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id da página: 13328 Chuang Tzu – Elorduy – Calma Paz Felicidade

Chuang Tzu Paz Felicidade Elorduy

TaoChuang TzuElorduy – Calma Paz Felicidade

ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991

Chuang-tzu busca a paz e a estabilidade neste mundo de contingências e neste ondular de sentimentos que perturbam a serenidade de seu espírito, e a encontra na unidade e identidade do Tao latente em todas as coisas. Sobre esta rocha do Tao alcança essa apatheia ou indiferença que foi também o ideal da filosofia grega e que passou dela à mística cristã.

“Todos os escritores que dependem literariamente do platonismo”, diz o Pe. Daniélou, “concordam em ver na apatheia o fim da virtude e na purificação katharsis o meio de chegar a ela”. O Pe. Festugière, citado pelo Pe. Daniélou no mesmo contexto, considera a apatheia como traço característico de sua espiritualidade desenvolvida à margem do Evangelho. Seus representantes são Clemente, Orígenes, Gregório de Nissa, Evágrio e o Pseudo-Dionísio. O Pe. Daniélou matiza esta afirmação. Enquanto em Filon e Plotino a apatheia é uma ausência total do pathos, em São Gregório é a própria participação da vida divina ou o estado de graça. São Clemente e Evágrio conservam mais o caráter negativo de calma e pureza de coração.

A importância que Chuang-tzu atribui a essa serenidade do espírito, na apatheia ou indiferença do vazio total de paixões, depreende-se dos numerosos trechos em que a elogia e recomenda. São mais de vinte e oito passagens. Citam-se algumas para que o leitor possa apreciar o seu teor.

C. 2 p. 20 e 21: “Ainda que o raio fenda as montanhas e o furacão agite o oceano, não se assombra. A mudança da vida e da morte não o perturba, quanto menos os acontecimentos bons e maus... Quando todos se afanam, o santo permanece apático como um néscio. Reúne todos os tempos na pureza da Unidade.”


O coxo Wang T’ai vê as coisas na inteireza de sua unidade e não em suas falhas ou deficiências. A perda de sua perna considera-a como perda de um torrão (c. 5 p. 36, 1).

Confúcio dá, em seguida, a razão do enorme atrativo que exercia sobre quantos o conheciam: a paz imperturbável de seu espírito.

“As pessoas não vão mirar-se na água corrente, mas na água quieta. Somente a quietude pode aquietar a todos na quietude.”


No c. 6 p. 49, 8, fala de outro corcunda, lastimosamente deformado e enfermo. Perguntado se sua condição o entristecia, responde:

“Nem a dor nem a alegria podem entrar em mim. É o que os antigos chamavam ter desatado o nó. Quando alguém não pode desatar-se é porque as coisas externas o têm atado.”


No final do c. 7 p. 59, expõe em poucas palavras o ideal de uma vida livre de todas as preocupações que possam perturbá-la:

“Não te faças cabide da fama. Não te tornes arquivo de projetos... Procura compenetrar-te com o Infinito e andar sem deixar vestígios. Ocupa-te apenas de fazer em ti o vazio. O coração do homem cume é como um espelho: a ninguém repele, a ninguém acolhe; reflete, mas nada guarda. Assim triunfa das coisas sem receber delas dano algum.”


No c. 13 p. 90, 1, dá a razão da serenidade de que goza: alcançou compreender a ação do Céu e a Virtude que atua nos santos e nos reis:

“Quem compreendeu o Céu... deixará que as coisas ajam por si mesmas, silenciosa e ocultamente, de modo que sua calma não se altere em nada. O santo vive em quietude, não porque tenha ouvido dizer que a quietude é boa, mas porque todos os seres não bastam para perturbar seu coração. Quando a água está quieta, é diáfana, e nela refletem-se os pelos da barba e os cílios dos olhos. Pois se a água quieta é diáfana, quanto mais o será o espírito.”


Seu coração, sem desejos próprios, chegou ao estado neutro da completa inércia. “Se age e se quer que a ação seja correta, deve deixar-se levar como a contragosto. Este deixar-se levar a contragosto é doutrina dos santos” (c. 23 p. 172, 17).

Deve ser “no movimento, água; na quietude, espelho; e nas respostas, eco” (c. 33 p. 249, 7).

Ser água, que se desliza entre as coisas sem opor-se a elas; espelho, que se contenta em refletir; e eco, que repete o que recebe.

1O Tao como fonte de felicidade (fons vivendae felicitatis) segundo Santo Agostinho.


No c. 20 p. 138, 1, exorta Chuang-tzu: “Meus discípulos! Tomai esta resolução: fazei do Tao e do Te a vossa única pátria.” Plotino chama a Deus da mesma maneira: “nossa querida pátria onde está nosso Pai.” No c. 6 p. 45, 4, compara Chuang-tzu a vida do homem no Tao à do peixe em suas águas profundas. Ali, não necessita de ajuda alguma. Na p. 51, 11 do mesmo capítulo, repete a mesma ideia:

“Os peixes vivem na água, os homens no Tao. Aos peixes, que vivem na água, basta cavar-lhes um poço, e ali têm garantido o seu sustento. Do mesmo modo, a quem vive no Tao basta nada fazer para estabilizar sua vida.”


