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id da página: 579 Coomaraswamy Sabedoria Comum Mundo Ananda Coomaraswamy Rama Coomaraswamy

Coomaraswamy Sabedoria Comum Mundo

Coomaraswamy – A Sabedoria Comum do Mundo


Quando Deus é nosso mestre, todos os homens estão de acordo. É sábio escutar, não a mim, mas à Palavra que sempre É, e compreender que todas as coisas são Um. A Palavra é comum a todos. Assim diziam, vericissimamente, Xenofonte e Heráclito.

Muitas vezes argumentei que a Palavra que foi transmitida na tradição ocidental desde os pré-socráticos até o presente dia, e a Palavra à cuja escuta nos referimos na Índia com o nome de sruti, audição, e que corresponde ao que no ocidente se chama Escritura, são uma e a mesma. Durante muitos anos cotejei passagens paralelas provenientes de fontes orientais e ocidentais nas quais foram enunciadas doutrinas idênticas quase nos mesmos termos, e muitas vezes, certamente, com as mesmas frases e fazendo uso de palavras etimologicamente equivalentes; isso não foi feito de forma alguma com vistas à demonstração de qualquer tipo de influências literárias, mas apenas para mostrar que as doutrinas em si são aparentadas, no mesmo sentido em que são aparentados os étimos, e.g., do grego e do sânscrito, isto é, que são de uma origem comum. A seguir, cito alguns exemplos representativos destes cotejos.

O Que É

Eu sou o que Eu sou. (Exodo 3.14) O Que É é o principal dos nomes que se dão a Deus. (Damasceno, De fide orth.) Ele é, só com isso pode Ele ser apreendido. (Katha upanisad 6.13).

O Companheiro de Viagem

Eu não te deixarei, nem te abandonarei. (Josué 1:5; Hebreus 13:5). Eu estou contigo. (Gênesis 28:15). O maior de todos os benefícios da alma que se esforça e se afana é que tem a Deus por companheiro de viagem, Deus cuja presença se estende a todas as coisas. (Filo, Somn. 1.178). Tu não estás sozinho, Deus está dentro de ti, como teu Genio (Daimon = Yaksa). (Epicteto 1.4.12). Há sempre outro que caminha junto a ti, que marcha suavemente envolto em um manto pardo, com a cabeça coberta. (T. S. Eliot, Thewasteland 362, 363). Certamente, eu O adoro como o “Outro que nunca está ausente” (dvitiyo napaga); aquele que O adora assim, tem a este Outro. (Brhadaranyaka Upanisad 2.1.11, Kausitaki upanisad 4.12). O Sannyasin, “cujo fim é a beatitude, que aqui na terra não more com ninguém senão o Si mesmo como Companheiro” (atmanaiva sahayen a, Manu 6.49). O Buddha “ensina a via à Companhia com Brahma” (Majjhimanikaya 2.206-7); observe-se que Brahmacari, “o que caminha com Brahma”, corresponde ao theo sunopados de Platão em Fedro 248C. “Eu não estou sozinho, tenho a Deus como meu Companheiro, que nunca te abandona, em casa ou fora de casa, dormindo ou acordado, na vida ou na morte… Sempre que tu O lembrares, Ele está junto a ti” (al-Ghazali, Ihya, 2, p. 202 e Bidayatalhidayat 39, citado por Margaret Smith, al-Ghazali, 1944, pp. 95, 98). O próximo, o companheiro, e o companheiro de viagem é Ele. Nos farrapos dos mendigos e nos brocados dos reis está Ele. (Jami, citado no Majmuulbahrein, Introdução, de Dara Shikoh).

O Amor do Si mesmo

É minha natureza e minha vontade reverenciar aos Deuses; eu amo a meu Si mesmo. (Eurípides, Helen 998, 999). Há um “Amado” primordial por cujo amor se amam todas as coisas… Não é por amor de nenhuma coisa “amada” que se ama ao Amado. (Platão, Lísias 219, 220). Aquele que ama ao Si mesmo (philautos = atmakamah) é “aquele que em todas as coisas ama e obedece à parte mais divina de si mesmo… essa que é cada um de nós, ou que é principalmente… Daqui que o homem bom será o que ama ao Si mesmo no grau mais alto, embora em outro sentido que no daquele que ama ao suposto si mesmo a modo de reproche” (Aristóteles, Etica nicomaquea 9.8.6), “Não se trata de que não se deva amar a criatura, mas de que se leve o amor ao Criador; então já não será desejo, mas caridade” (Santo Agostinho, De Trin. 8). “Um homem deve amar a si mesmo mais do que a qualquer outra pessoa… mais do que ao seu próximo” (São Tomás de Aquino, Summa Theologica 2-2.26.4). “Ao marido não se ama por o amor do marido, mas por o amor do Si mesmo… À esposa não se ama por o amor da esposa, mas por o amor do Si mesmo. Aos filhos não se ama por o amor dos filhos, mas por o amor do Si mesmo… Aos mundos não se ama por o amor dos mundos, mas por o amor do Si mesmo. Aos Deuses não se ama por o amor dos Deuses, mas por o amor do Si mesmo” (Brhadaranyaka Upanisad 4.5.6). “A caridade perfeita não admite o amor do indivíduo” (Chuang Tzu, cap. 14).

