do homem comum, o envolvimento do ego teria ocorrido horizontalmente no tempo e ele não teria estado aberto ao que aconteceu no próximo momento. O sábio vive de momento a momento, o organismo corpo-mente respondendo ao que quer que aconteça de momento a momento, enquanto o ego do homem comum reage à reação natural e biológica do organismo corpo-mente, e se envolve no tempo horizontal e não está aberto ao que acontece de momento a momento. O ego do homem comum é, portanto, às vezes feliz e na maioria das vezes infeliz por causa do envolvimento no tempo horizontal.