O «Campo» da Imaginação
A doutrina da Imaginação em sua função psico-cósmica reveste um duplo aspecto: um aspecto cosmogônico, até teogônico (a «teogonia» dos Nomes divinos), a respeito do qual se deverá ter conta que se a ideia de «gênese» é aqui estranha a qualquer ideia de creatio ex nihilo, ela se diferencia igualmente da ideia neoplatônica de emanação; deve-se pensar ao invés no processo de uma iluminação crescente, levando gradualmente ao estado luminescente as possibilidades eternamente latentes no Ser divino original. Há em segundo lugar uma aspecto e uma função propriamente psicológicas; no entanto deve-se considerar que os dois aspectos são inseparáveis, complementares e homologáveis. Uma análise perfeita deveria abarcar a obra completa de Ibn Arabi; seria preciso um trabalho de dimensões consideráveis. No entanto um capítulo do grande livro das Conquistas espirituais (ou das Revelações) da Meca», esboça propriamente uma «ciência da Imaginação» (ilm al-khayal), e fornece um esquema dos temas que põe em obra. Ele nos atesta também a dificuldade de articular claramente os dois aspectos distinguidos acima. Mas sob algum aspecto, em algum grau ou faze que consideremos a Imaginação, que seja a seu grau de «Presença» ou «Dignidade Imaginadora» (Hadrat khayaliya) em sua função cósmica, ou seja como poder imaginativo no homem, sua característica é constante, e já o revelamos: é sua natureza e função intermediária, de mediadora.
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Doutrina da imaginação na sua função psico-cósmica e seus dois aspectos fundamentais:
- Aspecto cosmogônico ou teogônico, referente à "teogonia" dos Nomes divinos, caracterizado por um processo de iluminação crescente que atualiza possibilidades latentes no Ser Divino original.
- Aspecto psicológico, que é inseparável, complementar e homologável ao aspecto cosmogônico.
- Dificuldade de articular claramente os dois aspectos, conforme exposto por Ibn Arabi no capítulo sobre a "ciência da Imaginação" (´ilm al-khayal) do livro "As Conquistas (ou Revelações) Espirituais de Meca".
- Característica constante da Imaginação como função intermediária e mediadora, independentemente do aspecto, grau ou fase considerada.
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Função intermediária da Imaginação e sua relação com o símbolo:
- A Nuvem Primordial, o Suspiro de Compaixão existenciador divino, como intermediário entre a Essência Divina oculta e o mundo manifesto de formas múltiplas.
- O mundo das Imagem-Ideias (´alam al-mithal) como intermediário entre o mundo das realidades espirituais puras e o mundo sensível visível.
- O sonho como intermediário entre o estado "acordado" no sentido místico e a consciência desperta no sentido comum e profano.
- A visão do Profeta do Anjo Gabriel na forma de Dahya al-Kalbi, um jovem árabe conhecido por sua beleza, como exemplo de realidade intermediária.
- As imagens vistas em espelhos, que não eram objetos nem ideias abstratas, como exemplos de realidades intermediárias.
- A noção de símbolo como culminação da função intermediária, pois o intermediário "simboliza com" os mundos que media.
- Reconhecimento da complexidade extrema, e não de incoerência, na doutrina da Imaginação de Ibn Arabi.
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Âmbito vasto da ciência da Imaginação e suas diversas dimensões:
- Teogonia, ao meditar sobre a Nuvem Primordial e as teofanias do "Deus de quem todo ser é criado".
- Teogonia, ao meditar sobre as teofanias do "Deus criado nas fé", enquanto manifestações e ocultações dos Nomes divinos.
- Cosmologia, como conhecimento do ser e do universo enquanto teofania.
- Cosmologia, ao tematizar o mundo intermediário percebido pela faculdade imaginativa, onde ocorrem visões, aparições e histórias simbólicas.
- Ciência das teofanias dispensadas especificamente aos místicos e de todas as taumaturgias relacionadas.
- Capacidade de dar existência ao Improvável, ao que a razão rejeita, e ao facto de o Ser Necessário se manifestar numa forma pertencente à "Presença Imaginativa".
- Poder específico para fazer existir o impossível, efetivado pela Oração.
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Ciência da Imaginação como ciência dos espelhos e das contemplações paradisíacas:
- Ciência dos espelhos, de todas as "superfícies" espelhadas e das formas que neles aparecem, inserindo-se na teosofia especulativa.
- Teoria da visão e das manifestações do espiritual, partindo do princípio de que as formas que aparecem nos espelhos não estão neles.
- Geografia mística, o conhecimento desta Terra criada do barro excedente de Adão, onde todas as coisas existem no estado sutil de uma "matéria imaterial".
- Ciência das contemplações paradisíacas, explicando como os habitantes do "Paraíso" entram em toda a forma bela que concebem e desejam, tornando-a sua veste.
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Confirmação da ciência da Imaginação e sua importância epistemológica:
- Confirmação pela fervor dos crentes e pela experiência dos místicos.
- Relutância dos teóricos racionais (as-hab al-nazar) em aceitá-la, considerando-a uma "alegoria" ou atribuindo-a ao "distúrbio da tua imaginação" (fasad al-khayal).
- O carácter intermediário da Imaginação, situando-a simultaneamente no sensível e no inteligível, nos sentidos e no intelecto, no possível, no necessário e no impossível.
- A Imaginação como "pilar" (rukn) do verdadeiro conhecimento, a gnosis (ma´rifa), sem a qual haveria apenas um conhecimento sem consistência.
- A Imaginação como facultadora da compreensão do significado da morte, no sentido esotérico e físico, como um despertar.
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Aspecto psicológico específico da Imaginação e rejeição do psicologismo:
- Distinção entre imaginação conjunta ao sujeito (khayal muttasil) e imaginação autónoma e subsistente (khayal munfasil).
- Imaginação conjunta: inseparável do sujeito imaginante, incluindo imaginações premeditadas e espontâneas, como os sonhos.
- Imaginação autónoma: realidade "exterior" ao sujeito, subsistindo no plano do mundo intermediário, podendo ser vista por outros, geralmente místicos.
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Realidade ontológica da Imaginação autónoma e sua relação com a Imaginação absoluta:
- Subsistência das Imagens "separáveis" num mundo específico, onde a Imaginação é uma "Presença" com estatuto de "essência" (hadrat dhatiya).
- Capacidade de receber ideias (ma´ani) e Espíritos (arwah) e de lhes dar o "corpo apariencial" que possibilita a sua epifania.
- A forma do Anjo a projetar-se numa forma humana no plano da Imaginação autónoma (munfasil), que depois eleva a Imagem ao plano da Imaginação conjunta.
- Existência de uma única Imaginação autónoma, por ser Imaginação absoluta (Khayal mutlaq), identificada com a Nuvem Primordial que constitui o universo como teofania.
- Governo da Imaginação conjunta ao sujeito pela mesma Nuvem Primordial.
- Determinação das Leis divinas reveladas na modalização do Ser Divino na qibla ("orientação") da oração.
- Inclusão do "Deus criado nas fé" nesta Imaginação conjunta ao sujeito, também abrangida pela Compaixão divina e, portanto, pelos modos da Imaginação absoluta.
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Noção de Imaginação autónoma e sua relação com a experiência mística:
- Relevância da Imaginação separável e autónoma para a função da Imaginação "criadora" na experiência mística.
- Consideração de dois termos técnicos: "coração" e himma.
- Dificuldade de tradução de himma, concentrando-se no aspeto que abrange todos os outros: o "poder criativo do coração".