Relato e sonho: Durante um tempo, fui vítima de uma profunda obsessão, e entreguei-me sem descanso à meditação e aos exercícios espirituais, porquanto o problema de conhecimento me oprimia com dificuldades insolúveis. O que dizem os livros não me trazia nenhuma luz. Ora, certa noite, vivi um extase parecido a um sonho. Uma enorme doçura me embargava e produziu-se um resplendor fulgurante, seguido de uma luz muito diáfana que oferecia o aspecto de um ser humano. Observei-a atentamente e resultou ser a Ajuda das almas, o Imame da sabedoria, Primus Magister, sob um aspecto que me maravilhava e de uma beleza cujo resplendor me impressionou. Ele aproximou-se de mim, expressando desejos afáveis e saudações de modo que meu estupor cessou e minha surpresa deu lugar a um sentimento de familiaridade. Eu pus-me a exprimir-lhe minhas queixas pela inquietude que me causava este problema do conhecimento. “Volve a ti (desperta)”, disse-me ele, “e o problema restará resolvido”. “Como pode ser?”, perguntei. “O conhecimento que tu tens de ti mesmo, é uma percepção direta que tu tens de ti mesmo por meio de ti mesmo, ou o deves a algo distinto?”.
O próprio Sohrawardi faz alusão mais adiante ao significado desta conversação, em seu Livro das Conversações, págs. 483-484, parágrafo 208.
Quanto ao que eu creio pessoalmente a respeito deste problema (do conhecimento) menciono-o em meu Livro da Teosofia Oriental, mas não se pode insistir sobre ele aqui de maneira explícita, já que minha intenção neste livro era realizar uma investigação de modo que meu trabalho não se afastasse demasiado do programa dos Peripateticos, a despeito de que, se se analisar com cuidado este livro, se observará que ele não carece de elementos preciosos nem de tesouros que se ocultam sob um véu sutil. Se o ignorante não sabe descobri-los, não é culpa minha. Quanto ao trabalhador tenaz e investigador constante, este deve receber os ensinamentos que nele se estabelecem com firmeza, deve apoderar-se daquilo que até esse momento não havia tido a coragem de desejar e para o que eu lhe terei dado a coragem necessária. O caminho mais seguro que pode seguir o investigador antes de empenhar-se no estudo de minha Teosofia oriental, será o caminho que mencionei em meu Livro das Elucidações, onde se relata o que ocorreu entre o sábio Imame dos dialéticos e eu mesmo, na morada mística de Yabarsa, quando sua aparição conversou comigo. Para o investigador, este caminho consiste em primeiro lugar em fazer perguntas sobre si mesmo, para elevar-se depois ao conhecimento do que está acima dele. (Sohravardi, Livro das Elucidações)