ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
O Tao é a Verdade. O erro é, para o taoismo, o único pecado contra o Tao. Nele está a origem de todas as desditas e sofrimentos da humanidade. Chuang-tzu dedica a esclarecer o erro o capítulo segundo de sua obra. Intitula-o Identidade de todas as coisas. Como existe o erro? O erro não se acha nas grandes realizações do Tao senão nas pequenas, mais afastadas do Tao. As coisas, com sua mutabilidade e suas aparências enganosas, seduzem nossos sentidos. Diz Kuan Yin a Lieh-tzu cap. 19 p. 130, 2:
“Tudo o que tem um aspecto visível, som e colorido é coisa... Não há nelas outra coisa que o colorido ou o aspecto”.
No cap. 13 p. 97:
“O que pode ser visto são figuras e cores. O que pode ser ouvido, são nomes e vozes. Triste coisa! Os homens do mundo creem que as figuras, as cores, os nomes e as vozes podem bastar para captar suas verdadeiras realidades. Mas as figuras, as cores, os nomes e as vozes, na realidade, não bastam para aprender sua verdade. Por isso aquele que o conhece não fala e aquele que fala não o conhece”.
A esse mundo exterior de cores, figuras, sons e palavras, é a que Chuang-tzu chama wu, coisa. É o mundo dos sentidos em contraposição à verdadeira realidade do Tao, invisível e incognoscível. Diz no cap. 2 p. 15, 5: “Ao caminho lhe faz o andar por ele e às coisas as fazem seus nomes.” Identifica os nomes com as aparências das coisas percebidas pelos sentidos. Mas não devemos interpretar a frase no sentido idealista que nega todo valor real aos objetos de nosso conhecimento. Expressamente afirma a continuação o contrário e com grande asseveração:
“As coisas têm sua natural verdade, as coisas têm seu poder ser. Não há coisa sem sua verdade... O Tao, uno e idêntico, penetra em todas igualmente. Dividir as coisas é constituí-las e constituí-las é destruí-las. Nas coisas mesmas não existe esse fazê-las e esse desfazê-las, senão que se identificam na comum unidade”. Ibid.
A ideia de Chuang-tzu está clara. Em todas as coisas existe a verdade una e idêntica que é o Tao. As coisas as fazem os nomes com que as designamos — mau ou bom, útil ou inútil — segundo os juízos subjetivos que delas nos formamos obcecados por nossas simpatias ou repugnâncias. Diz pouco depois cap. 2 p. 16:
“O florescimento das distinções do é ou não é, (bom ou falso etc.), veio da decadência do Tao. Decadência devida à gênese do amor ou das simpatias”.
Isto é, do desejo. No Tao não cabe este desejo que implica uma imperfeição e carência do objeto desejado.
O problema da verdade não radica na verdade ontológica que é o Tao. É problema lógico ou criteriológico devido à dificuldade do entendimento de chegar diretamente ao Tao. Ao vermo-nos obrigados a usar dos sentidos e influenciados por nossa sentimentalidade de querenças e repugnâncias, extraviamo-nos e caímos no erro:
“Aqui têm sua origem, diz na p. 14, 4 do mesmo capítulo, o é e o não é dos letrados Ju (confucionistas) e dos discípulos de Mo-tzu. Fazem é o não é do outro e não é o é do outro. Querem que seja verdade o que o outro tem por falso e falso o que o outro tem por verdadeiro. Melhor lhes fora se o entendessem claramente uma vez. Não há coisa que não se possa chamar aquilo, nem há coisa que não se possa chamar isto. ...aquilo e isto não são mais que expressões que nascem agora mesmo. Nascem agora e morrem agora.”
No cap. 23 p. 170:
“Fazemos de nossa própria pessoa o essencial e o ponto de partida e que os demais se ajustem a nosso ritmo. É preciso que respondam a nossa batuta fielmente até morrer. Assim os que para mim são úteis, os declaro inteligentes e os que não me são úteis, idiotas. O que para mim é aberto e transitável, é honroso e o que para mim está fechado, é ignominioso”.
O verdadeiro e o falso, diz também Aristóteles, não está nas coisas senão na síntese que faz o entendimento.
Somente quando chegarmos a esquecer estas diferenças acharemos o bem-estar da paz, diz Chuang-tzu no cap. 19 p. 136, 13.
“Quando se esquece o pé, é que o calçado está bem ajustado. Quando se esquece a cintura, é que o cinto lhe está bem ajustado. Quando o entendimento esqueceu o é e o não é, é que o coração está bem ajustado. Quando nada altera o interior do homem e seu exterior não se vai atrás das coisas, é que as coisas procedem ajustadamente. Quando se começa bem e nunca deixa de estar bem, é quando se esquece o bem do que está bem”.
Na citação anterior do cap. 13 parece negar às coisas toda outra realidade que não seja a do Tao que reside nelas. Não são mais que aparências ou formas de que se reveste o Tao. Em outros lugares parece dizer o contrário afirmando uma espécie de matéria cósmica da que se vão formando os seres.
