CONFERÊNCIA XV — SEGUNDA CONFERÊNCIA DO ABADE NÉSTEROS — DOS CARISMAS DIVINOS (tradução brasileira)
CASSIANUS, Johannes. John Cassian: The conferences. New York, NY: Paulist Press, 1997
A segunda conferência de Abba Nesteros, que trata do carisma da cura, é a mais curta de todas as vinte e quatro conferências. Nesteros começa por distinguir entre três tipos de cura que diferem não por sua razão de objeto ou de efeito, mas por razão do caráter e da disposição do curador. Assim, há curas realizadas por pessoas santas; por pecadores e por outras pessoas indignas a quem, no entanto, o poder foi dado por Deus; e por demônios que trabalham através de pecadores públicos e que, assim, procuram minar o respeito em que a religião é tida. Portanto, não são os milagres em si que são admiráveis, já que os ímpios às vezes podem realizá-los, mas sim uma vida virtuosa. Acima de tudo, é o amor que conta, e isso é equivalente àquele conhecimento prático que havia sido discutido em 14.1.3ss.
Os grandes homens do deserto, de fato, hesitavam em realizar milagres, e só o faziam quando parecia que eram compelidos a isso. Como uma ilustração dessa relutância, Nesteros relata as histórias de três abades que realizaram milagres para defender a fé de alguma forma ou como uma resposta misericordiosa a um pedido urgente. Esses homens não deram crédito a si próprios por seu dom, mas humildemente reconheceram a Deus como sua fonte.
É a humildade que particularmente marca o cristão e que é capaz de ser aprendida por todos, ao passo que a realização de milagres é para poucos e é, em qualquer caso, propícia à vanglória. De fato, é um milagre maior controlar as próprias paixões do que realizar milagres para outros.
Como prova disso, e em conclusão, Nesteros relata um incidente na vida de Abba Paphnutius. Paphnutius se orgulhava de sua perfeita castidade, mas uma vez, quando estava cozinhando sua refeição, queimou a mão, o que o perturbou. Isso, por sua vez, o levou a refletir, apesar de sua convicção de ser puro, sobre os fogos do inferno. Enquanto ele ponderava sobre esses pensamentos e lentamente adormecia, um anjo apareceu para ele e gentilmente o repreendeu por acreditar que ele era puro, quando na verdade ele não estava completamente no controle de Si. Se quisesse demonstrar isso a Si, deveria pegar uma donzela nua e abraçá-la e ver se permanecia impassível. Paphnutius sabiamente percebeu que não poderia sobreviver a tal teste, e Nesteros encerra a conferência observando que a pureza perfeita é um dom mais elevado do que expulsar demônios.
A expressa relegação de milagres e carismas extraordinários por Cassiano a um nível muito secundário em comparação com uma vida virtuosa é consonante com suas palavras em Inst. praef. 8: "Meu plano é dizer algumas coisas não sobre as obras maravilhosas de Deus, mas sobre a melhoria de nosso comportamento e a conquista da vida perfeita, de acordo com o que aprendemos com nossos anciãos." O mesmo sentimento aparece mais tarde em Conlat. 18.1.3, quando Cassiano se declara indisposto a discorrer sobre os milagres de Abba Piamun; seu propósito é "oferecer aos nossos leitores apenas o que é necessário para a instrução na vida perfeita e não um objeto inútil e vão de assombro sem qualquer correção para as falhas." No entanto, há o suficiente do milagroso na presente conferência, e em As Conferências em geral, para que o leitor compreenda rapidamente que as maravilhas não eram necessariamente raras no deserto. Isso, por sua vez, tem a intenção de alcançar o objetivo adicional de implantar no leitor um temor dos abades cujo ensinamento está sendo transmitido. Seus milagres, assim, dão autoridade às suas palavras.