Compilado pelo Higumeno Chariton de Valamo, traduzido da versão inglesa: IGUMEN CHARITON OF VALAMO. The art of prayer: an Orthodox anthology. E. KADLOUBOVSKY; E. M. PALMER. New York: Faber and Faber, 1997
Resumo:
- Esquema do Monge Agapii
- A oração oral
- A oração interior (oração da mente)
- A oração do coração
- Higumeno Varlaam
- Higumeno Nazarii
ENSINAMENTOS DOS STARTSI DO MOSTEIRO DE VALAMO
(i) Esquema monge Agapii
Oração oral
No início, a Oração de Jesus é proferida, na maior parte das vezes, com relutância e esforço. Mas, se houver firme intenção de subjugar todas as paixões, pela oração e com o auxílio da graça divina, então, com a prática frequente da Oração e perseverança, à medida que as paixões diminuem, a própria Oração tornar-se-á gradualmente mais fácil e atraente.
Na oração oral, deve-se esforçar, por todos os meios possíveis, para manter a mente fixa nas palavras da oração, pronunciando-a sem pressa e concentrando toda a atenção no significado das palavras. Quando a mente se dispersa em pensamentos estranhos, é preciso trazê-la de volta, sem desânimo, às palavras da oração.
A liberdade de distração não é concedida à mente rapidamente, nem quando se deseja. Ela vem quando primeiro se humilha a si mesmo e quando Deus decide conceder tal bênção. Esse dom divino não depende do tempo que se passa em oração nem do número de orações recitadas. O que é necessário é um coração humilde, a graça de Cristo e esforço constante.
Da oração oral recitada com atenção passa-se à oração interior ou mental. Esta é assim chamada porque, nessa forma de oração, a mente se eleva para Deus e contempla somente a Ele.
Oração interior (oração da mente)
Para praticar a oração interior, é essencial manter a atenção no coração diante do Senhor. Em resposta ao zelo e ao esforço humilde na oração, o Senhor concede à mente seu primeiro dom — o dom da recordação e da concentração na oração. Quando a atenção se dirige ao Senhor de modo espontâneo e sem interrupção, trata-se de uma atenção concedida pela graça, enquanto a atenção própria é sempre forçada. Essa oração interior, se tudo corre bem, com o tempo passa à oração do coração: a transição é facilmente feita, desde que haja um mestre experiente para guiar o discípulo. Quando os sentimentos do coração estão em Deus e o amor por Deus preenche o coração, tal oração é chamada oração do coração.
Oração do coração
Diz-se nos Evangelhos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Ao orar, portanto, deve-se primeiro renunciar à própria vontade e às próprias ideias e, em seguida, tomar a cruz, que é o labor do corpo e da alma inevitável nessa busca espiritual. Tendo-se entregue inteiramente ao cuidado sempre vigilante de Deus, deve-se suportar com alegria e humildade o suor e o esforço, em vista da verdadeira recompensa que Deus concederá aos zelosos no tempo oportuno. Então Deus, comunicando-nos a sua graça, porá fim às divagações da mente e a colocará — juntamente com a lembrança d’Ele — firmemente no coração.
Quando esse estado de permanência da mente no coração se torna natural e constante, os Padres chamam-no de “união da mente e do coração”. Nesse estado, a mente já não deseja estar fora do coração; pelo contrário, se as circunstâncias exteriores ou uma longa conversação afastam a mente da atenção ao coração, ela experimenta um desejo irresistível de retornar ao interior, uma ânsia e uma sede espiritual: seu único anseio é recomeçar, com novo ardor, a construção de sua morada interior.
Quando essa ordem interior se estabelece, tudo no homem passa da cabeça ao coração. Então uma espécie de luz interior ilumina tudo o que há dentro dele, e tudo o que faz, diz ou pensa é realizado com plena consciência e atenção. Ele discerne claramente a natureza dos pensamentos, intenções e desejos que o visitam; submete de bom grado a mente, o coração e a vontade a Cristo, obedecendo com zelo a cada mandamento de Deus e dos Padres. Se se desvia deles em algum aspecto, expia sua falta com arrependimento e contrição sinceros, prostrando-se humildemente diante de Deus em dor não fingida, suplicando e esperando com confiança o auxílio do alto em sua fraqueza. E Deus, vendo essa humildade, não priva o suplicante de Sua graça.