O ch’i, ou a matéria caótica taoista é um equivalente da matéria dos gregos. O Tao é a Forma sem forma que a modela. Ao falar dos seres voltaremos a ocupar-nos deste ponto.
Plotino nega também realidade própria aos seres que nascem e morrem. A realidade que têm não é mais que um empréstimo que se lhes tem feito. na Enéada sexta diz:
“O universo sensível não é uma verdadeira substância, senão só uma imagem da substância verdadeira (do mundo inteligível)... uma sombra e sobre esta sombra, imagens, puras aparências”.
Na quarta: “Todo ser corporal é um acontecimento e não uma substância. Nasce e perece, não existe em verdade”.
Ceticismo
Na Grécia, após os grandes filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, vieram os sofistas e semearam o ceticismo. Foi uma atitude de desconfiança no dogmatismo das escolas. Suas notas fundamentais são: a) objetivismo, b) relatividade do conhecimento, c) negação da possibilidade de conhecer as coisas em si mesmas, d) negação de todo critério objetivo para distinguir a verdade do erro, e) abstenção de todo juízo e suspensão de todo assentimento, f) tendência a conseguir desta maneira a tranquilidade, na qual consiste a única felicidade. Seus homens mais representativos foram Agripa (século I d.C.), Sexto Empírico (século III) e Luciano (125-200).
Chuang-tzu acusa também, no longínquo oriente, o impacto da turba de sofistas que semearam a dúvida na doutrina dos santos. Dado o desconcerto e confusão que se introduziu no mundo, conhecer a verdade é impossível. Só um santo nos poderia tirar do erro; mas os santos vêm ao mundo de tarde em tarde. Diz no cap. 2 p. 21, 12:
“Quando após mil gerações nos encontremos com um varão santo, teremos a explicação da noite para a manhã. Agora é impossível. Se tu e eu somos de diferente parecer e tu me vences a mim, acaso o teu será verdadeiro e falso o meu? Se chamamos a outro para que retifique, se é de tua opinião, como te poderá retificar? Se é de minha opinião, como poderá retificar-me? Se entre dois não é possível fazer luz, quanto mais difícil será que todo o mundo volte atrás de seu extravio”.
No cap. 12 p. 88, 15:
“Se caminham juntos três companheiros e um deles se extravia, ainda se pode chegar ao final da viagem porque os extraviados são os menos; mas se os que se têm extraviado são dois, terão mais trabalhos e não poderão chegar ao fim, porque os extraviados vencem em número. Pois agora está extraviado o mundo inteiro. Por mais que eu queira orientar-me não o lograrei. As grandes melodias não entram em ouvidos aldeãos; em troca se ouvem ares como che yang e huang hua, lançam-se a rir regozijadamente. Assim também os altos ensinamentos não pousam nos corações das multidões. As altas doutrinas não destacam. As vencem e sufocam os ditos vulgares. Se pois quando dois estão extraviados não logram chegar ao termo, agora que o mundo inteiro está extraviado, ainda que eu busque orientar-me, como poderei lográ-lo? Sabendo que é impossível, empenhar-me nele é também uma aberração. Por isso o melhor é deixá-lo e não empenhar-se em empurrá-lo”.
O autor do cap. 33 p. 244, mostra-se, também, apenado porque o mundo perdeu aquela segurança doutrinal dos antigos nos ensinamentos dos santos:
“Os estudiosos das gerações vindouras, desgraçadamente nunca poderão contemplar a pureza do Céu e da Terra, nem a grande unidade dos antigos. A doutrina ficou rota e excindida definitivamente”.
A esta vida no erro chama Chuang-tzu sonhar. Diz no cap. 2 p. 21, 12:
“Os que sonham que estão bebendo em um banquete, ao amanhecer choram de pena ao despertar-se. Ao contrário os que sonham que estão chorando, ao amanhecer encontram-se que estão divertindo-se em uma caçada. Só com um grande despertar se pode compreender o grande sonho que vivemos. Os estúpidos creem-se muito despertos”.
E termina o cap. p. 22:
“Antigamente Chuang Chou (Chuang-tzu) sonhou que era borboleta. Revoloteava gozosa. Era uma borboleta e andava muito contente de sê-lo. Não sabia que era Chou. De pronto desperta. Era Chou e se assombrava de sê-lo. Já não lhe foi possível averiguar se era Chou que sonhava ser borboleta ou era a borboleta que sonhava ser Chou”.
Para Plotino a vida da alma no corpo é também um sonho. Libertar-se do corpo é o verdadeiro despertar. Levantar-se com o corpo não é mais que passar de um sonho a outro. Os homens que vivem nesse sonho estão tão persuadidos que se se lhes despertasse dele, não acreditariam no que viam seus olhos e se voltariam a seu sonho anterior.