Seria possível reduzir o Ensino à sua essência mais básica?
Certamente. Gostarias dela em, digamos, quatro palavras — na verdade, três?
Estás falando sério?
Claro que estou. "Inexistência da identidade". Essa é a essência mais básica do Ensino. Realmente não há mais nada a ser compreendido, uma vez que todos os outros elementos do Ensino dependem disso.
Isso parece suficientemente simples.
Será? Quem deve efetivar essa inexistência da identidade?
Obviamente cada um de nós, cada indivíduo.
Que indivíduo? Não se compreende que o indivíduo é ilusório, uma mera aparência na consciência?
Então, quem deve fazer o que quer que deva ser feito?
Esse é precisamente o ponto. Enquanto houver algo a ser feito, é uma completa impossibilidade, porque a inexistência da identidade significa a ausência de alguém para fazer qualquer coisa ou para se abster de fazê-la.
Estás a levar-me em círculos.
Não, não estou. Tudo o que faço — ou aparento fazer — é tentar tirar-te do círculo vicioso. Uma vez que se aperceba que não há nenhum fazer nem nenhum abster-se de fazer, o que permanece é a ausência de todo abstermo-nos de qualquer fazer. Essa é a absoluta ausência de qualquer identidade (nem a existência nem a inexistência) para fazer ou para se abster de fazer seja o que for.
Em outras palavras, APENAS SER.
Correto. Qualquer tentativa de "fazer" (positiva ou negativa) afasta o suposto fazedor do que ele é. Existência (ou presença) significa, na verdade, existência (presença) da existência (da presença), ou existência (ou presença) da inexistência (da ausência). Tanto a existência quanto a inexistência, ou a presença e a ausência, são conceitos. O QUE É ou SERENIDADE é a absoluta ausência de ambos os conceitos, a absoluta ausência de identidade e de não-identidade.
Pensava que tinhas dito que era tudo muito simples.
É, uma vez que seja apercebido. É um fato surpreendente que a grande maioria das pessoas — mesmo aquelas seriamente interessadas no assunto — não consiga afastar-se da ideia de que, seja qual for a essência do Ensino, cabe a uma identidade convencer-se a si mesma de que, de fato, não é uma entidade. Na outra extremidade está a minoria extremamente pequena que assume que cabe à não-entidade efetivar a convicção de que isso é tudo o que eles são como identidades! O que isto significa é que todos assumem firmemente que existe uma não-identidade! Parecem estar numa ignorância feliz de que a não-entidade se torna a entidade que assumem ser!!! Esse é todo o problema. Deves compreender isto. É importante.
Entidade e não-entidade são os conceitos opostos inter-relacionados. É isso que queres dizer?
Sim. A neutralidade não pode incluir quaisquer conceitos. O que todo buscador verdadeiramente busca — todos não o percebem — é a ausência de ambos os aspectos, positivo e negativo, da entidade. Mas enquanto houver qualquer busca — e, portanto, o buscador — a ausência do que está presente como uma entidade (positiva ou negativa) não pode acontecer. Um objeto fenomênico auto-ancorado não pode possivelmente encontrar o nôumeno que verdadeiramente é, assim como é impossível para uma sombra encontrar a sua substância. O aparente buscador no espaço-tempo é um conceito. O que é buscado é outro conceito. Assim também o são a busca e o encontrar (ou o não-encontrar). A absoluta ausência de todos tais conceitos significa o abandono da busca, e tal abandono resulta na aniquilação do buscador na SERENIDADE.
Creio que Nisargadatta Maharaj uma vez perguntou a uma das visitantes assíduas o que ela realmente queria, e que ele ficou muito zangado quando ela respondeu que não queria nada exceto iluminação. Não era para isso que todos iam ter com Maharaj?
Sim, a maioria dos visitantes ia ter com Maharaj com o propósito e intenção específicos de se libertar do "cativeiro do Samsara". Mas, desde o início, e em todos os momentos, Maharaj insistia no fato de que tudo é consciência na qual a totalidade da manifestação aparece como fenômenos. O ser humano é apenas uma pequena parte dessa totalidade. Ele costumava repetir continuamente que o ser humano é apenas uma aparência na consciência como todos os objetos fenomênicos, que, portanto, o homem não pode ter nenhuma volição independente. E, ademais, essa suposta volição era em si mesma o cativeiro conceitual. A visitante assídua, se tivesse ouvido de forma receptiva, nunca teria dado a resposta que "ela" deu.
A própria questão sobre se fulano é ignorante ou iluminado é totalmente mal concebida porque simplesmente não há nenhuma entidade a quem (ou à qual) as condições de ignorância ou iluminação poderiam aplicar-se. O que existe como uma aparência é o psico-soma. É uma aparência que está sujeita ao mecanismo da fenomenalidade — ou seja, duração — quer com base na causalidade, quer com base no sistema mais recente de probabilidade estatística. Tal aparência fenomênica não pode possivelmente ser capaz de exercer liberdade de escolha ou ação ou qualquer outra coisa. E a neutralidade em si é totalmente desprovida de qualquer objetividade.
O que pensa estar em cativeiro (ou livre) é identificado no pensamento com um objeto fenomênico, e parece estar em cativeiro ou livre. É este pensamento que é o verdadeiro problema. O "alguém" que pensa que é livre está tão preso quanto o "alguém" que pensa que está preso.
Então, nenhum conceito de cativeiro ou liberdade — ou quaisquer conceitos — se aplicariam se houver apenas a experiência do Ensino: para de pensar, para de conceitualizar, e APENAS SEJAS. Compreendi corretamente?
Tinhas compreendido corretamente — até formulares a pergunta em tua mente e a exprimires!