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id da página: 12208 Chuang Tzu – Elorduy – Causa constitutiva do universo

Chuang Tzu Causa Elorduy

TaoChuang TzuElorduy – Causa constitutiva do universo

ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991

Causa constitutiva do universo (segundo Santo Agostinho)

A ociosa quietude do Tao nada retira da fecundidade de seu poder omnipotente. Não só os dez mil seres, mas também o universo inteiro, Céu e Terra, foram trazidos à existência por Ele. O Tao penetra por tudo, repetem os textos. Sua Virtude plasma e dá vigor a tudo. Os espíritos e até o mesmo Deus (Ti) recebem d'Ele seu poder.

Lao-tse cap. 1:

“Sem nome é o Princípio do Céu e da Terra e com nome é a Mãe dos dez mil seres”. Cap. 42: “Do Tao nasce a Mônada, da Mônada a Díada, da Díada a Tríada e da Tríada os dez mil seres.” No cap. 25 chama-lhe a Mãe do Mundo. Cap. 4: “Sua profundidade parece ser a origem dos dez mil seres”. Cap. 6: “O espírito abismal não morre. É a Fêmea misteriosa. A porta da Fêmea misteriosa é a raiz do Céu e da Terra. Sua duração é perene, sua eficiência inesgotável”. Cap. 14: “A origem primitiva é o desenrolar do Tao”. No cap. 21 chama-lhe Pai de todos os seres. Cap. 32: “O Tao é para o mundo o que os rios pequenos e as torrentes das ravinas são em relação aos grandes rios e ao mar”. Cap. 34: “O grande Tao é rio que se divide para voltar a reunir suas águas.” No cap. 41 diz-se que “Tudo se faz pela bondade do Tao ansioso por prestar-se”. No cap. 8 já o havia chamado Bondade Suprema.

Plotino compara também o Uno à fonte da qual nascem todos os rios:

“É o poder de onde procede tudo; sem Ele nada existe. Imagine-se uma fonte que não tem origem. Dá suas águas a todos os rios, no entanto não se esgota”.


Lao-tse diz no cap. 42: “O Tao os produz e o Te (Virtude) os cria”

Os textos de Chuang-tzu não são menos explícitos e seu conceito da criação está mais espiritualizado que o de Lao-tse. Neste, as frases desenrolar e rio que se divide denotam emanantismo. Chuang-tzu atribui a produção imediata dos seres à ação do Céu secundada pela da Terra. Mas o Céu e a Terra estão penetrados, como todos os demais seres, pelo Tao e Ele é a origem de seu poder (Te).

“Assim a Virtude é a que tudo penetra no Céu e na Terra e é o Tao quem atua nos dez mil seres” cap. 12 p. 79, 1.


Ao Tao chama frequentemente Criador.

No cap. 7 p. 55, 3: “Eu andava nesses momentos em companhia do Feitor das coisas.” No cap. 20, p. 138, 1, fala também de remontar-se deste mundo “para flutuar e andar com o Progenitor dos dez mil seres que faz as coisas sem se fazer coisa nas coisas.” A mesma ideia ocorre nos cap. 11 p. 77, 9 e cap. 22 p. 158, 10 e 161, 15.

No cap. 6 p. 52,13 e cap. 13 p. 91, 3, junta a ação criadora com sua alta transcendência: a criação nada acrescenta a suas perfeições:

“Mestre meu! Mestre meu! Tu destróis todos os seres e não está nisso tua justiça. Impregnas de teus benefícios todos os seres e não está nisso tua bondade. És mais antigo que os tempos remotos e não por isso és ancião. Cobres por cima e susténs por baixo o Céu e a Terra, modelas e esculpes todos os corpos e não está nisso tua arte” E acrescenta: “este é o mundo onde nos entretemos”.


No cap. 31 p. 236, faz-se dizer a Confúcio:

“Além disso o Tao é a origem de todos os dez mil seres. Todo ser se morre irremediavelmente se o perde e vive se o possui... Por isso os santos veneram a tudo aquilo onde se encontra o Tao”.


No cap. 6 pag. 47, 7, chama-lhe motor imóvel (“quietude motora”). No cap. 19 p. 130, 2:

“A criação dos seres está no não sensível e seu repouso é o imutável... Passear-se-á lá onde todos os dez mil seres têm seu término e seu começo. Unificada sua natureza, nutrirá seu pneuma. Manter-se-á unido à Virtude em comunhão com o Criador das coisas”.


