ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
Como São João do Logos, Lao-tse e Chuang-tzu fazem do Tao a fonte da vida. A sua ação vivificante chama-se Virtude. Virtude Superior que não precisa de se esforçar e trabalhar porque tem virtude. Lao-tse cap. 38. “Sem Tao nada é durável” cap. 30. “Os dez mil seres vivem d’Ele” cap. 34. “A velhice é falta de Tao” cap. 55.
Em Chuang-tzu podem-se recolher numerosas citações além das que já citamos ao falar da sua ação criadora e da sua imanência:
Para o taoismo a conservação do dom divino da vida é a obrigação mais sagrada e perder a vida, por ambição ou descuido, o pecado maior. Para o cristão, que tem postos os seus olhos na vida eterna do outro lado da morte, a vida daqui não tem mais valor que o de meio de obter aquela. O taoista, para quem a vertente do ultratúmulo é muito obscura e incerta, agarra-se com mais empenho a esta vida daqui. A respiração rítmica, os exercícios gimnásticos do yoga tais como os de mover os braços como as aves as suas asas, o pendurar-se de uma árvore apoiando-se no queixo como os ursos para lograr a longevidade de P’eng-tsou, eram já conhecidos. Chuang-tzu ri-se deles. Mais tarde praticarão a alquimia para extrair do cinábrio o ouro assimilável e evitar a corrupção e intentarão a endogênese do homem imortal combinando o ar digerido com o esperma. Talvez não haja povo que tenha apreciado e venerado tanto a longevidade como o chinês. O taoismo tem contribuído muito para isto, como também para o efeito contrário da indiferença apática perante a morte. O taoismo quer que a equiparemos à vida tomando-as como fases sucessivas de um mesmo movimento pendular ou como a alternância do dia e da noite.
Conservação da vida
Para Lao-tse as guerras são funestas. Privam a muitos do dom divino da vida. São também prejudiciais as preocupações excessivas, as ambições, os abusos de prazeres carnais. Vejam-se os cap. 8, 10, 31, 44, 46, 55, 69. Neles, ao falar contra a guerra, torna-se eloquente.
Chuang-tzu segue seu mestre. Para ele, perante a conservação da própria vida, nada contam os serviços sociais, nem o amor ao próximo levado ao heroísmo. Tão condenável é o virtuoso Po I como o bandido Chih. Este perdeu sua vida por cobiça de riquezas, aquele por ambição de fama e renome. “Em arruinar a vida e causar grave prejuízo à sua própria natureza são iguais o bandido Chih e Po I” cap. 8 p. 61. Esta supervalorização da própria vida cobre o taoismo de uma mancha de egoísmo que dificilmente se pode lavar ou tornar honesta.
No cap. 28, p. 205, Abdicação ao trono, diz:
Não se pode objetar que o que se condena é a ambição de governar, nem que este capítulo não saiu da pena do mesmo Chuang-tzu. A recomendação de não sacrificar a própria vida está expressa muito eloquentemente nos seis primeiros capítulos tidos por autênticos.
No cap. 4 p. 32, diz: O corpulento carvalho que podia cobrir sob sua sombra vários milhares de bois é preterido pelo carpinteiro Shih. Seu aprendiz lhe pergunta por que deixa árvore tão boa: “Deixa-o, lhe contesta, não me fales dele, é má madeira. Assim pôde viver tanto.” Voltado para casa o carvalho lhe aparece em sonhos e lhe fala de sua alegria ao ver-se qualificado de madeira inútil.
Termina o capítulo:
No cap. 20 p. 140, 7 diz:
No cap. 24 p. 183 condena o imperador Shun elogiado como o imperador que mais trabalhou por seu povo:
No cap. 18 p. 124,1, diz que não chama boa a ação do herói que sacrifica a vida por outros, embora, por outra parte diga, salve muitas vidas.
Não quer isto dizer que o santo se nega a fazer benefícios. Ao contrário, só por ser santo, está fazendo bem a todo o mundo. Mas o faz sem prejudicar-se a si mesmo. Nem sequer deve afetar-se ou alterar em nada suas disposições internas. Deve amar sem cair na conta de que ama. É o seu um amor sem carinho, um obrar sem trabalho.
Os conselhos para conservar a vida se reduzem a seguir prazerosamente o curso das coisas sem opor-se a elas e sem violentá-las. Não gastar as energias vitais em afanar-se e discorrer planos. No cap. 3 p. 23, 1, recomenda seguir sempre a linha média (“a espinha dorsal”), evitando os extremos. No cap. 11, p. 74, Kuan Ch’eng-tzu aconselha ao imperador Huang Ti:
Tens de te fazer como uma criança que “caminha sem saber aonde se dirige, aconselha-se a Nan Yung Chu. Detém-se sem saber o que vai a fazer. Seu viver é deslizar com as coisas e balançar-se ao ritmo de sua ondulação. Este é o procedimento para proteger e conservar a vida” cap. 23 p. 167, 6.
No cap. 19 p. 129, aconselha desentender-se dos negócios para não fatigar o corpo nem gastar o espírito. No cap. 3 p. 23, o rei Wen Hui de Wei encontra na arte de desquartelar as reses de seu cozinheiro a melhor maneira de conservar a vida.
Um bom cozinheiro, diz este ao rei, precisa trocar uma faca cada ano e um ordinário precisa trocá-la cada mês, porque corta e golpeia as carnes e os ossos com ela. Eu levo dezenove anos com esta faca tendo desquartelado milhares de reses e ainda está seu fio como recém-saído da mó. Eu me acomodo ao Tao e sem cortar nem golpear nada vou introduzindo o fio da faca pelos interstícios naturais dos tecidos e contornando os ossos cuja articulação sempre deixa um vão.
O fio é nossa vida que a devemos introduzir pelo curso natural das coisas e sucessos. Sem golpear nem chocar nada, ir contornando os obstáculos.
No cap. 7 p. 55, 3 e cap. 20 p. 140,5, aconselha acolher as coisas tal como vêm e despedi-las quando se querem ir sem empenhar-se em evitá-las, corrigi-las ou retê-las. São o curso do Tao e isto deve bastar.