Não olhar atrás

Lembrai-vos da mulher de Ló. (São Lucas 17:32). Ló entrou em Segor… Mas sua mulher olhou para trás, e se converteu em um pilar de sal. (Gênesis 19:23, 26). Quando viajardes, não volteis atrás para as fronteiras… Com estas palavras Pitágoras advertia àqueles que partiam desta vida a não porem o desejo de seu coração em viver, e a não estarem atados pelos prazeres desta vida. (Diógenes Laércio, 8.17, 18). Orfeu recebe a sua esposa com esta condição, de que não volte atrás seus olhos até que tenha saído do Vale do Averno, ou caso contrário o dom seria em vão. (Ovídio, Metamorfosis 10.50-52). Entra, mas saiba que o que olha para trás não volta para fora de novo. (Dante, Purgatorio 9.131). Este dia cessaste de ver a luz do dia. Pensa apenas no que é bom… Quando começares a deixá-los (a teus parentes vivos) não penses neles com dor, e não penses em olhar para trás por eles. (dito dos índios Fox ao falecido, T. Michelson, On the fox indians, p. 417). Sobe, com Agni, até a abóbada, diz… Ao ir para o céu, eles não olham para trás, diz (Taittiriya samhita, 5.4.7.1). Os que vão para o céu não olham para trás, ascendem ao céu, ascendem ambos os mundos (Vajasaneyi samhita, 17.68); finalmente se estabelece assim no mundo do céu, caminha adiante sem olhar para trás, e põe um tição no altar Sacrificial (Sata patha brahmana 14.3.1.28).

A Moção a Vontade

O falecido se torna um “Osiris Justificado”… este Osiris pode ir a onde queira… (visto que tem poder sobre) todos os mistérios das formas divinas… que possa querer assumir. (A. Moret, The Nile and egyptian civilisation, 1927, p. 495). Entrarão e sairão, e sempre encontrarão prado. (São João 10:9). Agora, que tua deleitação seja teu guia. (Dante, Purgatorio 27.131). Seremos tão sutis de corpo e de alma, que estaremos velozmente onde formos requeridos corporalmente, da mesma maneira que agora estamos em nossos pensamentos espiritualmente. (Cloud of unknowing, cap. 59). Onde há moção a vontade. (Rgveda samhita 9.113.9). Aqueles que falecem, tendo encontrado já o Si mesmo e esses desejos verdadeiros, se tornam movedores a vontade em todos os mundos (Chandogya upanisad 8.1.6); “acima e abaixo destes mundos: comendo o que quer, e assumindo a forma que quer” (Taittiriya upanisad 3.10.5).

O Dia Sempiterno

O Sol já nunca se porá. (Isaías 60:20). Esse dia verdadeiro, o dia não estará preso entre um ontem e um amanhã, o Dia Eterno que não amanhece nem anoitece. (Santo Agostinho, Inps. CXXXVIII). Contigo, hoje dura para sempre. (Joshua Sylvester). Realmente, Ele nunca sai nem se põe. (Aitareya brahmana 3.44). Uma vez chegado ao zênite, já não sai nem se põe mais, mas permanece em paz no meio… Certamente, para o Compreensor deste mistério divino, o Sol nem sai nem se põe; para ele sempre é de dia. (Chandogya upanisad 3.12.1, 3). Eu não amo os que se põem. (Qur'an 6.46). Meu Sol está mais além de todos os orientes. Seu “oriente” é apenas em relação a suas partículas. Sua essência nem sai nem se põe. (Rumi, Mathnawi 2.1107-8).

O Conhecimento do Além

O intelecto do falecido já não “vive”, mas ao submergir no éter imperecível, a sua é uma compreensão imperecível. (Eurípides, Helen, 1004-5). Não tem um conhecimento que seja de tal sorte que o conhecimento com o que se conhece seja uma coisa, e a essência com o que se é seja outra, mas que ambos são um. (Santo Agostinho, In Joan. Evang. 99.4). A alma unificada compreende sem compreender. (Mestre Eckhart, Pfeiffer, p. 634). Certamente, embora ali não “conheça”, no entanto conhece, e conhece embora não “conheça”; pois não há nenhuma parada do conhecimento do Conhecedor, devido à sua imperecibilidade. No entanto, o que conhece, não é uma segunda coisa, diferente e separada de Si mesmo… Pois, certamente, quando o Todo veio a ser nada senão o Si mesmo… por meio de que poderia Ele “conhecer” o quê? (Brhadaranyaka Upanisad 4.3.30, 4.5.15).

A Causalidade

Tudo o que vem a ser, vem à existência necessariamente pela operação de alguma causa. (Platão, Timaio 28A), Será A ou não será? Sim, se tiver lugar B, de outro modo não. (Aristóteles, Metafisica 6.3.1, cf. 11.8.8). Nada vem a ser sem uma causa. (Plutarco, Moralia 369 D). No mundo nada acontece por acaso. (Santo Agostinho, QQ CXXXIII.34). Eu vos ensinarei a Lei Eterna: Se isto é, torna-se aquilo; do surgimento disto, surge aquilo; se isto não é, aquilo não se torna; da cessação disto, cessa aquilo. (Majjhimanikaya 2.32). Isto daquilo e aquilo disto, em uma sequência produtiva. (Rumi, Mathnawi 2.982).

Uma lista extensa de tais dharma-paryayas preencheria um livro.