Durante cerca de meio século, a questão de Lutero tem sido objeto de renovado interesse por parte dos católicos. Uma atitude de condenação e rejeição deu lugar a uma atitude de compreensão, ou, pelo menos, de investigação atenta. Minha intenção não é tratar a questão como um ‘lutherologista’, que de modo algum sou. A obra escrita de Lutero é enorme (123 volumes na edição de Erlangen-Frankfurt, 1826-1926, indicada como ‘Erl.’ nas referências, e 67 volumes na edição de Weimar, 1883-1948, indicada como "WA": ‘Weimar Auflage’), à qual se deve acrescentar, desde o século XVI, uma tal massa de obras que uma vida inteira não seria suficiente para tomar conhecimento de tudo, mesmo superficialmente. Gostaria antes de indagar brevemente a causa dessa mudança de atitude e sua significação. As hipóteses aqui sugeridas complementarão o que expus no Capítulo 1.
Essa mudança de atitude não teve efeito sobre as declarações do magistério, que ainda mantém a incompatibilidade da fé católica com a doutrina luterana. Mas a vemos entre muitos teólogos atuais, inclinados a ser muito depreciativos da literatura romana anterior sobre o assunto. Eles não reprovam tanto a falta de erudição, mas por ter-se constantemente entregue à crítica e à polêmica. Em outras palavras, a moda do dia faria com que não mais entendêssemos mal a obra salutar do Reformador, e nos faria esquecer, ou ocultar, os abusos e obscenidades do Irmão Martinho, nos faria oferecer à fina sociedade ecumênica de nossos tempos um Lutero apresentável, bem-educado e bem-falante. É bastante improvável que ele ficaria satisfeito com isso.