A oração da mente no coração vem rapidamente a alguns, enquanto para outros o processo é lento. Assim, de três pessoas conhecidas por mim, ela penetrou em uma assim que lhe foi ensinada, naquela mesma hora; a outra a recebeu em seis meses; a terceira, em dez meses; enquanto, para um grande starets, veio apenas após dois anos. Por que ocorre assim, só Deus o sabe.
Sabe-se também que, antes de as paixões serem destruídas, a oração é de um tipo, e, depois que o coração se purifica das paixões, é de outro. O primeiro tipo ajuda a purificar o coração das paixões; o segundo é um sinal espiritual da bem-aventurança futura. Deve-se proceder assim: quando se sente efetivamente a mente entrar no coração e se percebe conscientemente os efeitos da oração, deve-se entregar-se inteiramente a tal oração, afastando tudo o que lhe é hostil; e, enquanto ela permanecer ativa, não se deve fazer outra coisa. Mas, quando não se sente tal movimento interior, pratique-se a oração oral com prostrações, esforçando-se de todas as formas para manter a atenção no coração diante da face do Senhor. Esse modo de orar também permite que o coração adquira calor.
Vigiai e sede sóbrios, especialmente durante a oração da mente e do coração. Ninguém agrada mais a Deus do que aquele que pratica devidamente essa oração. Quando o ambiente externo torna a oração difícil, ou quando não há tempo para orar, nesses momentos — qualquer que seja a ocupação — deve-se esforçar para conservar o espírito de oração dentro de si por todos os meios, recordando Deus e procurando de toda maneira vê-lo diante de si com os olhos da mente, com temor e amor. Sentindo Sua presença, deve-se entregar-se ao Seu poder onipotente, onividente e onisciente, submetendo-Lhe em adoração todas as atividades, de modo que, em cada ação, palavra e pensamento, se recorde de Deus e de Sua santa vontade. Tal é, em resumo, o espírito de oração. Quem ama a oração deve necessariamente possuir esse espírito e, tanto quanto possível, submeter o próprio entendimento ao entendimento de Deus, por meio da atenção constante do coração, obedecendo humilde e reverentemente aos mandamentos divinos. Do mesmo modo, deve submeter seus desejos à vontade de Deus e entregar-se completamente aos desígnios da providência divina.
Por todos os meios possíveis, deve-se combater o espírito da autovontade arbitrária e o impulso de sacudir o jugo da obediência. É um espírito que sussurra: “Isto está além das minhas forças, não tenho tempo, ainda é cedo para empreender isso, devo esperar, minhas obrigações monásticas me impedem” — e muitas outras desculpas semelhantes. Quem escuta esse espírito jamais adquirirá o hábito da oração. Estreitamente ligado a ele está o espírito da autojustificação: quando somos levados ao erro pela arbitrariedade voluntariosa e, por isso, somos inquietados pela consciência, esse segundo espírito se aproxima e começa a agir em nós. Nesse caso, o espírito da autojustificação usa de todos os ardis para enganar a consciência e apresentar o mal como bem. Que Deus proteja contra esses espíritos malignos.
(ii) Igúmen Varlaam
O Apóstolo escreve: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência” (2Cor 1,12). Simeão, o Novo Teólogo, diz: “Se a nossa consciência é pura, recebemos a oração da mente e do coração; mas sem uma consciência pura, não podemos ter êxito em nenhum esforço espiritual.”
(iii) Igúmen Nazarii
Com reverência, invoca em segredo o Nome de Jesus, assim: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador.”
Procura fazer com que essa oração penetre cada vez mais profundamente em tua alma e coração. Ora com a mente e o pensamento, e não deixes que a oração se afaste dos teus lábios nem por um momento. Se possível, combina-a com a respiração e, com todas as tuas forças, esforça-te, por meio da oração, para alcançar contrição de coração, arrependendo-te dos pecados com lágrimas. Se não houver lágrimas, que ao menos haja contrição e lamento no coração.