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metanoia

PHILOKALIA-TERMOS — METANOIA = ARREPENDIMENTO


VIDE: STREPHO; METAMORFOSE INTELECTUAL


CONVERSIÓN o arrepentimiento (metanoia): etimológicamente, la palabra griega significa "cambio de la mente." Se trata, pues, de algo que no se resuelve en un sentimiento, aunque se implique verdadero dolor y compunción, sino que hace cambiar el rumbo del pensamiento del hombre, llevándolo a tomar la forma del pensamiento divino, expreso en la Palabra y en la ley divina en lo íntimo. Un cambio de pensamiento lleva, necesariamente, a un cambio en el actuar, a una conducta que se rectifique de alguna manera, que corrija y repare la conducta precedente, de la cual nos hemos arrepentido: por eso ha sido quizás necesario traducir esta única palabra con el vocablo castellano "penitencia,"que agrega un matiz práctico y expresa mayormente la concreción existencial de la conversión o del arrepentimiento.

E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Romanos, XII, 2

Meu guia... voltou a cabeça para o lugar onde antes estavam seus pés. Dante (Inferno, XXXIV, 78)

“Há no homem algo que deve ser convertido ou transmutado: é a alma enquanto amor — a alma enquanto vontade — cujo centro de gravitação é o ego.” (Schuon: L’Oeil du Coeur, p. 209)


Metanoia, geralmente traduzida por “arrependimento”, significa literalmente “mudança de mente” ou metamorfose intelectual. Neste capítulo, o termo será utilizado em ambos os sentidos, uma vez que a primeira ideia prefigura a segunda, e a concepção fundamental em ambas as instâncias é a de mudança, reversão ou retorno interior. (Em árabe, a primeira interpretação é normalmente expressa por tawbah, que significa “arrependimento”, mas especialmente no sentido de afastamento do mundo e mudança de perspectiva e de valores, ao passo que o segundo significado é amplamente coberto pela raiz QLB, “inverter”, cujo substantivo qalb denota inversão, transformação, coração, centro, intelecto, essência.)

A conversão é do círculo à circunferência, da aparência à realidade, do sensível ao inteligível, do tempo à eternidade, do passível ao impassível, do desejo à ausência de desejo; — e por desejo entende-se tudo aquilo que possa prender-nos de modo desordenado ao ambiente terrestre e psíquico, tudo o que nos afaste de nosso centro humano “vertical” para uma periferia agitada, ilusória e “horizontal”, tudo aquilo em que se possam identificar os elementos de inquieta agitação (não o anseio espiritual!), incompletude, ardor, ânsia.

Metanoia é, pois, uma transformação de todo o ser; da maneira humana de pensar para a compreensão divina, e o nascimento de um “homem novo” que, longe de ser esmagado pelo peso dos erros passados, já não é o homem que os cometeu.

Metafisicamente, a metanoia está em relação com as leis de analogia inversa que regem a hierarquização dos estados do ser. Cosmologicamente, relaciona-se com o que se denomina “junção dos extremos”, enquanto, microcosmicamente, encontra expressão, por exemplo, nos ensinamentos hindus relativos à kundalini (cf. Guénon: “Kundalini-yoga”, em Yoga, Science de l’Homme intégral, ed. Masui, Paris, 1953; e Arthur Avalon: The Serpent Power).


Nicolau de Cusa: DA DOUTA IGNORÂNCIA

Faz-se mister, necessariamente, que a criatura dotada de razão, que quer receber a luz, volte-se às coisas verdadeiras e eternas, acima de nosso mundo e de nossa corruptibilidade. As coisas do corpo e as do espírito são contrárias. Pois a virtude vegetativa do corpo incorpora, mediante uma transformação, o alimento recebido de fora à natureza do ente alimentado. E não se transforma o animal em pão, mas ao inverso. Por seu lado, o espírito dotado de entendimento, que se exercita acima do tempo, como se fosse no horizonte da eternidade, quando se volta às coisas eternas não as pode incorporar, porque são eternas e incorruptíveis; mas tampouco ele, sendo incorruptível, pode a elas incorporar-se ao ponto de deixar de ser uma substância intelectual; porém a elas se incorpora ao ponto de estar formado à imagem da eternidade; com diferenças de graus, não obstante; se se volta à elas com mais fervor, sua perfeição pelas coisas eternas é maior e mais profunda, e seu ser oculta-se no próprio ser eterno.