No cap. 22 p. 156,7, Lao-tse diz a Confúcio que lhe pede instrução sobre o Tao:

“O Tao é arcano e difícil de exprimi-lo, mas o exporei sumariamente. A luz nasce da obscuridade, a ordem nasce do incorporal, o Espírito nasce do Tao. O corporal nasce do Espírito. Os dez mil seres nascem uns dos outros, de seus corpos”.


No cap. 25 p. 192, 11:

“Nas diferentes formas que dá aos dez mil seres o Tao não se deixa levar de parcialidades e assim fica sem nome” sem pronunciar-se nem intervir ativamente. Por isso pode fazer todas as coisas.


Quer Chuang-tzu dizer que o Tao não atende tanto ao bem particular como ao bem comum de toda a criação. No cap. 33 p. 242 diz do varão santo:

“Tem ao Céu por sua origem, à Virtude por sua raiz, ao Tao por porta”.


Céu, Virtude e Tao consideram-se aqui como uma mesma coisa. No cap. 6 p. 46, 6, depois que disse que o Tao é sua própria raiz e fundamento e que existe solidamente antes do Céu e da Terra, acrescenta:

“Faz espíritos tanto aos seres espirituais como a Deus (Ti). Dá vida ao Céu e à Terra”.


Continua uma longa enumeração de corpos siderais, homens e gênios poderosos que possuem seu poder e excelência por haver logrado a posse do Tao.

Apesar de não ser muito explícito este texto é muito interessante para a história das crenças religiosas da China antiga. O Deus Ti, tanto nos documentos das Odes e Crônicas das três primeiras dinastias (2205-255) conservadas por Confúcio, como nos ossos adivinhatórios achados recentemente no sítio da capital da segunda dinastia e nas inscrições dos bronzes, é o Deus que rege e governa como Soberano do Alto, os destinos da China. No taoismo de Lao-tse e Chuang-tzu aparece postergado pelo Tao. Apenas intervém nos assuntos deste mundo. O que aconteceu? Neste texto supõe-se que ele depende do Tao pois d'Ele recebe seu poder ou seu espírito: te como os demais seres. Lao-tse pospõe-no também ao Tao cap. 4. Cita-se outras duas ou três vezes em Chuang-tzu. Supõe-se que Ele dá a vida cap. 3 p. 25, 3. No cap. 15 p. 110, 3 diz-se do espírito do santo que é semelhante a Deus. No cap. 12 p. 82, 6, diz-se do santo que depois de mil anos ir-se-á à morada de Deus.

Parece ser que na nova concepção filosófica o Tao sobrepõe-se ao Deus Ti da fé patriarcal como uma superessência que dá seu ser e sua vida até ao mesmo Deus. Não o anula, mas rebaixa-o de categoria e reduz notavelmente seus poderes.

No cap. 12 p. 83, 8, precisa algo mais seu conceito da criação:

“No princípio existia o Nada. O Nada carecia de nome. Este foi a origem do Um. Existia o Um mas sem forma. O que deu a existência aos seres chama-se Virtude. Aquilo informe foi-se dividindo indefinidamente e chama-se mandato ou lei (ming). A alternância de repouso e movimento dá origem aos seres. Ao constituir-se um ser nasce sua razão ou norma e chama-se corpo. O corpo encerra ao espírito. Cada coisa tem seu próprio teor e chama-se natureza. Aperfeiçoando esta natureza volta-se à Virtude. Lograr a Virtude em grau supremo é identificar-se com a Origem. Identificar-se é voltar ao Vazio e o Vazio é grandeza”.


Pelo Nada, talvez, designe o mesmo Tao ou o vazio dos seres onde reside. O Um parece ser a Unidade cósmica. A Virtude do Tao inerente a esta Unidade, deu a existência aos seres.

O “mandato” ou os “mandatos” são as ideias ou formas exemplares de Platão. Aquele as concebia como formas intelectivas ou ideias. Chuang-tzu como vontade do Tao que assina a cada coisa sua espécie com sua forma ou corpo especial; “ao constituir-se um ser, nasce uma razão ou norma e chama-se corpo”.

O taoismo, apesar de sua passividade inoperante wu wei, atribui ao Tao uma intervenção mais voluntária e ativa que o platonismo e Aristóteles. Para Platão na perfeição da divina inteligência existe a ideia ou as ideias à imitação das quais os seres se aperfeiçoam a si mesmos. Para Aristóteles Deus nem se inteirou da existência destes.