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Complementaridade

COMPLEMENTARIDADE

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Filosofia

Eudoro de Sousa

Se a complementaridade é digna de aceder à privilegiada posição de «teorema fundamental», quando aflora ao nível da metafísica, deixando ou tendo deixado indeléveis vestígios na simbólica a que o mito (do horizonte) dá suas «razões» peculiares, facilmente se vê como teríamos sido levados a procurar na religião a complementaridade radical.

Portanto, ainda no caso de só percorrermos a via da verosimilhança, temos de supor que, sem essa complementaridade vivida na ritual manipulação do símbolo ou dos símbolos, em que se constitui o fecundíssimo «lugar» do que «religião» se possa chamar, nunca poderíamos achá-la no mito e na metafísica. Se há, por exemplo, uma complementaridade na mitologia do horizonte e a mesma (diversamente expressa) na metafísica dos pré-socráticos; e se (cf. § 1) não existe qualquer relação genealógica entre mitologia e filosofia, isto é, se ninguém jamais pôde encontrar um caminho Von Mythos zum Logos, é porque ambas espelham uma complementaridade que já se tornara sensível na religião grega.

Insistimos no exemplo grego — numa religiosidade em que puderam conviver, abstendo-se de tumultuosa polémica, transcendência teística e imanência cosmogiológica, até o momento em que lemos estas surpreendentes linhas de um padre da Companhia de Jesus, professor de História das Religiões na Gregoriana de Roma: «embora se oponham no respectivo conceito do absoluto, do valor e da moral, e apesar de evoluírem em sentido inverso, 'teísmo' e 'cosmobiologia' deveriam ser complementares ... a história separou, deixando-os ligados a diferenças de cultura, os dois aspectos fundamentais da vida e do espírito, e tornou impossível a síntese, no que não ultrapassa o alcance da experiência humana».

Mudando, sem lhe alterar o sentido, o negativo em positivo, no último membro do período citado, teremos: «no que ultrapassa o alcance da experiência humana, a síntese é possível», pelo que se obtém, explicitando o que, evidentemente, está implícito: (o cristianismo) ainda que, de certo modo, irracionalizável, vive da complementaridade da transcendência e imanência, isto é, no mesmo Deus, que «reside», além-horizonte («fora do alcance da experiência humana»), convergem duas concepções da divindade, opostas aquém-horizonte — a de um Deus, transcendente no término da linha que teria seu início nas culturas dos «caçadores primitivos» e a dos deuses imanentes desde o início da linha que uniria a religião dos «plantadores primitivos» às que, no mundo clássico, foram chamadas de «Mistérios».

Quando chegamos ao limiar do mundo clássico, as duas formas de consciência religiosa que, até então, se opunham «no respectivo conceito do absoluto, do valor e da moral», mas que predominavam, cada uma delas, em diferentes culturas, encontram-se, conviventes, na mesma cultura, sem que os respectivos portadores se apercebam claramente da oposição que apelaria para um pensamento de complementaridade, porque a imanência cosmobiológica e a transcendência teística se repartiam por deuses que não eram os mesmos. Uns, eram deuses que morriam e, morrendo, se transmutavam nas coisas mais valiosas que existem no mundo; outros, eram os «imortais». Mas, chegando ao término, depara-se-nos o Cristo, no qual se adunam a transcendência tão altissonantemente proclamada pelos profetas de Israel (e não tão claramente, por alguns filósofos da Grécia) e a imanência vivida pelos adeptos gregos ou orientais helenizados dos cultos mistéricos. Agora, não há ilusão possível: o mesmo Deus é, aquém-horizonte, uma coisa e outra, sem que possamos pensar e dizer se, além-horizonte, Ele já é uma coisa ou outra, não sendo nem uma nem outra.

No que não ultrapassa o alcance da experiência humana, estala fragorosamente o paradoxo de Tertuliano: «Cruxifixus est Dei filius: non pudet quia pudendem est; et mortuus est Dei filius; prorsus credibile quia ineptum est; et sepultus resurrexit: certum est quia impossibile» — mas há, sem dúvida, uma praeparatio euangelica: um «deicídio primordial» que será no Cristianismo, o mysterium fidei por excelência, já fora, no paganismo do Mediterrâneo Oriental, mito comogónico. Decerto: do Corpo de Cristo assassinado nunca se disse que nascera este mundo natural, mas hoje, quando tanto e tão frequentemente se fala de um Cristo Cósmico, há que pensar, ainda que por via heterodoxa, que a Revelação ainda não alcançou o seu término. Ou então, que ainda não se extraíram do já Revelado, todas as possíveis e admissíveis consequências. Se «natural» e «sobrenatural» se opõem, que nos impede de considerá-los como complementares? ("Sempre o mesmo acerca do mesmo")