ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
É o que diz Santo Agostinho do Uno dos platônicos “lux percipiendae veritatis”. É a verdade imanente a todas as coisas e é ao mesmo tempo a inteligência que as conhece.
Em sua unidade se confundem o objeto inteligível e o sujeito inteligente. Convém estudar mais detidamente este ponto, porque muitos autores atribuem a esses grandes pensadores do taoismo o absurdo de uma harmonia maravilhosa nascida da inconsciência, de uma sabedoria subsistente em um sujeito sem inteligência. Com isto, privam o Tao de seu caráter divino, fazendo dele uma lei impessoal que rege a criação dos seres. Assim o grande Tao ocuparia na escala dos seres um grau muito inferior às criaturas inteligentes que foram criadas por Ele, vivem por Ele e entendem por Ele. “Se não pensasse nada, se fosse como um homem dormido, onde estaria sua augusta dignidade”, diz de Deus Aristóteles. Platão diz por sua vez: “Se nos persuadirá facilmente de que o pensamento e a vida não pertencem ao Ser Supremo e de que não participa da augusta e santa Inteligência?”.
Passou a Lao-tse e Chuang-tzu o mesmo que a Platão. Seu continuador na Academia, Espeusipo, não chegou a compreender a seu mestre, e voltou à tese pitagórica que colocava, como os eleatas, a imperfeição do germe primitivo antes da perfeição atual do ser desenvolvido, a potência e o caos antes do ato e a razão. Aristóteles, apesar de criticar muito a seu mestre, não se separa dele neste ponto tão importante.
A aparente inoperância do Tao e do Céu, sua expressão exterior, pôde induzir nos intérpretes de Lao-tse e Chuang-tzu a suspeita de sua impersonalidade inconsciente. É nas intervenções da vontade nas que mais se revela a personalidade. Ao Tao, em troca, não se lhe vê operar; não parece que intervém; parece que as coisas vão fazendo-se por si mesmas.
Com tudo, não se acha em toda a obra de Chuang-tzu uma frase que diga que o Tao ou seu Céu operem inconscientemente. Diz expressamente o contrário. No cap. 24 p. 185 lhe chama “o Grande Olho que inspeciona tudo”. Lhe dá atributos pessoais chamando-lhe Senhor, Mestre e Pastor cap. 6 p. 45; cap. 13 p. 95. A morte e a vida são disposição do Céu... que não nos seja grato se deve a nosso afeto às coisas. Eles (os Santos) têm particularmente ao Céu como a seu pai e o amam em seu coração, quanto mais ao Transcendente Absoluto. O homem considera a seu Rei superior a si e até se deixa morrer por ele “quanto mais por quem o é em verdade”, cap. 6 p. 44, 4.
Repetidas vezes se fala de remontar-se até o Tao para ir passear com o Criador ou Progenitor fazendo-se seu companheiro cap. 6. p. 50 e cap. 7 p. 55; cap. 20 p. 138, 1; cap. 33 p. 250, 8. Se fala de sua providência sem parcialismos cap. 17 p. 118,7:
O mesmo diz no cap. 25 p. 192, 11:
No monismo taoísta todo particularismo que nasce do desejo de destacar e adquirir renome deve ser suprimido imitando o anonimato do Tao.
Fala repetidas vezes de queixas que o Céu tem contra alguns homens e de seus castigos. Todas essas personificações puderam ser fictícias e recursos literários. Mas isso tem que aparecer de uma ou outra forma.
O Tao é a razão (cap. 16 p. 110) e é a verdade imanente às coisas (cap. 2 p. 14,4). Seria absurdo que razoasse inconscientemente sem conhecer sua própria razão e ordenasse sem conhecer seu ordenamento. Além disso o Tao rebaixa as coisas e, como sua causa, é preciso que exista antes que elas. Naquela sua anterior solidão não pode ser razão das coisas. Chuang-tzu e Lao-tse reduzem tudo à unidade do Tao. Nesta unidade não cabe a dualidade de sujeito inteligente e objeto inteligível como nos demais seres. Ele une todas essas diferenças. É ao mesmo tempo verdade inteligível e inteligência que conhece sua própria verdade. A posse de sua própria verdade é n'Ele a atualidade de sua inteligência. Não é uma coisa que pensa outra coisa, senão o pensamento cujo objeto é Ele mesmo e n'Ele as demais coisas. Nisto Platão e Aristóteles estão de perfeito acordo. Aristóteles compara a visão de Deus de si mesmo ao olhar imóvel de quem contemplasse um sol imóvel.
Chuang-tzu perseguia fins práticos e não se deteve nestes problemas metafísicos. A ele lhe interessava uma verdade estabelecida onde assentar sua vida neste mundo de mudanças e erros. Esta verdade é o Tao. A razão de que não destaque mais n'Ele sua consciência e personalidade é, além da humildade de seu anonimato, sua ditosa quietude inoperante. Como sua inoperância não obsta a que Ele tenha feito todas as coisas, tampouco deve obstar a que as conheça e se conheça a si mesmo.