CORBIN, Henry. En Islam iranien: aspects spirituels et philosophiques II. Paris: Gallimard, 1991
Ishraq e o ideal do Sábio Místico
- A teosofia como via do meio: Mollâ Sadrâ Shîrâzî, fiel à inspiração de Sohrawardi, define a espiritualidade ishraqi como um "entre-dois" (barzakh) que une o método da purificação interior dos sufis à busca pelo conhecimento dos filósofos.
- A crítica ao misticismo e à filosofia puras: O livro Hikmat al-Ishraq não se destina nem ao místico sem formação filosófica, que corre o risco de se perder, nem ao filósofo que se limita a problemas teóricos. A escola ishraqi exige uma formação filosófica sólida, mas também a realização espiritual pessoal.
- O pessimismo e a esperança: Sohrawardi lamenta a "tristeza dos tempos", onde as altas ciências foram abolidas e a via para a sabedoria-teosófica foi cortada. No entanto, ele sustenta uma "desesperança fiduciária", uma confiança que triunfa sobre o pessimismo, pois crê que o mundo jamais estará privado de um Sábio que mantenha a teosofia.
- A hierarquia dos Sábios de Deus: A teosofia oriental distribui os Sábios místicos em cinco graus, sendo o mais sublime aquele que possui tanto o conhecimento filosófico quanto a experiência mística perfeitos. Sohrawardi se coloca nesta categoria e, em contraste com a maioria dos peripatéticos, afirma que um místico sem filosofia é mais digno de autoridade do que um filósofo sem experiência mística.
- O Sábio perfeito como Khalifa: Sohrawardi afirma que o Sábio perfeito é o califa (khalifa) de Deus na Terra. Essa posição ecoa a crença xiita no Imã oculto (ghaybat), que, mesmo invisível para os homens, é o polo (qutb) espiritual do mundo e o garantidor de que o mundo não será privado da graça divina.
O conhecimento oriental e sua busca
- A pureza do Sábio e a natureza do conhecimento: A ascensão à sabedoria-teosófica é uma jornada que purifica o aspirante de paixões, erros e preconceitos. O conhecimento espiritual é visto como uma participação na luz incriada que reside no intelecto, permitindo ao Sábio ver as coisas em sua essência, além de sua aparência sensível.
- A denúncia da ciência moderna: Sohrawardi critica a mentalidade científica moderna, que, por falta de intelecto puro, dissecou e fragmentou a realidade, resultando em conhecimentos hipotéticos e duvidosos. Essa abordagem "sacrílega", que examina o sagrado com métodos profanos, perde de vista a totalidade e a certeza da verdade.
- O "Polo" e a hierarquia espiritual: A hierarquia de Sábios "orientais" é puramente espiritual e invisível aos homens, com seu líder, o Polo, igualmente oculto. Sohrawardi se alinha à tradição xiita que vê o Imã como este Polo, que, mesmo oculto, exerce uma autoridade espiritual irrefutável sobre o mundo.
- Condições para a teosofia oriental: Sohrawardi é claro ao afirmar que o seu livro não é para todos. O leitor deve ter um mínimo de experiência espiritual, como o "relâmpago divino" (al-bariq al-ilahi), uma efusão de luz que se torna um habitus, uma segunda natureza. Para os "orientais", a certeza das verdades espirituais é como a certeza das realidades sensíveis.
- A busca espiritual como "istishraq": A jornada em direção ao conhecimento oriental é chamada de istishraq, a "busca do Oriente". É uma peregrinação de um Sábio "peregrino místico" (mostashriq) que avança de estágio em estágio, de iluminação em iluminação, até a união final com a Luz, a aurora consurgens da alma.
- A metáfora do ferro incandescente: Para explicar a transformação do ser, Sohrawardi usa a analogia do ferro incandescente: assim como o ferro imita a luz e o calor do fogo, a alma, quando iluminada, adquire o poder da Luz, podendo realizar atos extraordinários e criar de acordo com o que imagina.
- A contribuição de Sohrawardi: A obra de Sohrawardi não apenas ressuscitou a sabedoria da antiga Pérsia, mas também a fundiu com o neoplatonismo, o sufismo e a gnose xiita, criando uma síntese única que se tornou a base da filosofia profética no Irã.
- A permanência da tradição: A doutrina de Sohrawardi influenciou gerações de pensadores xiitas, como Mir Damad e Qazi Sa'id Qommi. Eles reconheceram que o "Polo", o Imã oculto, é a garantia de que a sabedoria e a graça divina jamais desaparecerão do mundo.