Gilis: Doutrina Iniciática da Peregrinação
René Guénon: Questões de orientação
Outra questão conexa à da orientação é a do sentido das "circum-ambulações" rituais nas diferentes formas tradicionais. É fácil perceber que tal sentido é determinado, de fato, seja pela orientação "polar", seja pela orientação "solar", na acepção que demos anteriormente a essas expressões. Se considerarmos as figuras adiante1 o primeiro sentido será aquele no qual, olhando na direção do Norte, veem-se as estrelas girarem em torno do pólo (fig. 13). Em contraposição, o segundo sentido será aquele no qual se efetua o movimento aparente do Sol para um observador que olha na direção do Sul (fig. 14). A circum-ambulação se realiza constantemente com o centro à esquerda no primeiro caso, e, ao contrário, à direita (o que é chamado em sânscrito pradakshinâ). Esse último modo é o que se usa, em particular, nas tradições hindus e tibetanas, enquanto o outro encontra-se principalmente na tradição islâmica2 . A essa diferença de sentido se liga igualmente o fato de avançar o pé direito ou o esquerdo em primeiro lugar numa marcha ritual: considerando ainda as mesmas figuras, pode-se ver facilmente que o pé que deve estar avançado em primeiro lugar é forçosamente o do lado oposto ao lado que está voltado para o centro da circum-ambulação, isto é, o pé direito no primeiro caso (fig. 13) e o esquerdo, no segundo (fig. 14); e essa ordem de marcha é, em geral, observada, mesmo quando não se trata de circum-ambulações propriamente ditas, como se assinalasse, de algum modo, a predominância respectiva do ponto de vista "polar" ou do ponto de vista "solar", quer numa forma tradicional dada, quer mesmo às vezes para períodos diferentes no curso da existência de uma mesma tradição3 .
Dessa forma, todas essas coisas estão longe de se reduzirem a simples detalhes mais ou menos insignificantes, como poderiam crer os que não compreendem nada do simbolismo nem dos ritos. Elas são, ao contrário, ligadas a todo um conjunto de noções que têm grande importância em todas as tradições e disso poder-se-ia dar ainda muitos outros exemplos. Caberia bem, a propósito da orientação, tratar também de questões como as de suas relações com o percurso do ciclo anual4
e com o simbolismo das "portas zodiacais". Encontraríamos aí, além do mais, a aplicação do sentido inverso, que assinalávamos anteriormente, nas relações entre a ordem "celeste" e a ordem "terrestre". Essas considerações, porém, constituiriam aqui uma digressão demasiado longa e encontrarão, talvez, melhor lugar noutros estudos5
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