Pouco antes:

Eu me farei amigo de quem “possa elevar-se ao Céu e vaguear entre as névoas, circular ali indefinidamente, esquecer-se da vida sem acabar com a morte.”
Eles, diz Confúcio em seguida, “acompanham o Criador das coisas e andam com Ele onde o Céu e a Terra formam um só Espírito.”


No c. 7 p. 55, 3:

“Eu andava neste momento em companhia do Criador das coisas. Quando me apraz, elevo-me cavalgando sobre a ave das profundezas e das misteriosas alturas, e passeio-me nas regiões do vazio onde nada existe, e moro naqueles vastos desertos.”


No c. 19 p. 130, 2, explica essa vida no Tao:

O homem que compreendeu isto — que as coisas não são senão colorido e aparência exterior, que sua criação reside no não sensível e seu repouso no imutável — este “guardará o seu posto e não se excederá... Passear-se-á ali onde os dez mil seres têm seu fim e seu começo. Unificada sua natureza, nutrirá seu pneuma e manter-se-á unido à Virtude em comunhão com o Criador das coisas.”


No cap. 20 p. 138, seus discípulos põem Chuang-tzu em apuro: o corpulento tronco que vimos ontem no bosque pôde viver e crescer tanto por ser madeira inútil; e hoje, para nos obsequiar, mata nosso anfitrião o ganso que não sabe grasnar. Que posição toma o mestre: ser útil ou inútil? Chuang-tzu, rindo, responde:

“Também isto não está isento de inconvenientes; mas não, se alguém se eleva ao Tao e à sua Virtude, e ali flutua e se deixa embalar, sem desejar ser louvado nem vituperado — tanto pairando qual dragão nas alturas, como arrastando-se como réptil sobre a terra... Assim flutuar e andar com o Progenitor dos dez mil seres, que faz as coisas sem fazer-se coisa com as coisas.”


No mesmo capítulo p. 139, 3:

“Olhará e não verá o termo, e quanto mais se adentrar, melhor perceberá sua infinitude.”

“O santo”, diz no c. 6 p. 45, 5, “vive onde as coisas não podem escapar, onde todas subsistem e nada se perde.”


No c. 22 p. 158, 11:

“Se intentarmos passear com Ele por aquele palácio do puro vazio, não diremos, com uma só palavra que tudo sintetiza, que é infinito? E se nos pomos a gozar com Ele de sua ociosa inoperância, não é calma e silêncio, solidão e pureza, harmonia e ócio? Esvaziarei também minha vontade para andar sem rumo algum, ignorante de meu paradeiro. Irei e voltarei sem saber onde me deterei... Vaguearei por espaços imensos. A grande sabedoria chega a entrar naquele mundo, mas não chega a ver seu termo. Pois aquele que fez as coisas não está limitado pelas coisas.”


No c. 21 p. 148, 5:

“Possuí-lo é o mais belo e deleitoso. Quem houver alcançado essa beleza e se houver passeado nesse gozo supremo é homem cume.”


O autor do c. 33 p. 249 e 250 diz do próprio Chuang-tzu:

“Só ele foi capaz de passear com o Espírito do Céu e da Terra sem desprezar altivamente o resto dos dez mil seres... Nas alturas passeia-se com o Criador das coisas, e aqui embaixo gosta de fazer-se amigo dos que se desentendem das diferenças entre vida e morte, princípio e fim.”


Nos trechos citados descreve-se a felicidade taoísta em sua contemplação do Tao. É um absorver-se no pensamento do Tao que faz esquecer o mundo miserável dos sentidos e eleva à pureza da própria Verdade. Ali, passeia-se com Ele, esquecido do que faz e do que fará, sem lembrar-se nem de si mesmo. É, segundo o Sr. Suzuki, como uma criança a quem perguntam em casa, ao voltar de seus jogos: “Que fizeste toda esta manhã?” — “Nada”, responde. Na realidade, esteve tão ocupada em seus jogos que se esqueceu de sua casa, do tempo, de tudo. Chuang-tzu (c. 23 p. 167, 6) diz dessa criança:

“Pode estar olhando o dia inteiro sem pestanejar. Não se distrai com outras coisas. Caminha sem saber aonde vai. Detém-se sem saber o que vai fazer. Seu viver é deslizar-se com as coisas e balançar-se ao ritmo das ondas.”


No c. 6 p. 53, 14, chama essa absorção de “assentar-se no esquecimento”.

É surpreendente encontrar no taoísmo a mesma palavra — passear ou andar — para expressar a contemplação, a mesma usada pelos filósofos neoplatônicos e pelos místicos cristãos, por exemplo São Gregório de Nissa, que a recebeu deles.

Diz São Gregório de São Basílio:

“Tendo-se elevado acima do mundo inteiro e vendo-se como apertado no mundo visível, não suportava nem mesmo o Céu sobre si; sua alma elevava-se acima da esfera sensível do cosmos, frequentava os inteligíveis e circulava com as potências celestes.”


Platão usa, em Fedro 249 c, a mesma expressão. Daniélou cita textos dos neoplatônicos Filon e Plotino que a empregam também.