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id da página: 385 William Chittick – Caminho Sufi do Conhecimento – Existência

Chittick SPK Existencia

Existência e não-existência


Ibn Arabi é conhecido como o fundador da escola da Unicidade do Ser (wahdat al-wujud). Embora ele não empregue o termo, a ideia permeia suas obras. Dito de forma simples, há apenas um Ser, e toda a existência não é nada além da manifestação ou do brilho exterior daquele Único Ser. Logo «tudo o que é diferente do Único Ser» — ou seja, todo o cosmo em toda a sua extensão espacial e temporal — é inexistente em si mesmo, embora possa ser considerado que exista através do Ser.

Exposta nesses termos, a «Unicidade do Ser» pode parecer a algumas pessoas como uma outra forma de «panteísmo». Mas, na verdade, essa expressão simplificada do que o Shaykh está falando não pode começar a fazer-lhe justiça, especialmente porque termos como «panteísmo» são quase invariavelmente empregados com uma intenção depreciativa e crítica. Quando o próprio Shaykh explica o que ele quer dizer com a afirmação de que o Ser é um, ele fornece uma das expressões mais sofisticadas e nuançadas da «profissão da Unidade de Deus» (tawhid) a ser encontrada no pensamento islâmico. Seus ensinamentos não dominaram a segunda metade da história intelectual islâmica porque as pessoas eram simplórias e, portanto, prontas a aceitar o «panteísmo» no lugar do tawhid — pelo contrário. O que Ibn Arabi fornece é um oceano inesgotável de meditações sobre a Unidade de Deus e sua relação com a multiplicidade de todas as coisas, uma síntese das várias correntes da intelectualidade islâmica que rendeu insights infinitos sobre a natureza da existência.

Deus em Si mesmo é Ser, e a não-existência não tem relação com Ele. Aquilo que separa «tudo o que é diferente de Deus» de Deus é a mistura da não-existência. Coisas, entidades, coisas possíveis, loci de manifestação, formas, atributos — estes são todos nomes aplicados àquilo que é diferente do Ser, à não-existência. Mas «não-existência» não significa o nada absoluto, uma vez que as coisas — quer como objetos do conhecimento de Deus «antes» de elas serem encontradas no cosmo, quer como entidades existentes dentro do próprio cosmo — possuem certos modos de existência relativa, ou seja, existência através do Outro, que é Deus, o Ser Necessário. No conhecimento de Deus as coisas não existem nem no cosmo nem em si mesmas. Mas elas existem em Deus de uma maneira análoga à forma como nossos pensamentos existem em nossas mentes. No cosmo as coisas não têm existência própria, mas elas deixam suas marcas e seus efeitos sobre o Manifesto, que é o Ser. O que na verdade se observa no universo é ou o Ser colorido pelas propriedades das coisas inexistentes, ou as coisas manifestadas pelo Ser. Mas jamais se vê as próprias coisas, uma vez que aquilo que é inexistente não está lá para ser visto; nem se vê Deus mesmo, uma vez que Deus em Si mesmo está além de toda percepção e de toda compreensão. O cosmo é Ele/não Ele. Na última análise, se vê apenas as propriedades dos nomes divinos, que são as qualidades e os atributos intrínsecos ao Ser.


A discussão da Unidade do Ser se concentra em torno de uma única palavra, wujud, que foi traduzida até agora como Ser, existência e encontrar. No presente contexto, duas dessas traduções serão empregadas, embora às vezes seja necessário recorrer à expressão «Ser/existência» para enfatizar o fato de que ambos os significados precisam ser compreendidos a partir de uma dada passagem.

Por «Ser» se entende wujud na medida em que ele designa a própria Realidade e Essência de Deus. Por «existência» se entende wujud na medida em que ele designa o fato de que certas coisas são encontradas no cosmo. Quando se discute a «existência», ela é contrastada com uma coisa ou entidade que existe. Logo se fala da existência do cosmo ou de uma árvore. Mas o termo «Ser» se refere estritamente a Deus em Si mesmo e não pode ser justaposto a qualquer entidade diferente do Ser, uma vez que a «coisidade» ou entidade de Deus é o próprio Ser.

Os filósofos muçulmanos, como muitos pensadores na tradição ocidental, distinguem entre a coisa em si mesma — ou sua «essência» ou «quididade» (mahiyya) — e a existência da coisa. Pode-se perguntar sobre qualquer coisa no universo, se a coisa está aqui para ser discutida e se ela existe. Dragões e fênixes são coisas para serem discutidas, mesmo que ninguém os tenha visto. De acordo com essa visão, a existência de qualquer coisa que se discuta pode ser discernida e separada — pelo menos pela mente — da quididade da coisa, exceto no caso de Deus. Ou, se se preferir, pode-se dizer que a «existência» de Deus é idêntica à Sua quididade, o que equivale a dizer que Ele é o Ser. Pode-se distinguir entre um homem e sua existência; mas não se pode distinguir entre Deus e Seu Ser, uma vez que Ele é o Ser como tal.

