A obra e o pensamento de Molla Sadra são fundamentais para compreender o movimento da Si‘a, seu desenvolvimento, formulação ideológica e até sua práxis. Com inteira justeza, H. Corbin partiu de Molla Sadra para centrar seus profundos conhecimentos sobre o pensamento islâmico iranio. Certamente, ninguém melhor do que Molla Sadra assinalou o sentido de viagem espiritual característico do movimento si‘i e suas consequências ideológicas. A antiga metafisica essencialista platônica, tão sabiamente estruturada no sistema aviceniano, transforma-se em certa metafisica do ato de existir, não da existência concreta, que é algo radicalmente alheio à sua mente. O ato de existir não dá origem a qualquer analítica existencial, mas a uma ontosofia da mudança: metamorfose fundamental; não apenas muda a forma como tal, mas também como substancia. Sua ideologia parte de fato radical: o estado de queda de uma alma raiz, pois ela é tudo, que deve erguer-se desde o abismo das trevas até o mundo espiritual angélico. O estado humano da alma é o nivel que permite esta análise, realizada por meio de quatro viagens simbólicas. A primeira é o ascenso físico: desde tudo aquilo que foi criado até a Verdade Suprema: Deus; seu conteúdo coincide com a física aviceniana. A segunda é o recurso teológico: desde Deus criador até a Essencia divina; seu conteúdo, essencia, nomes e atributos divinos, é a Ciência das coisas divinas. A terceira é o descenso místico: desde Deus criador por efusão luminosa até o mundo angélico, mas pela iluminação concedida por Deus; seu conteúdo é a ordem da emanação dos seres desde Deus como Luz das Luzes, o que permite conhecer os universos suprassensiveis e as inteligencias celestes. A quarta é o recurso místico: desde Deus no mundo criado; seu conteúdo é a ciência de si mesmo e o autoconhecimento da alma, ou seja: a sabedoria oriental. Somente quem conhece sua alma conhece seu Senhor. Assim se abrem as portas do sentido esotérico da ciência da unicidade e penetra-se até o mistério da Ressurreição definitiva. Para realizar esta síntese, Molla Sadra sincretizou o pensamento aviceniano com a interpretação israqi de al-Suhrawardi e a teosofia mística de Ibn Arabi. E esta obra situou-a no quadro da religiosidade si‘i, que cria, expunha e praticava como Islam integral autêntico. Sua concepção, portanto, constitui gnosofia do profetismo permanente.
Sem profetas não cabe qualquer tipo de saber autêntico. A inspiração divina colocou estes mediadores entre a ignorância humana e a sabedoria divina. Dentre estes profetas sobre-humanos, seis foram encarregados de revelar sucessivamente aos homens a Lei Divina: Adão, Noe, Abraao, Moises, Jesus e Muhammad. Com o último, encerra-se o ciclo da profecia no nivel da Lei (al-sana). Mas fica com isso encerrada a comunicação profética de Deus? De modo algum; se não podemos chegar à Lei sem a ajuda de Deus, dificilmente poderemos entendê-la sozinhos. Não precisamos de novo Livro, mas sim de um Mantenedor do Livro. Portanto, ao ciclo da profecia legal segue-se o da iniciação espiritual: a walaya ou profecia permanente, que durará até a aparição do Imam anunciador da Ressurreição definitiva. O conteúdo desta iluminação duradoura e sucessiva procede da essencia verdadeira profética, fonte da legislação profética exotérica de Muhammad e da revelação esotérica pessoal. Os quatorze imaculados: Muhammad, Fatima e os doze Imames constituem o Pleroma profético lumínico. Os Imames, durante sua rápida epifania terrena, mantêm o Livro e iniciam os fiéis em seu verdadeiro sentido: o esotérico. Assim até o XII Imam, cuja parusia definitiva revelará o último sentido oculto da Verdade, após este túnel que agora atravessamos: o tempo da ocultação. É certo que o verdadeiro sábio algo conhece de tudo isso; mas é verdade tão deslumbrante que cegaria os olhos do homem comum, inclusive dos fiéis, e os levaria a considerar os iniciados como idolatras. O próprio retiro de Molla Sadra é testemunho vivo dessa situação. E, contudo, é o único caminho da sabedoria. A filosofia da luz sem o Islam não atinge a Verdade; o Islam exotérico permanece na letra; somente o Islam da Si‘a logrou a concordância radical, ou seja: em sua fonte, da luz da inteligência filosófica e daquela outra da Revelação divina, colocando a Sabedoria no Nicho das luzes da profecia permanente. (Excertos de Miguel Cruz Hernández, "HISTORIA DEL PENSAMIENTO EN EL MUNDO ISLÁMICO, III: EL PENSAMIENTO ISLÁMICO DESDE IBN JALDUN HASTA NUESTRO DÍAS (LIBRO UNIV.- MANUALES)")^