A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS NOS SEUS VESTÍGIOS IMPRESSOS NO MUNDO SENSÍVEL
4 Todo este mundo sensível, então, com os seus três gêneros de seres, entra na nossa alma pela percepção. Notemos, no entanto, que as coisas sensíveis — que são as primeiras a penetrarem na alma pela porta dos cinco sentidos — sendo exteriores e materiais, não entram pela sua substância material, mas unicamente pela sua semelhança ou imagem. Esta imagem se forma primeiramente num lugar intermédio e distinto. Daí passa aos órgãos externos. Estes a transmitem ao sentido interno e daqui passa à faculdade perceptiva.
É assim que as imagens de todas as coisas que provêm de fora — geradas primeiro neste lugar intermédio, transportadas depois aos nossos órgãos pela reação da faculdade apreensiva sobre a imagem — engendram a percepção de todos os objetos exteriores.
5 Quando a percepção tem por objeto uma coisa que nos convém, então ela vem acompanhada de prazer. Efetivamente, o sentido se compraz no objeto percebido mediante a imagem ou semelhança abstraída dele, seja por causa de sua beleza — quando se trata da vista — seja por causa de sua suavidade — como no olfato e no ouvido — seja por causa de sua salubridade — quando se trata do gosto e do tacto.
Mas a razão de todo prazer é a proporção. Ora, a imagem donde provém o prazer é simultaneamente forma, virtude e ação. É forma em relação ao objeto donde emana. É virtude ou potência em ordem ao meio pelo qual passa. É ação em razão do término sobre o qual age.
Conseqüentemente, considerada na imagem sensível, enquanto tem caráter de forma, a proporção se chama beleza. Com efeito, "a beleza não é senão uma igualdade numérica", isto é, "uma certa disposição das partes unidas à suavidade das cores". (S. Agostinho, VI De Musica, cap. 13, n. 38, e XXII De Civitate Dei, cap. 19, n. 2)
Considerada novamente na imagem sensível, enquanto tem caráter de potência ou força, a proporção se denomina suavidade, sempre que a virtude agente não exceder à capacidade daquele que recebe a impressão sensível. O sentido, de fato, sofre nos extremos e se compraz no meio-termo.
Finalmente, considerada na imagem sensível, enquanto tem caráter duma impressão eficaz, a proporção chama-se salubridade, sempre que o agente, pela sua ação, satisfaz uma necessidade do recipiente. Esta ação é, então, salutar para ele, porque o conserva e o nutre. É sobretudo no gosto e no tacto que se experimenta esta atividade benéfica.
Daí se deduz que as coisas sensíveis entram na alma pela sua imagem ou semelhança, produzindo prazer de acordo com as três maneiras que lhe são próprias.
6 O juízo segue à percepção e ao prazer. Com o juízo não se julga apenas se uma coisa é branca ou preta — o que pertence a um sentido particular — ou se é nociva ou benéfica — o que é próprio do sentido interior ou comum. Mas também se julga e se dá a razão do por que essa coisa nos é agradável. Com o juízo, portanto, procuramos a causa do prazer que a percepção dum objeto nos faz experimentar. Mas buscar a causa do prazer sentido é procurar a causa da beleza, da suavidade e da salubridade do objeto. Descobrimos, assim, que a dita causa é uma proporção de igualdade. Ora, a razão da proporção é a mesma tanto nos objetos grandes como nos pequenos. Ela não se estende com as dimensões. Nem passa com o que passa nem o movimento das coisas a altera.
A natureza da igualdade é, pois, independente do lugar, do tempo e das mutações. Por isso mesmo, ela é imutável, sem limites no espaço e no tempo e inteiramente espiritual.
0 juízo é, portanto, o ato que faz entrar na inteligência, depois de tê-la depurado pela abstração, a imagem sensível percebida pelos sentidos.
E assim todo este mundo sensível entra na alma humana pela porta dos sentidos, mediante as três operações de que acabamos de falar. (quer dizer: a percepção, o prazer e o juízo)