A palavra «quididade» deriva de uma tradução literal latina da palavra árabe mahiyya, que foi cunhada a partir da frase ma hiya, ou seja, «O que é isso?» Se esta pergunta é feita sobre qualquer coisa, a resposta será, é um cavalo, uma casa, uma galáxia, e assim por diante. Pode-se então discutir essa coisa sem levar em conta se ela existe ou não. Mas quando se pergunta, «O que é isso?» sobre Deus, a única resposta suficientemente ampla para incluir a realidade inteira de Deus é dizer «wujud» (o que, para o Shaykh, é um termo filosófico equivalente ao nome «Allah»). A quididade de Deus é o próprio Ser, e não se pode discutir Sua quididade sem levar em conta o Ser, uma vez que então se estaria discutindo algo mais.

Ibn Arabi adotou a maior parte do vocabulário conectado à discussão de wujud dos filósofos muçulmanos. O termo wujud não é mencionado no Corão, e a identificação entre ele e Deus ou o Ser Necessário (wajib al-wujud) parece ter sido feita originalmente em textos filosóficos, não nas fontes da tradição ou pelos teólogos e Sufis. Logo a compreensão do pano de fundo filosófico desta terminologia pode ajudar a perceber o papel de Ibn Arabi na síntese das escolas de pensamento islâmico. Mas no presente trabalho esta alusão à importância da contribuição da filosofia terá que ser suficiente. O Shaykh, deve-se notar de passagem, raramente emprega o termo mahiyya, preferindo seus sinônimos como entidade e realidade (cf. I 193.31), mas ele o usa em contextos instrutivos, como o seguinte:

A Unidade da Essência em Si mesma não tem quididade conhecida. Logo não se pode atribuir-Lhe propriedades, uma vez que Ela não é similar a nada no cosmo, nem nada no cosmo é similar a Ela. Portanto, nenhuma pessoa inteligente se compromete a falar sobre Sua Essência, a menos que com base em um relato recebido d'Ele. E mesmo quando se traz o relato, se é ignorante da relação dessa propriedade com Ele, uma vez que se é ignorante d'Ele. Logo se tem fé nisso exatamente como Ele o proferiu e o conhece, uma vez que, de acordo com a Lei e a razão, as provas só podem ser oferecidas para negar a similaridade. (II 289.25)

Uma vez que o Ser do Real permeia o cosmo, ninguém O nega. Os erros surgem de buscar conhecer Sua quididade, e isso leva aos desacordos a respeito d'Ele que se tornaram manifestos no cosmo. (III 164.31)

Tanto os filósofos quanto Ibn Arabi tentaram explicar a relação entre o múltiplo e o Um, as criaturas e o Criador, as coisas existentes e o Ser, os existentes possíveis e o Ser Necessário. No contexto da terminologia filosófica, a questão básica pode ser formulada na simples pergunta: «Se Deus é wujud, as coisas também são wujud?» O Shaykh responde que Deus sozinho é o Ser, e a «existência» das coisas é idêntica àquele Ser, embora as quididades das coisas como quididades não sejam o Ser; em si mesmas as coisas são inexistentes. Em outras palavras, ele responde à pergunta: «As coisas são o mesmo que Deus?», dizendo: «Sim e não.» Elas são «Ele/não Ele.» As criaturas habitam em um terreno intermediário ambíguo ou barzakh cuja situação real é extremamente difícil de expressar em palavras. Ao tentar explicar sua situação, o Shaykh emprega a maior parte da terminologia usada pelas escolas filosóficas e teológicas, ao mesmo tempo que faz uso pleno das possibilidades fornecidas pelo Corão, o Hadith e os escritos e ditos dos Sufis.

Ibn Arabi emprega um número de conjuntos de termos para se referir às criaturas. Alguns deles são comumente usados na filosofia islâmica, outros pelos proponentes do Kalam, e ainda outros derivam do Corão e do Hadith. O Shaykh não faz nenhuma tentativa de manter esses conjuntos de termos separados. Tendo adotado vários termos técnicos como seus, ele os emprega como julga adequado sem levar em conta os contextos dos quais eles foram tirados. Para compreender suas explicações amplas e abrangentes da natureza do Ser e da existência, é necessário estar familiarizado com todas essas maneiras de expressar as ideias básicas. Logo, como o primeiro passo para a compreensão da riqueza de nuances envolvidas no conceito da Unidade do Ser, é necessário definir os termos técnicos relevantes mais importantes e ilustrar como eles são empregados.

O primeiro termo que precisa ser compreendido em relação a wujud é o particípio passado da mesma raiz, mawjud, que será traduzido como existente ou coisa existente. Uma coisa existente é uma entidade que existe em qualquer nível ou em qualquer mundo que se visualize; ocasionalmente o termo é também empregado para se referir a Deus mesmo como Aquele que possui a verdadeira existência ou o Ser, caso em que ele será normalmente traduzido como o Ser Existente. Os objetos que se encontra no mundo ao redor são todos existentes no mundo corpóreo, enquanto nossas ideias são existentes dentro de nossas mentes. Uma dada ideia pode corresponder a algo que existe «lá fora» ou pode não. Uma coisa conhecida por Deus, mas não encontrada no mundo criado, é chamada de «inexistente» (ma'dum), não em um sentido absoluto, uma vez que ela possui um certo modo de existência no conhecimento de Deus, mas no sentido de que ela não foi trazida à existência espiritual, imaginal ou corpórea.