Paul Vulliaud: A CHAVE TRADICIONAL DOS EVANGELHOS

O leitor tem presente no pensamento que a primeira palavra da missão evangélica é"Arrependei-vos. O arrependimento ou o retorno, ou conversão, (hbr. teschoubah) está, segundo a Cabala, no mistério do Reservatório das águas. O pecado, a impuridade, tem por consequência separar o nome divino supremo (io-he-vav-he) em dois (iod-he) (vav-he), e interromper a união de nosso mundo com a organização sefirótica pela qual Deus faz sentir suas atividades através da criação, quer dizer que o fluxo da graça divina não mais se produz. A substância espiritual, transmitida pelo fluxo divino, não pode subsistir na alma, porque não pode ficar em contato com a impuridade. Ela se reintegra no mistério da sefirá Binah, figurada sob o nome de Mãe suprema (Mi), que é a porta do arrependimento, do retorno, da conversão. É necessário que p pecador retorne à fonte de purificação; por sua ablução (hbr. tebilah) ele entrará no mistério das águas celestes, quer dizer que se regenerará. É ao que faz alusão a Cabala dizendo que o homem entra pelo arrependimento no seio de sua mãe (a sefirá Binah), e que destinado a se o "carro" (Merkabah) da Shekinah (Divindade manifestada que é a fonte dos seres espirituais, é concebido uma segunda vez. Eis aí o ensinamento que Nicodemos, um doutor em Israel , modelo de nossos Doutores, tinha perdido de vista.


CHARLES-SAGET, Annick. Retour, repentir et constitution de soi. Paris: J. Vrin, 1998

A partir do século III antes de nossa era, o arrependimento bíblico se transpôs para os judeus de Alexandria e para nós outros, se nos pensamos descendentes dos gregos e do grego, na famosa tradução dos Setenta. Famosa, digna de renome e de re-conhecimento, esta tradução transportou em grego escritos que não podiam se encontrar diretamente em harmonia nem com a estrutura sintática nem com a semântica, e que não podiam então aparecer senão um tanto «bárbaros». Neste trecho, o arrependimento bíblico se torna epistrophe ou metanoia.

Para o cristianismo antigo, que se apoiará sobre esta Bíblia, nós dizíamos mais acima que metanoia se impõe em sentido e em clareza sobre epistrophe: a «mudança de espírito», sobre a qual o apóstolo Paulo tanto insistiu para o afastamento da antiga lei, supõe o reconhecimento do Cristo e a crença na redenção de todo pecado pela Paixão. Não há então que «voltar» à Aliança passada, mas que dar vida à Igreja, que as epístolas de Paulo nomeiam igualmente corpo do Cristo que esposa do Cristo. Cada cristão constitui este corpo novo que se substitui ao povo eleito, segundo uma decisão que lhe é própria. Assim, o batismo inaugura uma vida «nova», da qual ele é o «primeiro» momento. Cada um se torna então filho do novo reino. E esta mudança de espírito — que a fé descreve como efeito do Espírito-Sopro divino — é chamada metanoia. A necessária insistência sobre o começo, a analogia do batismo e da ressurreição do Cristo, ligaram a mudança de espírito a estas imagens e relatos de fulguração que tomaram nome de conversio. Seria mais esclarecedor reconhecer aí a oposição do que se dá (o Espírito) e do que se oferece (a alma), e de ver que a metanoia comporta estes dois sentidos: a conversão diz o que é recebido enquanto que o arrependimento é ato e disposição de quem pede.

Ora o cristão prova, depois deste batismo, a decadência natural a todo vivido, a impossibilidade que um começo seja um «nunca mais», a impotência de uma conversão a ser sem rodeios ou retornos, sem o socorro da graça. Assim nasce a questão da penitência, que sobrevém como a necessidade — e a impossibilidade — de um segundo batismo. Guy Stroumsa nos diz como Tertuliano compreendeu e respondeu a esta dificuldade.

