ELORDUY, Carmelo. Chuang- Tzu. Análisis y traducción Carmelo Elorduy. Caracas: Monte Avila Editores, 1991
É comum entre os filósofos antigos chamar Deus de o Uno. Plotino diz:
“É necessária uma unidade anterior à multiplicidade, porque a multiplicidade provém da unidade... caso contrário, os seres múltiplos estariam em estado de dispersão e apenas o acaso os reuniria” (Plotino, Enéadas V, 3, 12 p. 65).
“É preciso reduzir o pensamento até o verdadeiro Uno, diferente de toda multiplicidade. O Uno, que é toda simplicidade e verdadeiramente simples.”
Os pitagóricos, em sua concepção de um mundo construído por números, colocaram dois Unos: o Uno Superior e Transcendente (Deus) e o Uno que encabeça a série dos números criados. “O Uno primeiro está acima do ser e de toda essência, enquanto o segundo Uno, que é o ser realmente ser e inteligível, são as Formas.”
É surpreendente encontrar, no capítulo 42 de Lao Tzu, e apenas nesse capítulo, uma terminologia aritmética:
“O Tao engendra o Uno, o Uno engendra o Dois, o Dois engendra o Três, e o Três engendra os dez mil seres.”
Neste texto, Lao Tzu chama de Uno o conjunto do Céu e da Terra que provém do Tao. A esse conjunto — o Uno criado — parece referir-se Chuang Tzu quando diz: “A Grande Massa me carregou com o peso de meu corpo” c. 6 p. 45, 4 e 49,9. É o Tao imanente, cognoscível e nominável. Em sua transcendência, não tem nome; diz Lao Tzu no c. 1: “Sem nome é princípio do Céu e da Terra; com nome é mãe dos dez mil seres.” É a Unidade onde se identificam todas as diferenças do ser e do não ser (bom e mau) c. 2 p. 15, 5. “Naquela Unidade, tudo é ser. O ponto em que isto e aquilo não têm par é o eixo do Tao.” “No Tao nunca houve limites nem divisões” c. 2 p. 18. “Único é o Tao, mas não pode deixar de ser simples” c. 11 p. 78,11.
Característica da espiritualidade taoista é esse unitarismo, ou tendência a retornar à Unidade da qual nos separamos ao dividirmo-nos em nossas individualidades. Estas são consideradas, nessa mentalidade totalitária, como uma queda ou descida na escala do ser:
“A causa de nossa grande miséria é a nossa pessoa. Que calamidade poderia alcançar-nos, se não fosse por esta pessoa que possuímos?” Lao Tzu c. 13. No anonimato do tronco comum “não há ambições, e sem ambições há paz” c. 37. O c. 39 é um elogio à Unidade.
Em Chuang Tzu, a perfeição do homem e sua felicidade situam-se na unificação no Tao:
O grande problema, tanto para Platão quanto para seu eminente discípulo Aristóteles, foi o da unidade e individualidade do Ser Primeiro, que, sendo uno, é causa e razão da multiplicidade dos seres. Platão busca a solução colocando em Deus a Ideia criadora. Esta, em sua unidade, encerra as ideias da multidão dos seres, das quais o Bem Supremo é o modelo exemplar. Aristóteles começa a construir sua filosofia de baixo, pela sensação, que lhe dá notícia dos seres unos e individuais, mas imperfeitos. Em sua contingência e potencialidade, necessitam, para realizar-se e atualizar sua perfeição, do Ser Perfeito — uno e causa da multiplicidade. O taoismo não se aprofunda tanto nessas questões metafísicas; basta-lhe, para seu fim prático — a perfeição humana — constatar a unidade do Tao acima da multiplicidade dos seres criados por Ele.