ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
No c. 6 p. 44, 4, [Chuang Tzu] chama-o [o Tao] expressamente de Transcendente e confere-lhe o título pessoal de Soberano.
No c. 22, p. 158, 10, dá duas notas dessa transcendência: sua infinitude e sua imutabilidade, dois atributos que o distinguem completamente dos seres:
No c. 20 p. 138, 1 e no c. 11 p. 77, 9, repete que não se faz coisa nas coisas:
“Assim flutuar e andar com o Progenitor dos dez mil seres, que faz as coisas sem fazer-se coisa nas coisas.
“Só aquele que entendeu que quem faz as coisas, Ele não é coisa, poderá governar as gentes do mundo”.
No c. 12 p. 84, 9, pondera sua imutabilidade:
Plotino diz o mesmo:
Convém insistir nessa distinção entre o Tao e os seres, porque facilmente se faz de Chuang Tzu um panteísta ou se confunde seu Tao com a natureza dos seres criados. Se o Tao não é senão a ordem que reina no mundo criado, ou se se confunde com os seres, como interpretar este parágrafo do c. 22 p. 158, 10, onde diz que sua morada é o vau dos seres?
No c. 7 p. 55, 3, faz também do vazio a morada do Tao:
Ao fazer do Tao Feitor e Progenitor dos seres, supunha já Chuang Tzu que sua morada havia sido, em sua eternidade, antes da criação desses seres, o vazio de todo ser. Aqui o diz expressamente.
Além disso, a distinção do Tao com seus seres é dogma fundamental na ascese taoista. Esta não possui outra finalidade senão desprender, do candidato à santidade, a escória dos seres que se lhe foi pegando no rodar da vida, para possuir em sua pureza o Tao puríssimo. À imitação do Tao, deve dominar as coisas sem fazer-se coisa nas coisas. “Depois das três dinastias não há quem não tenha mudado sua natureza, fazendo-se coisa” c. 8 p. 60.
Ao Tao chama-se sempre eterno; em troca, duvida-se se os seres existiram sempre. As opiniões dos antigos santos não estão acordes a esse respeito. O Tao é imenso e sem termo; os seres constituem apenas um recanto do Universo. No c. 11 p. 75, 7, o mestre Kuang Ch’eng-tzu fala a Huang Ti do mais alto Tao:
O Tao e o homem que o possui distinguem-se dos demais homens. Estes morrem e voltam à terra; Ele é eterno.
Em um parágrafo do c. 22, p. 159, citado anteriormente na p. 12, sublinha essa distinção com grande vigor e nitidez. Grande Pureza pergunta a Inoperância se conhece o Tao. “Eu o conheço”, diz. “É pluralidade ou não?” “É pluralidade, porque pode ser eminente e pode ser vil.” Grande Pureza consulta então Sem Princípio: “Entre Infinitude, que ignora o Tao, e Inoperância, que diz conhecê-lo, quem está na verdade?” Sem Princípio responde: “A ignorância de Infinitude penetrou mais fundo, e o conhecimento é mais superficial. O Tao não pode ser percebido. O que se percebe não é. O Tao não pode ser visto; o que se vê não é. O Tao não pode ser expresso com palavras; o que se exprime com palavras não é. Sabes que aquilo que dá figura ao figurado Ele não é figura?” Inoperância confundiu-o com os seres; por isso disse que é múltiplo. A Infinitude sabe que o Tao é incognoscível, insondável e não é nada do que tem figura, se vê e se ouve.
Mais dificuldade que essa distinção oferece ao exame outro ponto intimamente relacionado com ela: se o Tao é toda a verdade, que realidade resta para os seres? São estes nada mais que manifestações frágeis e extremamente mutáveis do Tao — não em sua eternidade, mas no tempo? Ainda nesse caso subsiste a referida distinção. Distinguir-se-iam como a expressão se distingue da verdade nela contida, o temporal do eterno, a Unidade da multiplicidade, o Infinito do limitado. Somente uma expressão adequada, diz Chuang Tzu, pode identificar-se com o seu objeto expresso. Mas os seres e suas denominações permanecem sempre inadequados para exprimir o Tao. Ele permanece sempre no anonimato, e só o silêncio se aproxima de exprimi-lo menos inadequadamente. A expressão adequada que pudesse identificar-se com seu objeto teria de ser una e infinita como Ele. Mas os seres são multidão.
Mas não diz Chuang Tzu que todas as diferenças se identificam no Tao? Sim, mas não diz como. Esse problema de reduzir à Unidade, vislumbrada por nosso entendimento, a pluralidade que nossos olhos veem foi sempre o problema difícil que atormentou as inteligências mais poderosas. A filosofia cristã nos diz que as unifica eminenter: com sua eminência de causa eficiente e de modelo de perfeição, à cuja imitação foram criadas. Sua exemplaridade é, também para Platão, a unidade para a qual converge a multiplicidade dos seres. Chuang Tzu viu a distinção entre os seres e o Tao, mas não vê os limites de sua separação. “Nem a palavra nem o silêncio são capazes de exprimir o termo do Tao e dos seres” c. 25 p. 195.
Mais adiante, ao tratar dos seres, procurar-se-á esclarecer se os seres possuem ou não em si mesmos uma realidade verdadeira.