Há então, entre os dois sacramentos do batismo e penitência, uma maneira de viver a articulação temporal entre o uno e o múltiplo, ou antes entre o que é primeiro e todos os depois, ou bem ainda entre a primeira entrada na comunidade, e os múltiplos desvios e retornos. Assim se separam o retorno-arrependimento judeu ou bíblico e o batismo-arrependimento cristão. Enquanto que a Aliança era sempre já lá, cada sacramento «cristão» recorda à sua maneira o novo começo que é o Cristo. A pessoa e o papel do Cristo modificam a maneira pela qual a metanoia atinge a alma, mas modificam também a temporalidade descontínua que era até então a sua. Nós marcaremos aqui dois outros efeitos.

Antes de mais nada, as tensões psicológicas se dramatizam, se intensificam, já que a alma se mede de agora em diante ao modelo inacessível do Cristo. O retorno à Lei podia se apresentar como um retorno à ordem da Aliança. Mas a imitação do Cristo é, para a alma, uma ambição ao mesmo tempo desejada e desmedida. A alma se torna um espaço de luta entre as potências às quais as visões apocalípticas já tinham dado corpo no imaginário religioso. A criação ela mesma pode ser reinterpretada e dita má na medida em que se cindem as forças do puro e do impuro. É assim que os movimentos gnos-ticos estão em ressonância com a psicologia penitencial. Um exemplo nos é dado por J. D. Dubois, que analisa textos Valentinianos do século II. A história da alma não é mais um estudo de suas faculdades, ela se inscreve num drama cósmico.

Outra diferença: a intensidade do arrependimento pode se exprimir para lá do ritual, num modo de vida que é «consagração» de toda uma vida. Nós evocamos aqui os Padres do Deserto e, através deles, a invenção do ascetismo cristão. A penitência pode, nesta forma de espiritualidade, ao mesmo tempo se desligar de toda falta singular e se nutrir de toda imperfeição que se torna pecado. Nos Apophtegmas, nós lemos:

« um homem trabalhador, cada dia e a cada hora, pode recomeçar a se converter». Deste trabalho sobre Si, deste esforço contínuo, nos é preciso compreender as condições de possibilidade, sem que os relatos ou as imagens das tentações, aquelas de santo Antônio, não façam tela. Digamos antes que nos Padres do Deserto, uma vida expõe, na separação de seu espaço, sua separação de com as vidas de compromisso ordinário. Mas ela se expõe também aos jogos do imaginário e aos perigos do silêncio. Ele nos aparece que a possibilidade destas vidas reside na existência da Regra, Regra que determina a estrutura pela qual a negação indefinida de Si se transforma em uma «vida»: ritmo do tempo, do trabalho, da prece, do repouso, ritmo dos encontros com os outros «solitários». A vida de privação se transforma em uma vida de relação com o que é, pelo menos, riqueza. Riqueza do Livro Santo, dos textos a meditar, pois neles repousa o sentido do mundo, do ser-lá no mundo, riqueza também da palavra santa que se diz por tantas vozes: palavras do Padre abade («Abade» é bem Pai) e palavras de encontro que permitem a uma vida não política se apoiar ao menos, contra o imaginário e o narcisismo, sobre todas as outras vidas separadas. Assim o eu de cada um se constitui na singularidade de sua história, e o relato se torna um elemento de construção para aquele que o diz e para todos aqueles que o escutam ou o leem. É preciso dizer mais para ver com evidência que o arrependimento não pertence ao espaço filosófico?

O extremismo ascético é todavia um traço próprio ao deserto e a exclusão da filosofia é aí tão igualmente extrema. Em contra-ponto, nós propomos em fim de volume um texto do século IV onde se lê uma compaixão para a condição humana e sua vulnerabilidade, compaixão cristã sem dúvida, mas que se apoia sobre uma medicina sensível à fragilidade como à perfeição da natureza humana. Ele resta que o ajustamento entre as fontes filosóficas gregas e o sentido cristão da misericórdia não pode ser lido como indo de Si.


