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id da página: 13615 Chuang Tzu – O Tao é distinto dos seres – Elorduy

Chuang Tzu Tao Seres Elorduy

TaoChuang TzuElorduy – O Tao é distinto dos seres

ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991

No c. 6 p. 44, 4, [Chuang Tzu] chama-o [o Tao] expressamente de Transcendente e confere-lhe o título pessoal de Soberano.

“Eles (os santos) têm particularmente o Céu como seu Pai e o amam em seus corações; quanto mais ao Transcendente. O homem considera particularmente seu rei como superior a si e até se deixa morrer por ele; quanto mais por aquele que o é em verdade.”


No c. 22, p. 158, 10, dá duas notas dessa transcendência: sua infinitude e sua imutabilidade, dois atributos que o distinguem completamente dos seres:

“A grande sabedoria chega a penetrar naquele mundo, mas não chega a ver seu termo. Pois Aquele que fez as coisas às coisas não está limitado pelas coisas. As coisas têm seus próprios limites. São estes os contornos que as limitam. Mas os limites do ilimitado são o ilimitado de seus limites. Diz-se dele que é planície e vacuidade; que definha e morre. Mas Ele, de quem se diz cheio e vazio, não é cheio nem vazio. Ele, de quem se diz definhar e morrer, não definha nem morre. Ele, de quem se diz começo e fim (‘tronco e ramos’), não tem começo nem fim. Ele, de quem se diz congregar e dispersar, não é nem congregação nem dispersão.”


No c. 20 p. 138, 1 e no c. 11 p. 77, 9, repete que não se faz coisa nas coisas:

“Assim flutuar e andar com o Progenitor dos dez mil seres, que faz as coisas sem fazer-se coisa nas coisas.

“Só aquele que entendeu que quem faz as coisas, Ele não é coisa, poderá governar as gentes do mundo”.


No c. 12 p. 84, 9, pondera sua imutabilidade:

“Naqueles (os seres) alternam o movimento e o repouso, a morte e a vida, decadência e ressurgimento; nada disso se encontra aqui.”


Plotino diz o mesmo:

“Ele não é nenhum dos seres e é todos os seres. Nenhum deles, porque os seres lhe são posteriores; e todos, porque todos vêm dele” (Plotino, Enn. VI 7, 32 p. 105. O mesmo diz na Enn. V 2, 1 p. 33.).


Convém insistir nessa distinção entre o Tao e os seres, porque facilmente se faz de Chuang Tzu um panteísta ou se confunde seu Tao com a natureza dos seres criados. Se o Tao não é senão a ordem que reina no mundo criado, ou se se confunde com os seres, como interpretar este parágrafo do c. 22 p. 158, 10, onde diz que sua morada é o vau dos seres?

“Se tentarmos ir passear com Ele por aquele palácio do puro vazio (‘no qual nada existe’), não diremos, com uma palavra que o sintetiza, que é sem termo? E se nos pomos com Ele a gozar de sua ociosa inoperância, não é calma e silêncio, solidão e pureza, harmonia e ócio?”


No c. 7 p. 55, 3, faz também do vazio a morada do Tao:

“Eu andava, neste momento, em companhia do Feitor das coisas. Quando me apraz, remonto, como ave das profundezas e misteriosas alturas, para além dos seis pontos espaciais, e passeio nas regiões do vazio, onde nada existe, e moro naqueles vastos desertos.”


Ao fazer do Tao Feitor e Progenitor dos seres, supunha já Chuang Tzu que sua morada havia sido, em sua eternidade, antes da criação desses seres, o vazio de todo ser. Aqui o diz expressamente.

Além disso, a distinção do Tao com seus seres é dogma fundamental na ascese taoista. Esta não possui outra finalidade senão desprender, do candidato à santidade, a escória dos seres que se lhe foi pegando no rodar da vida, para possuir em sua pureza o Tao puríssimo. À imitação do Tao, deve dominar as coisas sem fazer-se coisa nas coisas. “Depois das três dinastias não há quem não tenha mudado sua natureza, fazendo-se coisa” c. 8 p. 60.

