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id da página: 3934 Eric Baret – Do Abandono – Suceder Baret

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Eric Baret – Do Abandono – Suceder


BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004

Estou intrigado com uma palavra que pronunciada mais cedo: "não-realização". Poderíamos dizer que se pode passar uma vida a falhar e que isso seria também uma via de realização... porque essa não-realização deixa um gosto amargo e leva a se fazer muitas perguntas sobre o sentido da vida?

Podemos passar a vida a nos imaginar conseguindo ou falhando. Tudo isso não passa de ideologia: não podemos nem conseguir nem falhar seja lá o que for. Um dia, estaremos cansados de imaginar. Nesse instante, nossas conquistas e nossos fracassos imaginários, nossas fantasias de conquistas e fracassos futuros também se eliminarão. Eis a realização, não há outra. É isso que é preciso deixar instalar-se em nós. Não há lugar para um arrependimento, uma esperança ou uma amargura: tudo isso é uma forma de agitação. Permaneçamos tranquilos, claros. A vida se desenrola em nós, não estamos na vida.

Se não há realização, também não há evolução?

Não há evolução psicológica. O velho não é mais que a criança: é uma outra expressão da vida. Também não é menos quando perde sua força, sua inteligência, sua memória e sua saúde.

Quando o velho perde o pé, quando perde a memória, ele está menos consciente, não?

Consciência relativa, pois ele não estava consciente. Ele se imaginou conseguindo e falhando coisas – o que é inconsciência. Ele se imaginou ter um nome, decidir seus atos... Ele se imaginou a vida toda. Não é porque ele esquece esse imaginário que há um a menos. Ele reencontra algo essencial, sem memória, sem apropriação.

É bom observar o quanto a visão de um velho que fica senil nos impacta. Por que é tão difícil? O que me assusta? Sou colocado em questão. Percebo que vou ser assim e que não vou mais poder pretender – pretender minha conquista, meus fracassos. Vou ser obrigado a abdicar minha querida vida, minha querida identificação comigo mesmo. É isso que me é penoso.

Deixemos o velho tranquilo quanto a nossas projeções, nossos medos. O velho está muito bem: somos nós que temos medo. Um salmão no fim da vida não é menos que em seu esplendor. A degeneração, em certo plano, faz parte de nosso processo biológico. Há tanta beleza em alguém que morre quanto em alguém que nasce.