SchopenhauerO Mundo como Vontade e como Representação

ARREPENDIMENTO nunca se origina de a Vontade ter mudado (algo impossível), mas de o conhecimento ter mudado. O essencial e próprio daquilo que eu sempre quis, tenho de ainda continuar a querê-lo, pois eu mesmo sou esta Vontade a residir fora do tempo e da mudança. Portanto, nunca posso me arrepender do que quis, mas sim do que fiz, visto que, conduzido por falsas noções, agi de maneira diferente daquela adequada à minha vontade. O ARREPENDIMENTO é a intelecção disso por via de um conhecimento mais preciso. E isto se estende não só à sabedoria de vida, à escolha dos meios, ao julgamento do mais adequado fim à minha vontade, mas também ao ético propriamente dito. Assim, por exemplo, posso ter agido mais egoisticamente do que era adequado ao meu caráter, visto que fui guiado por representações exageradas da necessidade na qual eu mesmo me encontrava, ou pela astúcia, falsidade, maldade dos outros, ou posso ter sido precipitado: numa palavra, agi sem ponderação, determinado não por motivos distintamente conhecidos in abstracto, mas por simples motivos intuitivos, pela impressão do presente e o afeto que este provocou, o qual foi tão violento que me privou do uso propriamente dito da razão. Mas aqui, portanto, o retorno da capacidade deliberativa não passa de conhecimento corrigido, do qual pode resultar arrependimento, que sempre dá sinal de si mesmo por reparação, até onde é possível, do acontecido. No entanto, deve-se notar que, para enganar a si mesmas, as pessoas fingem precipitações aparentes, que em realidade são ações secretamente ponderadas. Porém mediante tais truques sutis não enganamos nem adulamos ninguém, senão a nós mesmos. – Também o caso contrário ao mencionado pode ocorrer. Posso ser ludibriado pela confiança excessiva nos outros, ou pelo desconhecimento do valor relativo dos bens da vida, ou por algum dogma abstrato cuja crença doravante perdi, e assim 383 ser levado a agir menos egoisticamente do que é adequado ao meu caráter, com isso preparando um arrependimento de outro gênero. Portanto, o arrependimento sempre é o conhecimento corrigido da proporção do ato com a intenção real. – E assim como a Vontade que manifesta suas Ideias apenas no espaço, ou seja, mediante a simples figura, já encontra a resistência de outras Ideias, aqui forças naturais, que dominam a matéria e desse modo raramente permitem a irrupção perfeitamente pura e distinta, isto é, bela, da figura que se esforça por visibilidade; assim também a Vontade que se manifesta apenas no tempo, isto é, via ações, encontra uma resistência análoga no conhecimento, que quase nunca lhe fornece os dados inteiramente corretos, fazendo o ato não corresponder de maneira precisa e integral à Vontade, preparando dessa forma o arrependimento. Logo, o arrependimento sempre resulta do conhecimento corrigido, não da mudança da Vontade, o que é impossível. O peso de consciência Gewissensangst em relação a atos já cometidos não é arrependimento, mas dor sobre o conhecimento de nosso si mesmo, ou seja, como Vontade, Baseia-se na certeza de que sempre temos a mesma vontade. Se esta tivesse mudado e assim o peso de consciência fosse mero arrependimento, ela se superaria a si; pois o passado não poderia despertar dor alguma, visto que expunha a exteriorização de uma vontade que agora já não é mais a do arrependido. Adiante discutiremos em detalhes a significação desse peso de consciência. [SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 383-384]


ASCETISMO E MISTICISMO
Tanquerey: PENITENCIA


GURDJIEFF
Maurice Nicoll: ARREPENDIMENTO


PHILOKALIA


Tradução Inglesa:

Em grego, uma "mudança de mente" ou "mudança de intelecto": não apenas arrepender-se, constringir-se ou lamentar-se, mas mais positiva e fundamentalmente a conversão ou a virada de nossa vida por inteiro em direção a Deus.

PERENIALISTAS
René Guénon: TRANSMUTAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

Ananda Coomaraswamy: MENTE

Ativarnashrami: METANOIA


CRISTOLOGIA
Citações dos Padres