ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
Chuang-tzu busca a paz e a estabilidade neste mundo de contingências e neste ondular de sentimentos que perturbam a serenidade de seu espírito, e a encontra na unidade e identidade do Tao latente em todas as coisas. Sobre esta rocha do Tao alcança essa apatheia ou indiferença que foi também o ideal da filosofia grega e que passou dela à mística cristã.
“Todos os escritores que dependem literariamente do platonismo”, diz o Pe. Daniélou, “concordam em ver na apatheia o fim da virtude e na purificação katharsis o meio de chegar a ela”. O Pe. Festugière, citado pelo Pe. Daniélou no mesmo contexto, considera a apatheia como traço característico de sua espiritualidade desenvolvida à margem do Evangelho. Seus representantes são Clemente, Orígenes, Gregório de Nissa, Evágrio e o Pseudo-Dionísio. O Pe. Daniélou matiza esta afirmação. Enquanto em Filon e Plotino a apatheia é uma ausência total do pathos, em São Gregório é a própria participação da vida divina ou o estado de graça. São Clemente e Evágrio conservam mais o caráter negativo de calma e pureza de coração.
A importância que Chuang-tzu atribui a essa serenidade do espírito, na apatheia ou indiferença do vazio total de paixões, depreende-se dos numerosos trechos em que a elogia e recomenda. São mais de vinte e oito passagens. Citam-se algumas para que o leitor possa apreciar o seu teor.
O coxo Wang T’ai vê as coisas na inteireza de sua unidade e não em suas falhas ou deficiências. A perda de sua perna considera-a como perda de um torrão (c. 5 p. 36, 1).
Confúcio dá, em seguida, a razão do enorme atrativo que exercia sobre quantos o conheciam: a paz imperturbável de seu espírito.
No c. 6 p. 49, 8, fala de outro corcunda, lastimosamente deformado e enfermo. Perguntado se sua condição o entristecia, responde:
No final do c. 7 p. 59, expõe em poucas palavras o ideal de uma vida livre de todas as preocupações que possam perturbá-la:
No c. 13 p. 90, 1, dá a razão da serenidade de que goza: alcançou compreender a ação do Céu e a Virtude que atua nos santos e nos reis:
Seu coração, sem desejos próprios, chegou ao estado neutro da completa inércia. “Se age e se quer que a ação seja correta, deve deixar-se levar como a contragosto. Este deixar-se levar a contragosto é doutrina dos santos” (c. 23 p. 172, 17).
Deve ser “no movimento, água; na quietude, espelho; e nas respostas, eco” (c. 33 p. 249, 7).
Ser água, que se desliza entre as coisas sem opor-se a elas; espelho, que se contenta em refletir; e eco, que repete o que recebe.
1O Tao como fonte de felicidade (fons vivendae felicitatis) segundo Santo Agostinho.
No c. 20 p. 138, 1, exorta Chuang-tzu: “Meus discípulos! Tomai esta resolução: fazei do Tao e do Te a vossa única pátria.” Plotino chama a Deus da mesma maneira: “nossa querida pátria onde está nosso Pai.” No c. 6 p. 45, 4, compara Chuang-tzu a vida do homem no Tao à do peixe em suas águas profundas. Ali, não necessita de ajuda alguma. Na p. 51, 11 do mesmo capítulo, repete a mesma ideia:
Pouco antes:
Eu me farei amigo de quem “possa elevar-se ao Céu e vaguear entre as névoas, circular ali indefinidamente, esquecer-se da vida sem acabar com a morte.”
Eles, diz Confúcio em seguida, “acompanham o Criador das coisas e andam com Ele onde o Céu e a Terra formam um só Espírito.”
No c. 7 p. 55, 3:
No c. 19 p. 130, 2, explica essa vida no Tao:
No cap. 20 p. 138, seus discípulos põem Chuang-tzu em apuro: o corpulento tronco que vimos ontem no bosque pôde viver e crescer tanto por ser madeira inútil; e hoje, para nos obsequiar, mata nosso anfitrião o ganso que não sabe grasnar. Que posição toma o mestre: ser útil ou inútil? Chuang-tzu, rindo, responde:
No mesmo capítulo p. 139, 3:
“Olhará e não verá o termo, e quanto mais se adentrar, melhor perceberá sua infinitude.”
“O santo”, diz no c. 6 p. 45, 5, “vive onde as coisas não podem escapar, onde todas subsistem e nada se perde.”
No c. 22 p. 158, 11:
No c. 21 p. 148, 5:
O autor do c. 33 p. 249 e 250 diz do próprio Chuang-tzu:
Nos trechos citados descreve-se a felicidade taoísta em sua contemplação do Tao. É um absorver-se no pensamento do Tao que faz esquecer o mundo miserável dos sentidos e eleva à pureza da própria Verdade. Ali, passeia-se com Ele, esquecido do que faz e do que fará, sem lembrar-se nem de si mesmo. É, segundo o Sr. Suzuki, como uma criança a quem perguntam em casa, ao voltar de seus jogos: “Que fizeste toda esta manhã?” — “Nada”, responde. Na realidade, esteve tão ocupada em seus jogos que se esqueceu de sua casa, do tempo, de tudo. Chuang-tzu (c. 23 p. 167, 6) diz dessa criança:
No c. 6 p. 53, 14, chama essa absorção de “assentar-se no esquecimento”.
É surpreendente encontrar no taoísmo a mesma palavra — passear ou andar — para expressar a contemplação, a mesma usada pelos filósofos neoplatônicos e pelos místicos cristãos, por exemplo São Gregório de Nissa, que a recebeu deles.
Diz São Gregório de São Basílio:
Platão usa, em Fedro 249 c, a mesma expressão. Daniélou cita textos dos neoplatônicos Filon e Plotino que a empregam também.