Ao Tao chama-se sempre eterno; em troca, duvida-se se os seres existiram sempre. As opiniões dos antigos santos não estão acordes a esse respeito. O Tao é imenso e sem termo; os seres constituem apenas um recanto do Universo. No c. 11 p. 75, 7, o mestre Kuang Ch’eng-tzu fala a Huang Ti do mais alto Tao:

“Ele é um ser infinito, e os homens creem que tem termo. Ele é um ser insondável, e os homens creem que tem fim... Quem perde esse Tao, em cima vê luz, mas embaixo é terra. Ora, tudo quanto vive nasce da terra e volta à terra. Assim, despeço-me de ti para entrar pela porta da Infinitude... Os homens morrerão todos; só eu seguirei vivendo.”


O Tao e o homem que o possui distinguem-se dos demais homens. Estes morrem e voltam à terra; Ele é eterno.

Em um parágrafo do c. 22, p. 159, citado anteriormente na p. 12, sublinha essa distinção com grande vigor e nitidez. Grande Pureza pergunta a Inoperância se conhece o Tao. “Eu o conheço”, diz. “É pluralidade ou não?” “É pluralidade, porque pode ser eminente e pode ser vil.” Grande Pureza consulta então Sem Princípio: “Entre Infinitude, que ignora o Tao, e Inoperância, que diz conhecê-lo, quem está na verdade?” Sem Princípio responde: “A ignorância de Infinitude penetrou mais fundo, e o conhecimento é mais superficial. O Tao não pode ser percebido. O que se percebe não é. O Tao não pode ser visto; o que se vê não é. O Tao não pode ser expresso com palavras; o que se exprime com palavras não é. Sabes que aquilo que dá figura ao figurado Ele não é figura?” Inoperância confundiu-o com os seres; por isso disse que é múltiplo. A Infinitude sabe que o Tao é incognoscível, insondável e não é nada do que tem figura, se vê e se ouve.

Mais dificuldade que essa distinção oferece ao exame outro ponto intimamente relacionado com ela: se o Tao é toda a verdade, que realidade resta para os seres? São estes nada mais que manifestações frágeis e extremamente mutáveis do Tao — não em sua eternidade, mas no tempo? Ainda nesse caso subsiste a referida distinção. Distinguir-se-iam como a expressão se distingue da verdade nela contida, o temporal do eterno, a Unidade da multiplicidade, o Infinito do limitado. Somente uma expressão adequada, diz Chuang Tzu, pode identificar-se com o seu objeto expresso. Mas os seres e suas denominações permanecem sempre inadequados para exprimir o Tao. Ele permanece sempre no anonimato, e só o silêncio se aproxima de exprimi-lo menos inadequadamente. A expressão adequada que pudesse identificar-se com seu objeto teria de ser una e infinita como Ele. Mas os seres são multidão.

Mas não diz Chuang Tzu que todas as diferenças se identificam no Tao? Sim, mas não diz como. Esse problema de reduzir à Unidade, vislumbrada por nosso entendimento, a pluralidade que nossos olhos veem foi sempre o problema difícil que atormentou as inteligências mais poderosas. A filosofia cristã nos diz que as unifica eminenter: com sua eminência de causa eficiente e de modelo de perfeição, à cuja imitação foram criadas. Sua exemplaridade é, também para Platão, a unidade para a qual converge a multiplicidade dos seres. Chuang Tzu viu a distinção entre os seres e o Tao, mas não vê os limites de sua separação. “Nem a palavra nem o silêncio são capazes de exprimir o termo do Tao e dos seres” c. 25 p. 195.

Mais adiante, ao tratar dos seres, procurar-se-á esclarecer se os seres possuem ou não em si mesmos uma realidade verdadeira.